Depois do meu primeiro natal e mudança de ano, sem emboscadas, minas ou trocas de tiros, inconformado mas “adaptado”, lidando com o paludismo que me apanhara e a solidão que não me largava, vivendo intensamente, através da distância, o poema levado e trazido pelos aerogramas sobre a saga comovente de a minha primeira filha, a Catarina, estar a crescer na barriga de sua mãe, o insólito aconteceu. Alferes miliciano da tropa colonial, internado no noroeste da Guiné, em Pelundo no chão manjaco, então zona de impasse no conflito, fui condenado a uma pena de prisão. Numa cena corriqueira de entradas e saídas do quartel no mato, o comandante do batalhão, um tenente-coronel, ordena-me (eu estava de “oficial de dia”) que aplicasse um castigo corporal a um cabo do meu pelotão que regressava “desenfiado” (após a hora de recolher estipulada) ao quartel e que ele tinha visto a tentar regressar sorrateiro. Numa noite no mato da Guiné, enfiados naquela guerra estúpida, aquela ordem soou-me a muito mais absurda que a falha regulamentar do cabo. E senti-a como um insulto às nossas condições e circunstâncias. Pior, mais estúpida que a própria guerra. Reagi, recusando-me a cumprir a ordem e desafiei o tenente-coronel a tentar ser ele a cumprir a “pena” de agressão, mas avisando-o que, se o tentasse, contaria com a minha reacção. O assunto morreu (adormeceu) ali, o tenente-coronel enfiou-se nos seus aposentos, o cabo safou-se de qualquer sanção, eu terminei o meu “serviço” a olhar as estrelas das noites da Guiné. No dia seguinte de manhã, foi-me comunicada uma sanção disciplinar pelo meu comportamento “indigno de um oficial” por “desrespeitar as ordens dadas pelo seu comandante”: dois dias de prisão. O quartel não estava dotado de prisão pois os prisioneiros feitos na região eram entregues à PIDE que tinha calabouços e um centro de interrogatórios em Teixeira Pinto, ali perto e onde estava instalado o comando militar operacional da região. O diligente tenente-coronel mandou evacuar uma casamata que servia de abrigo e foi ali que cumpri a minha pena de prisão, estendida a três dias porque foi agravada por despacho do general Spínola, então governador e comandante-chefe da Guiné. Foi uma pena de prisão caricata, tendo havido um “levantamento” de solidariedade no quartel que eu próprio tive que desarticular, apelando ao bom senso dos “revoltosos” comandados pelo médico do batalhão que, com uma “força” e armados de G3, irromperam na minha casamata-prisão para “me libertarem”. Depois de parlamentarmos, assentámos numa plataforma de entendimento, substituindo a “libertação” pela organização de convívios em carrossel no espaço improvisado da prisão, cantando Zeca Afonso, jogando cartas e esgotando o stock do majestoso vinho de missa fornecido pelo capelão, também solidário na “revolta”. Ao fim e ao cabo, em vez de prisão prisioneira, o que aconteceu foi mais uma manifestação simbólica, num quartel metido dentro da guerra colonial, de repúdio perante o hiper militarismo de alguns profissionais da guerra, fascistas fardados, que juntavam ao ódio colonial que motivava a guerra, um conceito medievo e salazarista de ordem militar bruta que considerava normal que os castigos dos oficiais aplicados aos subordinados incluíssem o direito ao espancamento, mesmo para pecadilhos de pouca ou nenhuma monta. Portanto, pela minha parte, não foi por aqui que o gato foi às filhós. Pior eram as consequências do castigo que me foi averbado, enquanto oficial punido com prisão: mais três meses de guerra (passei de uma comissão de vinte e um meses para vinte e quatro); perda do direito a voltar a gozar férias (o que retardava ver a minha filha, a nascer em breve, só me sendo permitido fazê-lo quando ela tivesse a idade de nove meses -(*); expulsão da minha unidade, com transferência imediata para um outro batalhão (como “oficial castigado”, naturalmente que me esperava ser colocado num quartel sujeito a “guerra quente”).  

No dia imediato à minha saída da “prisão”, a logística das consequências já estava montada: guia de marcha para Bissau a aguardar recolocação, transporte preparado que me levou de coluna militar até Teixeira Pinto e daqui lugar num avião militar em que segui para a capital da colónia. Em Bissau, aboletado numa camarata para oficiais em trânsito, fiquei a aguardar, ociosamente, novas acerca do meu destino militar. Ao terceiro dia de stand-by, recebo ordem para me apresentar no comando-chefe, numa qualquer das suas repartições. Com espanto que me arregalaram os olhos, um major do estado-maior comunica-me que tinha sido colocado ali mesmo, na repartição de informações, ordenando-me que entrasse imediatamente de serviço. E assim fiz, ainda não refeito daquela “promoção” inesperada de terminar o tempo da comissão de serviço na Guiné entre a nata do estado-maior do general Caco. Por lá andei, circulando entre a elite spinolista, tropeçando em Otelo, Lemos Pires, Ramalho Eanes, Firmino Miguel e outros figurões militares daquele tempo e lugar, os quais planificavam e coordenavam a guerra colonial na Guiné. Para mais, tinha acesso às informações secretas da PIDE e estudava e organizava os relatórios operacionais e de informações recolhidos em toda a colónia. Mas, ainda o primeiro dia de serviço não tinha chegado ao fim, o mesmo major que me havia recebido e “integrado” na nomenklatura spinolista chamou-me e esbaforido e corado, sem tirar os olhos do chão, diz-me de forma ríspida que tinha havido um equívoco na minha “colocação”, devia abandonar imediatamente o comando-chefe e, no dia seguinte, devia apanhar o avião militar que me levaria para a minha efectiva recolocação, no sul da Guiné, no batalhão de Catió, e que incluía as unidades militares situadas em Guileje, Cacine e Gadamael, ou seja, onde a guerra estava mais “quente” e numa região que era maioritariamente controlada pelo PAIGC.   

(*) – Das consequências da minha pena de prisão, esta foi a única a que escapei. O tenente-coronel do batalhão de Catió, unidade para que fui depois transferido, conseguiu revogar a interdição de passar férias e assim pude ver a minha filha ainda no estado de recém-nascida.

 
(Texto publicado no blogue Água Lisa)

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