Vai saltando a tampa da amnésia com que a “transição” enclausurou a memória dos espanhóis. Os falangistas reciclados a toda a velocidade e que, mais tarde, desaguaram maioritariamente no PP, foram, natural e imediatamente, os grandes beneficiados com o pacto dos silêncios sobre o passado. Os tabus instituídos tacitamente alimentaram a ilusão de que era possível uma democracia pós-franquista, democrática mas com o rei fabricado por Franco, a manutenção da iconografia feita de exaltação de Franco e da gesta dos vencedores na guerra civil, com os arquivos do ditador (incluindo a matéria de Estado) sepultados nas mãos da família (um caso único em que a família de um ditador renegado herdou, com direito a sequestro, os documentos do Estado circulados no escritório do ditador). Os partidos dos antifranquistas espanhóis, ainda sob o sindroma do medo tecido durante décadas pela ditadura e cientes das suas fragilidades na afirmação pública e popular, com o “exemplo português” a crepitar-lhes ao lado, temendo uma hipotética regressão sob forma violenta, cederam, cambiando amnésia por consolidação democrática. O resultado mais vivo desse pacto, gerido por Suarez e vigiado pelo rei, em que a Igreja, Gonzalez e Carrillo ajudaram à missa, foi uma geração inteira de espanhóis educada na ausência de memória, portanto sem passado, e um país surreal, democrático na aparência e nas formalidades, pintalgado de norte a sul, este a oeste, com as evocações, loas e monumentalidade dedicada ao ditador e aos vencedores armados pelo nazi-fascismo, servida por um cultura construída em cima de interdições históricas, grotesca no seu enorme buraco negro plantado na memória colectiva. Tirando extremistas marginais, ninguém queria assumir-se como herdeiro das décadas de ditadura brutal e assassina de Franco, mas minguavam os que queriam enfrentar a ferida por sarar aplicando-lhe a tintura e a compressa feitas de verdade, de justiça e de catarse. Neste contexto, em que os políticos democratas baquearam, o papel de rebeldia foi assumido por jovens historiadores e descendentes das vítimas de Franco, os primeiros exigindo conhecimento e rigor, os segundos pugnando, sobretudo, pela identificação e direito a sepultura das ossadas dos fuzilados pelo fascismo espanhol e espalhadas pelos campos e valetas de toda a Espanha. Os dois governos Zapatero, apesar de inúmeras tibiezas e insuficiências, têm direito à honra de colocarem a política com o passo acertado pela história.

A proliferação da historiografia sobre a guerra civil e o franquismo, apesar das lacunas importantíssimas pela falta de acesso a documentos valiosos e fulcrais, é uma evidência para quem visita Espanha e espreita as livrarias. O tabu está quebrado. Há os que fazem recuperação da memória e recolocam os vencidos dentro da história. Há os neo-franquistas, e são bastantes, que diluem responsabilidades tentando relativizar os crimes (lembram os estalinistas estúpidos e estupidificantes daqui que, sobre o Gulag, referem os delinquentes dos Estados Unidos; sobre a queda do Muro de Berlim assobiam para o Muro de Jerusalém). Há polémica e querelas para todos os gostos. Mas a história pula e avança.

Julián Casanova, na foto, é um jovem historiador espanhol. Juntamente com o seu colega Carlos Gil Andrés, acaba de editar uma ‘Historia de España en el siglo XX’. Num debate vivo e interessantíssimo promovido pelo jornal “Público” (acessível aqui), Julián Casanova responde a várias questões colocadas pelos leitores do jornal e que tocam várias facetas da problematização sobre o passado franquista. Das respostas de Casanova destaco a lembrança do que mais é esquecido sobre a ignomínia franquista: não saciado com as cem mil pessoas que Franco assassinou durante a guerra civil, no após-guerra, como vencedor sedento de sangue e vingança, sentado no seu poder absoluto, fuzilou ainda mais cinquenta mil espanhóis (no período 1939-1946). Em tempos de revivalismo vampiresco, recordar o gosto de Franco por sangue de adversários e diferentes, não destoa.

Publicado inicialmente no Água Lisa.

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