Iniciamos hoje a publicação de cópias que nos foram enviadas, de mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

 
Ex.mos Senhores,

Sou um dos muitos milhares de cidadãos que atravessaram os portões do agora condomínio de luxo quando esse edifício, no tempo da ditadura, servia de antro policial onde se prendiam, torturavam e assassinavam os que lutavam para que a liberdade e a democracia fossem bens comuns e vulgares no nosso país. Para um povo adulto, com história e memória, para qualquer cidadão decente, esse espaço, marcado pela ignomínia do livre arbítrio de criminosos que então faziam lei, devia merecer, no mínimo, respeito para com as vítimas dos esbirros da ditadura.
A vossa atitude de primeiro retirarem a placa evocando as últimas vítimas da PIDE e depois, acintosamente, a recolocarem “discretamente” de forma imperceptível, é um acto gratuito e ofensivo de prolongarem, agora ferindo a memória das vítimas, a acção da PIDE contra os combatentes pela liberdade. Nós, os que fomos vítimas da PIDE e todos os que não querem que Portugal seja habitado por um povo sem história nem memória, não vamos ficar calados nem inactivos. De todas as formas pacíficas e cívicas, mas decididas, não calaremos o nosso protesto nem a denúncia sobre as forma cínica como hoje pretendem fazer esquecer e branquear a PIDE e os seus crimes. Contem com isso, para vossa reflexão. A vossa ganância pelo lucro não pode, não vai, quebrar a defesa da história da liberdade neste país que implica a recordação para as gerações mais novas, do terror e da opressão que, durante décadas, nos oprimiu.
Com os melhores cumprimentos.
João Tunes

 
Em virtude do assunto em apreço dizer respeito à GEF – Gestão de Fundos Imobiliários, SA, sugiro uma visita ao link abaixo.
Com os melhores cumprimentos,
Miguel Cardina

 
Ex.mos Senhores,

Sendo amigo de alguns homens que sofreram na sede da PIDE as torturas de um regime infame, sede essa que se localizava onde ergueis agora um resplandecente condomínio de luxo, venho protestar pela vossa atitude gratuita e provocadora de, primeiro, retirarem a existente placa alusiva ao local, e, depois, a recolocarem em lugar pouco digno, de forma provocatória para com a memória de todos aqueles que não querem que se esqueça esse período negro da nossa História.
Senhores, se apagar o edifício já foi um crime a que os poderes públicos deram sequência, riscar a memória do local é um atentado sem nome contra todos os homens e mulheres portugueses que, na noite do fascismo, lutaram por um Portugal melhor.
António Marquês

 
Exmos Senhores,

No passado dia 18, enviei-vos, em nome da direcção do movimento «Não Apaguem a Memória», uma ligação para o blogue «Caminhos da Memória», onde tinha sido publicada uma Nota daquele Movimento.
Verifiquei esta tarde que a placa já está colocada na fachada da ex-sede da PIDE, mas NÃO com a visibilidade anterior: estava à altura dos olhos e encontra-se agora tão abaixo que só é vista por quem for a olhar para o chão. (Aliás, vinha-me embora convencida de que ainda não tinha sido recolocada quando, quase por acaso, a descobri.)
Independentemente do que o NAM vier a decidir, deixo aqui desde já o meu protesto, desta vez a título pessoal. Seja qual for o preço, não me calarei até que a placa seja reposta onde estava – e sei que estou longe de estar sozinha neste propósito.
Sou viúva de alguém que lá passou longos dias e noites de tortura de sono, horas e horas de interrogatórios. Naquela casa sofreu-se muito e ela pertence também à nossa História e não só, nem sequer sobretudo, a quem vier a habitá-la.
Cumprimentos
Joana Lopes

 
Ex.mos, Senhores

Passei, sob o regime anterior, grande parte da vida sempre na esperança de que ele acabasse. E mais do que manter essa esperança, mantive a ideia de Liberdade, de Democracia e dum Povo que tomasse conta do seu destino. Tínhamos, então, a mais completa restrição de direitos, uma pesada opressão; um Poder político usurpado, em nome de valores caducos, de interesses apenas adivinhados, e de uma linha política, provinciana e mesquinha, que ainda hoje nos cola no mais baixo da nossa História; e, para além disso, um Povo tutelado, bem vigiado, e obrigado à obediência.
Claro que eu e inúmeros antifascistas, se mantiveram essas ideias, alguma coisa terão feito por elas.
Nesse edifício, o da PIDE; funcionou uma peça fulcral do nosso “fascismo”. É um seu marco, um seu testemunho, uma peça da sua Memória. E essa memória, dentro das suas paredes, é também a da tortura, a do sofrimento, a do aviltamento humano, a do esmagamento da honra de muitos milhares de mulheres e de homens, que, perseguidos, excluídos da sua vida no seu próprio País, aí passaram, mais ou menos, um tempo da sua vida. Aí e nas prisões políticas. Por vezes, não tão poucas assim, muitos anos.
As paredes mantêm o eco dessa dramática História e estou certo de que, para quem as habita ou habitará, seria penoso ouvi-lo.
Escondê-la, essa sua História, por detrás duma placa que não se vê, só poderá trazer fantasmas onde deveria haver conhecimento e um “gueto” onde deveria existir um normal edifício aberto para a cidade. Com gente normal dentro.
Além de que é um grave desrespeito pela Memória histórica do nosso país. Desrespeito que a todos humilhará e envergonhará. Pode dizer-se que esse “esquecimento” não será esquecido.
Por isso, e dadas as circunstâncias presentes, venho lembrar a V. Excias. o mínimo do que ainda podem fazer: colocar, no local onde se encontrava anteriormente, a placa que lembra as últimas vítimas daquela polícia.
Com bons cumprimentos.
José Eduardo da Conceição Chagas Franco de Sousa

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