Um texto de João Maria de Freitas Branco (*)

 
Um repensar do passado com os olhos postos no presente

O ter eu vivido na cidade murada interessantíssima experiência político-cognitiva, observando in loco o que foi o socialismo real germânico (a República Democrática Alemã – RDA ou DDR, no uso da sigla correspondente ao nome alemão do extinto país), essa experiência, fez-me estar ainda mais atento aos discursos do 20ºaniversário da queda do Muro de Berlim. Em particular aos proferidos por gente lusa com responsabilidade de mando. O que li e ouvi pôs-me na alma uma curiosa mistura de satisfação com perplexidade. Mescla de sentimentos agora motivadora deste breve prosar indagador – puro gesto de reflexão problematizante, de pensamento crítico.

O que se passou na cidade agora capital de uma única Alemanha nessa já recuada noite de 9 de Novembro de 1989 é indiscutível motivo de alegria para qualquer pessoa de bem; tem a dimensão simbólica do fim de uma forma de regime totalitário: realidade política ética e moralmente inadmissível. Aquela RDA, fossem quais fossem os seus méritos sociais, tinha que acabar. Sempre o tenho afirmado. Ver agora todos os representantes da nossa direita parlamentar saudar com genuíno regozijo esse histórico acontecimento é algo que me causa natural satisfação. Porque vivi tempos em que a direita prevalecente fazia a apologia da ditadura, cultivava a ideia de desigualdade, enaltecia desavergonhadamente a falta de liberdade, enxovalhando e troçando da democracia com alarvado escárnio salazarento. Para o bem, Abril parece ter sepultado essa direita, fazendo germinar uma nova. Chamo a isso progresso ideológico – renovação de mentalidades. Como homem de esquerda que me preso de ser, sinto-me bem nesta convergência de sentires com a direita de um Paulo Portas ou de um Durão Barroso. Coisa que os eternos amantes do simplismo não deixaram, nem irão deixar de condenar com viva suspeição.

Ver depois o mesmo Barroso ou o socialista José Sócrates, com o peso da responsabilidade conferida pelos altos cargos que exercem, colocar sinal de igualdade entre o nosso Estado Novo fascista e o socialismo real da extinta RDA causa-me aguda perplexidade. Afigura-se-me ser ajuizar intelectualmente pouco honesto que não favorece a imagem de quem o exiba. Esse discurso dominante, e até oficial, procura estabelecer uma evidência que mente…, evidentemente. É assim que somos a todo o momento inundados de meias verdades ou mentiras instituidoras de evidências dominantes e dominadoras, de pseudo-verdades oficiais. Afogam-nos em opiniões estereotipadas que se supõe serem portadoras de verdade evidente. Um óbvio instituído. Semeia-se ilusão ideologicamente conveniente. Ora vejamos: quais são os maiores problemas que afectam (atormentam) a nossa sociedade democrática real? A democracia capitalista real? Penso que na resposta a estas interrogativas irei re-convergir com a nossa direita parlamentar sem deixar de me manter fiel à velha denúncia anti-capitalista das esquerdas revolucionárias, na precisa medida em que a resposta é demasiado consensual para que possa haver discordância significativa entre gente civilizada, bem intencionada e séria das nossas direitas e esquerdas parlamentares. Dou-a sem hierarquizar as dificuldades: Desemprego, pobreza/miséria, insegurança, crescente desigualdade social (fosso obsceno entre ricos e pobres).

Olhando para a lista verifica-se que nenhum destes enormes problemas que nos afectam existia na RDA. Ou seja, houve um país, onde eu vivi, situado no coração da Europa, em que os problemas maiores que agora nos afectam, e parece não sermos capazes de resolver, pura e simplesmente não existiam ou estavam minimizados!

O socialismo real tinha superado todas estas magnas dificuldades atormentadoras. Jamais olvidarei a magnífica experiência de vida no seio de uma sociedade onde não existiam nem pobres nem ricos (dando aqui à adjectivação o seu mais forte significado técnico).

Pelo que antes afirmei, bem como pelo que foi a minha actuação pública durante o período em que vivi no socialismo real (nomeadamente no exercício das funções de jornalista acreditado na capital da então RDA entre 1985 e 1990 – como correspondente do JL-Jornal de Letras) julgo poder acreditar que ninguém possa supor ignorar eu o inaceitável preço pago por algumas dessas soluções. Nenhuma pessoa de bem quer ver o problema da segurança resolvido a esse preço; ou seja, à custa da implementação de um estado policial asfixiante das liberdades cívicas, que tolhe aquilo a que genericamente chamo a liberdade política – tão necessária e importante quanto a liberdade social e económica – essa que por cá não é contemplada no discurso político dominante: a liberdade do direito ao trabalho, a liberdade de não ser pobre, de não ter medo de um dia cair na miséria, do ter de esmolar, da humilhação, a liberdade do livre acesso à saúde, à educação, à cultura. Mas o reconhecimento desse indiscutível facto não deve obstar a que se reflicta crítica e inteligentemente sobre uma experiência histórica concreta com contornos tão extra-ordinários como os que acima evoquei e que são, também eles, numa óptica de honestidade intelectual, realidades indesmentíveis. No meu bairro berlinense, Hohenschönhausen, habitado por mais de 120 mil almas — mais populoso, portanto, do que a maioria das cidades portuguesas –, viam-se quotidianamente à porta do supermercado onde me abastecia, um dos mais frequentados do gigantesco bairro, numerosos carrinhos de bebé com as criancinhas lá dentro(!), enquanto as mães, com toda a tranquilidade, efectuavam as suas compras no interior do movimentado espaço comercial. Que pensaríamos nós de uma mãe portuguesa que decidisse abandonar o seu bebé à porta do Jumbo de Alfragide ou do Continente do Oeiras Parque ou até de uma simples mercearia de um arruamento lisboeta? No entanto, para as extremosas mamãs da RDA era esse um comportamento banal, nada recriminável. Esta realidade factual que durante alguns anos fez parte da minha existência quotidiana transporta em si beleza societal, isto é, constitui factor estético de uma paisagem social, chegando mesmo a ter dimensão encantatória. Não se explica ela apenas pelo aparato policial repressivo, fenómeno incapaz de edificar dimensões encantatórias. As razões explicativas residem também numa cultura de solidariedade cívica, em uma atitude de quase sagrado respeito pela criança, no altruísmo humanista. Coisas bonitas, muito bonitas, que ali se viram socialmente concretizadas, sendo tão autênticas quanto o feio da repressão política, quanto a sombra do Muro, quanto a fealdade da mordaça inibidora do pensamento livre que alimenta a dignidade humana.

Como então atrevermo-nos a lançar essa experiência sócio-politica para o lixo da história, rotulando-a de mal absoluto equivalente ao serôdio e retrógrado fascismo salazarento, ou ao horrífico nazismo? Como aceitar o abandono dessa memória e a recusa, pouco ou nada cândida, de a repensar com seriedade e profundidade? Não recomendará o mais elementar bom senso e a simples honestidade de pensamento que se invista inteligência crítica no estudo dessa realidade com o objectivo de definir rumo de progresso?

Não padeço da ingenuidade de ignorar os interesses contraditórios que minam o empreendimento. Mas em nome da soberania da Razão e da defesa da Liberdade — que é coisa plural, insisto em acentuá-lo – atrevo-me eu a dizer que há formas alternativas de organização social dos humanos. E muito teremos a colher se formos capazes de criticamente assimilar esse caso de um país extinto há 20 anos: a República Democrática Alemã – RDA. É essa assimilação crítica que nos expurgará de limitações pretéritas. Aí, nesse higiénico afastar de limites, reside a maior utilidade da história – a central proficuidade do esforço cognitivo conducente à compreensão do passado, do acto intelectual de fazer a história das sociedades humanas.

A liberdade ganha pelos alemães de leste em Novembro de 1989 não é nem mais nem menos importante do que a liberdade por eles perdida nessa mesma data. Equivalem-se. Mas a perdida, estou disso certo, é muitíssimo mais difícil de conquistar. Chama-se ela, na minha pessoal terminologia, liberdade social e económica – a liberdade, repito, de não poder estar desempregado, de não ser pobre, de não ter que mendigar, de ter livre acesso à educação e à saúde, etc., liberdade que assenta na consignação do direito ao trabalho e na criação de um novo regime de propriedade.

Enterre-se o “socialismo real” manco de um tipo de liberdade, mas mantenha-se vivo o espírito do socialismo ideal renovando as mentalidades de esquerda (à semelhança do que se viu ter acontecido com as de direita) e partindo para a construção de uma sociedade alternativa em que as duas grandes formas de liberdade marquem presença: a liberdade política do opinar crítico, do pensamento criativo, das escolhas; e a outra, a liberdade social e económica tão dramaticamente ausente no nosso corpo societal hodierno. Para dar esse urgente passo civilizacional necessitamos de saber expurgar a democracia do capitalismo anti-humano. A acreditar no que nos é transmitido pelo último filme-documentário do combativo Michael Moore, Capitalism: a love story (película acabada de estrear na nossa praça), a consciência da indispensabilidade desse depurar transformador parece estar a estruturar-se no espírito do próprio cidadão americano, no cerne do mundo capitalista. Ora é precisamente aí – a partir daí — que a transformação se tem que operar, e não num qualquer distante e periférico Palácio de Inverno.

 
(*) Biografia de João Maria de Freitas Branco

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