Um texto de Helena Cabeçadas (*)

 
Em Fevereiro de 1967 fui convidada pela União Internacional de Estudantes, sedeada em Praga, a participar num encontro sobre imprensa estudantil na República Democrática Alemã (RDA). Eu tinha 19 anos, era estudante de Ciências Sociais na Universidade Livre de Bruxelas, e ocupava-me, entre outras actividades, do jornal do Secretariado dos Estudantes Portugueses no Estrangeiro (SEEPE) – daí, a razão deste convite.

Aceitei a proposta com entusiasmo. Sentia um enorme desejo de conhecer o outro lado da “cortina de ferro”, como então era designada a fronteira que separava a Europa Ocidental da Europa de Leste, dos países do “socialismo real”, que eu idealizava como as sociedades igualitárias pelas quais valia a pena lutar, arriscar a prisão, a tortura ou o exílio. A minha militância no Partido Comunista Português, em Bruxelas, era discreta, pois procurava preservar a possibilidade de regresso legal a Portugal, de cujas escolas fora expulsa no final do Liceu, em 1965. Iria pois com papéis e identidade falsa, para que não ficassem vestígios dessa viagem proibida no meu passaporte português.

Estava um Fevereiro glacial. Escolhi levar roupa quente, prática e feiosa – calças, botas, gorro, um velho casaco de pele de gazela mal curtido, que deixava pelo por todo o lado e com o qual enfrentava os Invernos tristes da Bélgica – não fosse vir a ser acusada de “tendências pequeno burguesas”…

Parti do Aeroporto de Bruxelas num pequeno avião quase vazio, só dois ou três indivíduos com ar soturno, em direcção a Praga. Aí, fui conduzida ao Hotel e a primeira surpresa foi o encontro com os “estudantes” da U.I.E. (União Internacional de Estudantes), que eu imaginava jovens e que eram já de meia-idade, com ar de funcionários, vestidos de modo formal: gravata, fato completo, sobretudo… levaram-me a um bar, beber whisky (não, não era vodka!), com uma música horrível e ambiente pesado, desagradável. A minha primeira estadia em Praga foi rápida e chata, com os estudantes quarentões da UIE. Apercebi-me, de relance, da espantosa beleza da cidade mas, com tais companhias, não era entusiasmante descobri-la.

Segui pouco depois de comboio para a R.D.A., uma viagem de várias horas, através de planícies e montanhas enregeladas. Em Berlim Leste fiquei instalada num apartamento incaracterístico, no meio de prédios altos e cinzentos, todos iguais. Um jovem comunista maçador seguia-me para todo o lado, servindo-me de guia. Levou-me a visitar o muro, claro, cuja construção tinha sido iniciada em 1961, seis anos atrás. Erguia-se, sombrio e lúgubre, no meio da cidade dividida. Era estranho! Funcionários zelosos explicaram-me a necessidade e as razões da sua construção. Compreendi-as na altura mas, apesar da minha crença revolucionária da época, foi-me difícil aceitá-las. Sentia um profundo mal-estar perante aquela monstruosidade, irrupção desumana e abrupta que dividia uma cidade e as vidas dos seus habitantes…

Da Berlim dessa época (Leste, porque não fui ao lado ocidental) guardo a memória de uma cidade triste e inóspita e do muro, sinistro. Mas recordo também, é verdade, momentos luminosos, comoventes, vividos nos museus, na ópera, de qualidade excelente, com um público constituído de trabalhadores de fato-macaco com as suas sandes de salsicha, num silêncio religioso de profunda atenção e, sobretudo, no teatro, no Berliner Ensemble, fundado por Brecht e ainda dirigido nessa altura pela sua mulher, que me proporcionou uma experiência intensa e rara.
A reunião sobre imprensa estudantil, motivo da minha viagem, foi interessante pelo contraste entre os jovens revolucionários da Europa Ocidental (Bélgica, Holanda, Irlanda, França, Itália…), representantes de uma esquerda alternativa e irrequieta – que anunciava já o Maio de 68 – e os menos jovens e instalados representantes da imprensa estudantil dos países de Leste, de ar conformista e pesado. Nos intervalos da reunião ouviam-se as suas queixas, de que estavam instalados em hotéis muito piores que os nossos (do Ocidente), e que eram melhores por razões óbvias de propaganda do regime. Recordo a minha estupefacção quando, ao jantar, não me deixaram entrar na sala, porque estava mal vestida… só tinha levado botas e calças, ora que as raparigas de Leste iam todas de saltos altos e de vestidos compridos, com lantejoulas e decotes. Os meus anfitriões lá intervieram para que me deixassem entrar. Eu achava aquilo tudo muito esquisito para um regime comunista e, no seminário, fiz algumas intervenções críticas que chocaram os organizadores. O convite para visitar a URSS foi de imediato retirado. Soube que, mais tarde, Álvaro Cunhal repreendeu os meus camaradas de Bruxelas “por terem enviado uma anarquista à RDA”…

No meu regresso a Praga consegui esquivar-me aos guias da U.I.E. e então sim, fui visitar a cidade. Nunca me tinha acontecido apaixonar-me assim por uma cidade, pelos seus teatros, os seus cafés, as suas ruas…Era lindíssima! E a atmosfera que se respirava era inebriante, as conversas intensas e apaixonadas ao longo da noite com os meus novos amigos checos, partidários de uma esquerda democrática, transmitiam a esperança da possibilidade de construção de uma sociedade igualitária e democrática… a Primavera de Praga seria no ano seguinte, seguida da tragédia da repressão pelos tanques soviéticos. Mas ainda não o sabíamos, na altura, e vivíamos esse sonho.

Regressei finalmente a Bruxelas, profundamente abalada nas minhas convicções. Este meu primeiro contacto com a realidade dos países comunistas foi decepcionante, a natureza totalitária do regime foi para mim evidente. Tinha, no entanto, a noção que a minha experiência, de algumas semanas somente, não era suficiente para uma análise aprofundada dos aspectos positivos e negativos dos regimes comunistas, que poderia estar a ser injusta. Tinha constatado a excelência do teatro, da música, da ópera… a todos acessível, o que não acontecia no Ocidente. Mas não tinha dúvidas que, se vivesse na RDA ou na Checoslováquia, estaria do lado dos contestatários, pelo menos daqueles que procuravam alternativas que permitissem conjugar o socialismo com a liberdade. Começou aí o meu afastamento do PCP, que se veio a concretizar quando do seu apoio inequívoco à invasão da Checoslováquia e ao esmagar das esperanças de abertura do regime.

As consequências desta viagem podiam ter sido dramáticas para mim. Alguns meses depois do meu regresso a Bruxelas, comecei a ser submetida a interrogatórios pela polícia dos estrangeiros belga, sob acusação de actividades políticas na Bélgica, de ligação aos países comunista e ameaças de expulsão. Expulsão para onde? Já tinha sido expulsa das escolas portuguesas, estava no 3º ano da Faculdade, na U.L.B. e a PIDE certamente não me receberia de braços abertos em Portugal com tais acusações. Pierre Verstraeten, redactor dos “Temps Modernes” e Professor de Filosofia na U.L.B., escondeu-me na sua casa da floresta de Soignes até que a situação foi ultrapassada, graças às influências movidas por deputados do PSB, Guy Cudell entre outros. Mas não deixa de ser sugestiva do ambiente de guerra fria que se vivia na época, num pequeno país como a Bélgica, artificialmente constituído como tampão entre grandes impérios europeus, então sede da NATO, e com a obsessão dos espiões, já constatada por Baudelaire, em épocas anteriores. Ainda hoje, no entanto, me interrogo sobre o modo como a polícia belga se inteirou desta minha incursão ao “outro lado do muro”, ora que eu viajava com identidade e papéis falsos. Há, ao que parece, entre todas as polícias, laços que se sobrepõem às diferenças de regime, por muito opostos que sejam, ou pretendam ser.

 
(*) Biografia de Helena Cabeçadas.

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