A Universidade Lusófona realizou recentemente um seminário com o tema “Memórias do associativismo e sindicalismo docentes”. Propuseram-me, então, que aí deixasse o meu testemunho, as minhas recordações, acerca de como nasceram os sindicatos dos professores. Acedi, com a satisfação de poder, deste modo, legar memórias. Memórias que, ao que sei, nem nas comemorações dos 30 anos dos Sindicatos dos Professores nascidos em Abril de 74, nem agora, na passagem do 40º aniversário do Grupos de Estudo (que estiveram na base da sua criação), interessaram às direcções sindicais. Desdobrámos essa intervenção em três partes – 1, 2 e 3 – para que se torne mais fácil a sua leitura nestes CAMINHOS DA MEMÓRIA. A primeira parte pode ser lida aqui e a segunda aqui.

 
Os primeiros passos do movimento sindical docente na absoluta legalidade

Chegou o 25 de Abril e, ainda antes do 1º de Maio, os GEPDES não aguardaram orientações políticas ou partidárias: os elementos da sua Comissão Coordenadora esqueceram outros objectivos nacionais, afastaram diferenças ideológicas e deram continuidade ao projecto que os unia e os movia, havia tantos anos.
Em Lisboa, reunimos a 28 de Abril. Éramos uma vintena de professores – uns mais velhos, como o Professor Tiago de Oliveira, outros, gente muito nova, de vinte e poucos anos, como o Paulo Varela Gomes. Apertávamo-nos por trás de uma mesa e, alguns, sentados em sofás, numa sala obscura do Sindicato do Ensino Particular, situado a meio da Rua Conde Redondo. Eram poucos os colegas de quem não sabíamos o nome. Entrevíamo-los para além de uma barreira de fumo que ameaçava ir, mais tarde, fazer das suas. Hoje, sabemos de muitos companheiros desses “caminhos de memória” que se passaram para outra dimensão. Adiante, não interessa. Pertencíamos quase todos aos Grupos de Estudo do Pessoal Docente do Ensino Secundário e Preparatório. À tarde, seguiu-se a noite e, após uma animada ceia no bas-fond da prostituição – num restaurante por baixo – entrámos pela madrugada dentro. Opiniões em catadupa. Este sugere, aquele exige, o outro recusa, pressa muita pressa, e – sobretudo – uma vontade transbordante de aproveitar a situação para pôr os pontos nos “ii” em matéria de ensino, dos direitos profissionais e do funcionamento das escolas públicas. Queríamos conseguir rapidamente um sindicato de professores que exprimisse a nossa voz. À hora do jantar, entre portas ou junto ao balcão, vários de nós são surpreendidos por uma convocatória, feita de boca no ouvido do parceiro, para uma reunião ainda clandestina, com um “camarada” do PCP. “Ai tu também eras do partido?” – era a frase que se repetia, na surpresa indescritível dessa meia dúzia de colegas, amigos desde sempre, a quem era pedida confidencialidade.
Reunião da Coordenadora do Grupo de Estudos de Lisboa, novamente em dia seguinte, com mais gente, do ensino oficial e do particular – já em representação de um número significativo de escolas. Fecha-se a fase de preparação: redige-se um stencil que alguém “policopiaria” e que, horas depois, seguiria para as escolas e para a Comunicação Social. Às duas da manhã, estava aprovado por unanimidade o primeiro comunicado que deveria chegar aos estabelecimentos de ensino de Lisboa, de todos os graus de ensino, oficial e particular. Histórico:

“A Comissão Coordenadora do Grupo de Estudo do Pessoal Docente do Ensino Secundário e Preparatório de Lisboa, em reunião com professores de escolas do ensino secundário, preparatório, primário e infantil, de Lisboa e concelhos limítrofes, considerando:
1º – que é abusiva e despropositada a atitude assumida por alguns directores de escolas de Lisboa de apoio à recondução do professor Veiga Simão no Governo Provisório;
2º – que a existência de um ministro do antigo regime neste Governo Provisório poderá dar imagem pública de uma Junta de Salvação Nacional hipotecada a ideias e personalidades do regime derrubado;
3º – que, à luz da nova situação criada pelo 25 de Abril, se torna urgente discutir e encontrar colectivamente a solução para os graves problemas que afectam o professorado
Convoca a classe para uma Reunião Geral de Professores, no dia 2 de Maio, às 21.30, em local que será oportunamente divulgado através dos órgãos de informação.”

A preparação da primeira Assembleia-Geral plenária de docentes de Lisboa estava terminada e iria ser imediatamente agendada para a Escola Preparatória Manuel da Maia. O ginásio comportaria, à vontade, uns duzentos professores. (“Será tanta gente, assim?” – alguns duvidavam). Descansámos. Ninguém pensou em mais nada.
Agora, o urgente, urgente, era começar a promover a eleição de delegados sindicais em todas as escolas, escolher uma mesa para dirigir os trabalhos, redigir uma moção e alinhavar nomes para uma proposta de Comissão Instaladora do Sindicato, que levaríamos à Assembleia. Entretanto, ir à Junta de Salvação Nacional pedir uma sede. Por esses dias do fim de Abril, a avalanche das tarefas que quase nos submergia não nos dava tempo para o sono. Chocávamos uns com os outros e com as questões inadiáveis: os nossos minutos enchiam-se de Revolução.

A 2 de Maio, o inesperado. Pelas 9 horas da noite, grande confusão no Bairro de Campo de Ourique. Os professores agitavam-se inquietos na rua, junto à Escola Manuel da Maia – “Calma, colega, calma!”, clamava-se. A procura de solução por parte dos mais experientes não chegou para responder com celeridade à situação. Choviam os protestos e já havia acusações. A determinação e a impaciência dos docentes de Lisboa caíram nos braços da Comissão Coordenadora dos Grupos de Estudo: de repente, não eram as esperadas centenas. Eram milhares e milhares a quererem participar, ansiosos por correrem com os directores e por sanearem o Ministério. Querendo resolver o problema dos eventuais, querendo remodelar os estágios e abolir de imediato o exame de estado. Cada grupo, cada escola tinha as suas prioridades na ponta da língua. Tive a sensação de que, a partir do desaire dessa noite, daquele nosso erro de cálculo, nós seriamos vistos ou como os salvadores ou como os responsáveis por todos os problemas sentidos pela classe.
A reunião começou, finalmente, (bastante tarde) no Pavilhão dos Desportos. O espaço enchera e transbordava.
Aprovou-se um telegrama para a JSN (de saudação e apoio ao MFA, e manifestando toda a disponibilidade para a colaboração na construção da Democracia). Aprovou-se a constituição de uma Comissão Instaladora do sindicato, com a vigência de apenas um mês, até à realização de eleições.
Encerrámos a assembleia num ambiente de euforia, sob uma chuva de aplausos e gritos que vinham de todos os lados. Era a Revolução.

Ainda na primeira semana, uma delegação – de que faziam parte a Elsa Oliveira, o Vítor Faria e Silva, a Lucinda Lopes e eu própria – tem uma reunião na Cova da Moura com representantes da Junta de Salvação Nacional. É-nos garantida a cedência de um espaço destinado à sede. No dia seguinte, partimos acompanhados por um oficial do MFA, como se fossemos gente que visita uma casa com o objectivo de a alugar. Pasmámos na sala de entrada da “Liga 28 de Maio”, na Rua das Gaivotas: milhares de cartões de identificação espalhados pelo chão, gavetas amontoadas fora dos armários, sem nexo, revolvidas, misturadas com fotografias do Salazar, do Américo Tomás e com bandeiras da Liga e da Legião Portuguesa, muito dobradinhas, prontas a serem exibidas no exterior do edifício – uma imagem que guardo do fim do regime. Igual a outras, eu sei.

 
Assim nascia o Sindicato dos Professores da Grande Lisboa

Daí em diante, a CIP, como ficou designada a referida comissão instaladora, viveu dia e noite na Rua das Gaivotas. Quinze professores insistindo numa permanente e estreita ligação com os colegas das escolas. Quinze professores de todos graus de ensino oficial e particular, que não estavam sequer dispensados de dar aulas. Quinze professores em reuniões contínuas, em clima de loucura revolucionária, com a Fátima Rodrigues, quase sem dormir, redigindo texto após texto, e distribuindo ponderação, competência, inteligência e serenidade. Com o Ludgero Leote hiper-activo, orientando os trabalhos de secretariado, vinte e quatro horas por dia. No espaço da entrada da sede, os professores apinhavam-se, fazendo fila – para dar o nome dos delegados eleitos nas escolas, para levar propostas, ou, não poucas vezes, para criticar a lentidão da actuação da CIP. Era a participação activa, como resposta a anos de mobilização dos GEPDES, no ambiente agora celestial da liberdade democrática.

Vivíamos arrastados por catadupas de deliberações que tinham o propósito de dar rapidamente início à valorização da função docente e ao debate das questões centrais do ensino. Mas, ao memo tempo, trabalhávamos afincadamente na preparação das eleições para a “Comissão Directiva Provisória do Sindicato dos Professores”, a CDP.

O SPGL começava a erguer-se sobre os escombros do fascismo, incarnando numa alma que já era a sua, havia muito, muito tempo – Cá para mim, de facto, desde o ano de 1969.

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