Um texto de Jorge Martins (*)

Um povo sem memória é um povo sem identidade. Uma comunidade que não cuida do seu património histórico é uma comunidade que não o merece. O Posto de Comando do MFA é, sem qualquer sombra de dúvida, o local mais emblemático do 25 de Abril. Foi daquele barracão (há 8 anos transformado em núcleo museológico), que os Capitães de Abril comandaram as operações vitoriosas de 1974. Que mais fazer para dignificar aquele espaço, preservar a memória do 25 de Abril e projectar a imagem do Concelho de Odivelas?

 
Agora, que temos nova vereação na Câmara Municipal de Odivelas e novo Vereador da Cultura, abrindo um novo ciclo autárquico, não se pode perder a oportunidade para dar um novo impulso ao Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA (NMPC).

Temos que reconhecer que, desde a sua inauguração em 24 de Abril de 2001 pouco se acrescentou ao legado de há oito anos e meio. Do balanço positivo, pode destacar-se o projecto “O Dia 25 no Posto de Comando”, que permitiu levar lá figuras públicas e protagonistas do 25 de Abril ou da resistência à Ditadura, em diálogo com os alunos das escolas do concelho. Pena é, que tenha tido uma vida intermitente. A reutilização de uma das salas (prevista inicialmente para ser uma sala de estudo do 25 de Abril), que tem alojado exposições temporárias, também constituiu um acréscimo às potencialidades do NMPC. O esforço junto das escolas para levar os alunos do concelho a visitar o Posto de Comando também tem sido uma preocupação dos responsáveis, mas não chega. Finalmente, e em abono da verdade, deve reconhecer-se a competência e a acção, desde 2001, dos técnicos da Divisão de Cultura, com destaque para o Dr. Miguel Ferreira.

Mas, se olharmos objectivamente para estes últimos oito anos, o essencial pouco mudou. O NMPC não deu nenhum passo significativo no sentido da criação de um serviço próprio que dinamizasse aquele espaço, que o dotasse de recursos diversificados (o filme que lá se vê é o mesmo de há oito anos), que produzisse os seus próprios materiais, que adoptasse um plano de actividades que passasse pelas escolas do concelho e de fora dele (a projecção exterior do NMPC não se consolidou). Em suma, tal como se adivinhava há oito anos, é indispensável disponibilizar dois ou três técnicos para organizar, programar, produzir e divulgar as actividades regulares do NMPC.

Tal como fiz há cinco anos junto do Vereador da Cultura de então, deixo aqui algumas sugestões sobre o que se podia fazer em prol da dignificação de um dos mais nobres recursos patrimoniais do Concelho de Odivelas:

1)      A Divisão de Cultura deveria destacar dois técnicos seus para se dedicarem ao Posto de Comando. Como o espaço é da tutela do Regimento de Engenharia nº 1, não se pode dar autonomia ao NMPC, o que seria o ideal.

2)      Elaboração de um Plano Anual de Actividades, por esses técnicos, que passe pelos seguintes aspectos:

a)      Instituição de um serviço educativo, que estabeleça contactos permanentes com as escolas, com ofertas e projectos renovados;

b)      Gravação, no Posto de Comando, de entrevistas em vídeo sobre os acontecimentos ali ocorridos, aos operacionais que lá estiveram em 25 de Abril, aos Capitães de Abril que por ali passaram e a protagonistas da Resistência e do 25 de Abril. O registo das sessões já realizadas constituiria um recurso importante;

c)      Produção de novos recursos, designadamente para os alunos que lá vão mais de uma vez em anos diferentes. Os alunos podem visitar o NMPC no 1º Ciclo, no 6º ano, no 9º ano e no 12º ano, pois os programas de História tratam o tema. As entrevistas acima referidas dariam óptimos filmes para ali passar.

d)     Diversificação dos recursos, de acordo com os níveis etários e curriculares dos alunos que visitam aquele espaço. Não se pode insistir em dar aos alunos do 1º Ciclo o mesmo que se dá aos do ensino superior;

e)      Criação de uma linha editorial para publicação de pequenos episódios e biografias de protagonistas da Resistência e do 25 de Abril, assim como outros materiais didácticos, para distribuição pelas escolas do concelho e destinados a trabalhar com os seus professores, designadamente os de História, nos anos em que os temas são abordados pelos programas escolares;

f)       Organização, no auditório do NMPC, de um ciclo anual de conferências em torno da Ditadura (polícia política, repressão, guerra colonial, resistência, censura, subdesenvolvimento) e do 25 de Abril (revolução, liberdade, descolonização, PALOPSs, União Europeia).

3)      Outro aspecto importante quanto ao NMPC é o seu reconhecimento e classificação enquanto património nacional. Um primeiro passo significativo, seria a classificação, pela Câmara Municipal de Odivelas, do Posto de Comando como Imóvel de Interesse Municipal, tal como fez para o Velho Mirante, também da Pontinha.

Aqui fica o desafio à Presidente da Câmara Municipal de Odivelas e ao Vereador da Cultura.

(*) Biografia de Jorge Martins

Advertisements