Segredo e coragem, a alma da conspiração

A vida dos que, de algum modo, não abdicaram nunca de lutar contra a opressão imposta pelo regime ditatorial foi sempre de perigos diversos, uns maiores, outros nem tanto, mas todos susceptíveis de levarem à prisão ou, em casos extremos, à clandestinidade e à fuga, ao exílio. Quantas vezes com sacrifício dos que nos eram mais próximos e queridos. Vão já uns trinta e tal anos, talvez quarenta, um companheiro meu viu-se envolvido num episódio que demonstra bem este tipo de situação.

Andando a sentir que era seguido, decidiu abrigar-se em casa de uns amigos na Beira Alta e aguardar por melhores dias. Como vivia com os pais avisou-os do que se passava. Volvidas umas semanas regressou a Lisboa.

Mas em má hora o fez já que, alguns dias depois, foramm presos dois companheiros que peretenciam à sua célula. Sabendo que a sua prisão poderia estar eminente, decidiu preparar a fuga para Paris. Dado o carácter perigoso da situação decidiu nada contar aos pais, até para os salvaguardar na hipótese de interrogados pela polícia. Começou por pedir a uns amigos em Lisboa, pessoas insuspeitas perante a PIDE, que o abrigassem por uns dias até que lhe fosse garantida a passagem da fronteira. Naturalmente que isto implicava, em princípio, ou a passagem a ”salto” por montes e vales, ou a passagem pela fronteira com um passaporte falso. Às vezes ambas.

Estranhando a ausência do filho, os pais foram indagar aos hospitais e junto de colegas mais próximos, mas não se atreveram a ir a nenhuma das polícias. Até que decidiram ir pedir conselho a uns amigos, ele um quadro superior num ministério e ela professora liceal. Relataram as suas preocupações, a mãe sempre muito chorosa temendo o pior, e os amigos lá os acalmaram como puderam tendo-lhes prometido que através dos seus conhecimentos iam tentar saber alguma coisa. Os dias passaram e os pais continuaram sem nada saber do filho, até porque o amigo também não tinha conseguido obter qualquer informação.

Até que, volvidos uns dez dias, os senhores recebem uma carta com remetente de Paris. Exultaram de alegria, eram notícias do seu filho. Nessa mesma noite foram a casa dos amigos levar a boa nova e compartilhar com eles a sua alegria. E qual não foi o seu espanto quando ficaram a saber que o seu filho, no próprio dia em que lá estiveram a pedir auxílio, estava escondido no andar de cima, onde morava o filho deles com a mulher, dali saindo directamente para o exílio. Graças à coragem dos amigos em manter segredo, não cedendo à comoção da amizade, o seu filho estava agora fora de perigo.

Advertisements