universidade coimbra

Em 1977, durante um processo de luta estudantil contra a reintegração na Universidade de Coimbra de destacada figura do regime fascista, a Associação Académica (AAC) organizou um “Tribunal de Opinião Estudantil”, iniciativa que mereceu franco apoio dos estudantes e um acolhimento favorável, mesmo nos meios não universitários. Respondendo a um apelo para a denúncia do que tinha sido o obscurantismo e a repressão nas escolas do Estado Novo, surgiram inúmeras personalidades ligadas ao ensino. Com a presença de professores e de dirigentes associativos de diferentes épocas, as sessões do Tribunal de Opinião Estudantil decorreram de forma extremamente viva, graças aos depoimentos dessas pessoas, e constituíram momentos importantes para o esclarecimento e a consciencialização da opinião pública acerca das lutas estudantis no passado e da repressão.
Apresentam-se aqui extractos da intervenção de um dos participantes: Joaquim Namorado*. Foi um lutador anti-fascista intransigente e um prestigiado intelectual. As sucessivas gerações de jovens que em Coimbra contactaram com ele, e a quem legou uma sólida consciência democrática, referem-no sempre com admiração e agradecimento. Note-se que se trata de um depoimento oral, espontâneo, sem os cuidados linguísticos de uma intervenção escrita, e que ocorre nos anos ainda quentes da Revolução.

 
«(…) Era eu estudante universitário de recente data quando, em 1931, se deu a revolta da Madeira. Os estudantes de Coimbra empunharam a sua bandeira e manifestaram-se na rua a favor dos revoltosos. Nesse ano, a faculdade era dominada pelo grupo de integralistas chefiado por Pedras Vital, o que não impediu uma manifestação estudantil na sala dos Capelos contra a ditadura militar. A repressão abateu-se sobre os estudantes junto à Porta Férrea, onde foram barbaramente espancados.
Contra os integralistas, reuniram-se os estudantes em torno do grupo seareiro de Coimbra, dirigido por Mário de Castro. Era nas salas de conferências e nos teatros que os seareiros ripostavam às agressões ideológicas e denunciavam a repressão dos tenentes da polícia. É conhecida a história acerca de uma intervenção de António Sérgio feita em Coimbra com outros membros da Seara, a propósito de um programa que propunham, com uma construção ideológica diferente, um programa que constituísse a base democrática e ideológica para uma solução republicana e definisse uma linha económica da abundância. Os integralistas sabotaram a sessão. Os estudantes responderam com outra sessão, onde o combate se alargou para além das balizas culturais.

(…) Como todos sabem, a ditadura militar acabou em 1933-34 e o regime institucionalizou-se. A Constituição de Salazar foi ”votada” em 1933 e o Tarrafal foi aberto em 1934. No campo da morte lenta estiveram também estudantes. Aí encerraram Alberto Araújo, grande nome da inteligência portuguesa – um extraordinário carácter e uma inteligência verdadeiramente luminosa, numa frágil constituição física. Foi o Tarrafal que o assassinou. Abalaram-no fisicamente obrigando-o a carregar em íngremes picadas pedregulhos de peso muito superior às suas forças. Muitos marinheiros e trabalhadores, seus companheiros de prisão, foram espancados por tentarem ajudá-lo. Tuberculizado, veio a morrer em Portugal, ficando sepultado em Almada.
Após a eclosão da guerra civil espanhola, os estudantes portugueses agruparam-se numa associação denominada Bloco Académico Antifascista, que veio a implantar-se nas grandes cidades, Porto, Lisboa, Coimbra, Santarém, Faro, Setúbal e outras. Era um agrupamento de unidade que pugnava por uma luta unitária, levando a cabo várias reuniões nacionais no decurso de 1937. Ao Bloco Académico Antifascista pertenceram alguns dos homens mais prestigiados da democracia portuguesa dos dias de hoje: Recordo Piteira Santos, Calazães Duarte, Álvaro Cunhal e tantos outros.
A guerra de Espanha, em 1936, marca também uma data assinalável para a Academia de Coimbra. O governo de Salazar interveio, então, e, a pretexto de evitar a agitação provocada na academia devida às eleições que se aproximavam e às quais concorriam duas listas, uma de esquerda e outra de direita, nomeou a primeira comissão administrativa. O Bloco Académico é também vítima de repressão: a sua direcção nacional é presa e operam-se rusgas entre os estudantes de Coimbra e Aveiro. São detidos, na Rua do Heroísmo, jovens de 17 e 18 anos: Mário Sacramento, Seiça Neves, João Miranda, Mário Ramos, Amaral Nogueira e eu próprio. Fomos metidos numa cela onde estavam doze pessoas – havia dez tarimbas e oito mantas. Tentavam destruir-nos por dentro, obrigando a que as necessidades fossem feitas na cela, na frente uns dos outros. Era uma situação degradante, a que os antifascistas souberam resistir, como resistiram à tortura. Esta era feita na chamada “Casa del Campo”, lembrando o heróico sítio de defesa de Madrid. Os chicotes eram “miagas” e os torcionários comandados pelo “benemérito” Seixas – a crer nas sentenças que têm punido os pides essa besta que vocês já não conheceram na sua máxima força. Luciano, um dos estudantes detidos, foi selvaticamente torturado e mostraram-mo para me amedrontarem. Do pescoço aos calcanhares, o seu corpo era uma zebra em que as riscas eram sangue “coalhado”. Em cima daquela carne viva, bateram com uma régua de zinco. Como ele continuasse aguentando o sofrimento sem falar, sem nada dizer, deitaram-lhe vinagre sobre o corpo. Estas almas “beneméritas” experimentavam, assim, a coragem dos jovens. Digo com orgulho que, nessa altura, em Coimbra ninguém mais foi preso porque as pessoas souberam calar-se. Quem comandava as operações era um famigerado tenente Soares, que passeava diante de nós soprando como um boi e dizendo, constantemente, que o nosso destino era o Tarrafal. Não o conseguiu: em Setembro, passámos em tribunal militar especial e fomos absolvidos.

(…) As provocações não tinham limites. Realizou-se, em certa ocasião, um comício anti-comunista, onde os turiferários do regime aconselharam os estudantes, para sua própria defesa, a denunciar os seus colegas comunistas. Assistiu-se, então, a uma manifestação que ainda hoje recordo com arrepio de contentamento e medo. Centenas de estudantes, em frente desses canalhas, responderam: “Comunistas somos nós!”
Mas a repressão instalara-se no quotidiano: todos os dias, este país empurrava para as tropas franquistas o pão dos seus filhos, dando-lhe o que era devido ao nosso povo. E entregava-lhes também, para serem fuzilados, aqueles que passavam a fronteira para procurarem refúgio entre nós. A matança bárbara na praça de touros de Badajoz foi possível porque um destacamento do exército fascista português empurrou, com carga de cavalos, os antifascistas em busca de socorro, para dentro das linhas da guarda civil franquista. Um dos grandes poetas ibéricos, Miguel Hernandez, foi entregue pelas autoridades portuguesas às garras do fascismo espanhol.

Nesses anos, a ameaça era uma constante. No entanto, (…) nas universidades portuguesas aparece então o primeiro movimento marxista. As lutas ideológicas opunham os jovens seareiros aos integralistas. Estes últimos foram “dissolvidos” – então já desnecessários – e havia quem levantasse o braço como os nazis, se vestisse de camisas azuis e ameaçasse transformar Portugal num campo de concentração. Comandava esse tropel o Dr. Rolão Preto, e a ele aderiram altas patentes do exército e da classe política. Em fins de 34, reuniram-se em grande banquete em Lisboa e convocaram uma grande manifestação para Coimbra. O Centro Republicano Académico mobilizou os estudantes para se oporem à “horda azul”. Os estudantes de Coimbra varreram das ruas os meninos fascistas. (…) Por outra ocasião, decidiram organizar uma “exposição do livro italiano”. Inauguraram-na na actual sala da Biblioteca, com toda a pompa, “autoridades” militares, civis e eclesiásticas. Toda a “gente bem” aí meteu o nariz, mas no dia seguinte, quem aí meteu o nariz foi a polícia, procurando saber quem decorara a sala com frases antifascistas.

(…) Entre os diferentes tipos de repressão, penso que é importante salientar a repressão académica. Algumas pessoas chamadas a desempenhar cargos docentes depois do 25 de Abril, nas quais me incluo, foram “acusadas” de não terem curriculum. Têm razão aqueles que disso acusam os “professores contratados”, se excluírem do seu critério de apreciação as condições então existentes. Se esquecerem, por exemplo: que Alberto Martins de Carvalho, professor distinto no Liceu de Aveiro e depois no de Coimbra, com cargo de director na Fundação Gulbenkian, colaborador no dicionário de História de Portugal, não conseguiu entrar na Faculdade de Letras porque o fascismo não aceitava quem recusasse trair o seu pensamento, a troco de qualquer oportunismo. José Neiva, formado em Filosofia com 17 valores, não entrou na Faculdade de Letras. Vasco Magalhães Vilhena – que nem é preciso referenciar – viu recusada a sua tese de doutoramento e acabou por ter de se refugiar em Paris. Eduardo Lourenço não foi aceite nesta escola. Paulo Quintela, vindo da Alemanha, apresentou ao catedrático de germanísticas o seu projecto de tese e não foi aceite – avisaram-no da conveniência de “mudar de intenções”.
(…) Não foi só nas ruas, não foi só nas escolas que os estudantes antifascistas defrontaram aqui o adversário. Foi também na luta pela participação real na direcção académica. Assim se conseguiu que, afastada a comissão administrativa, estudantes progressistas ascendessem à direcção da AAC. Lino Lima foi um deles, imposto pela vontade das Assembleias Magnas. A pressão estudantil obrigou o fascismo a respeitar as eleições para os organismos culturais: o TEUC, o Orfeão, a Tuna, o Fado Académico e outros. Assim apareceram nomes como Manuel Deniz Jacinto, Faria Gomes, Santos Simões na direcção das organizações estudantis.
A vida cultural em Coimbra, em 1937, está descrita num artigo de António Ramos de Almeida como “a apagada e vil tristeza” que é a academia. Este grupo de escolas gaba-se de surgir de uma reforma pombalina, quando na realidade – que ainda hoje se mantém – não ultrapassou a outra reforma a que foi submetida por D. Maria I, “A Piedosa”. Tenho dito, e repito-o agora, que (…) a Universidade de Coimbra, o corpo desta instituição mantém-se perfeitamente inamovível em relação àquele tempo, resistindo majestosamente a todas as transformações. Permanece instalado nesta Universidade um sentido da hierarquia verdadeiramente apodrecido, e o ideal é marcado por um legalismo tradicionalista, inconcebível numa situação revolucionária ou de simples transição. (…)»

Depoimento transcrito do Suplemento de Educação (nº12) do Jornal Diário, 1978

(*) Breve nota biográfica de Joaquim Namorado

Viveu entre 1914 e 1986. Nasceu em Alter do Chão, Alentejo. Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra e dedicou-se ao ensino. Exerceu durante dezenas de anos o professorado no ensino particular, já que durante o fascismo, o ensino oficial lhe esteve vedado. Depois do 25 de Abril, ingressou no quadro de professores de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
Notabilizou-se como poeta neo-realista, tendo colaborado nas revistas Seara Nova, Sol Nascente, Vértice e outras. Das suas obras poéticas destacam-se: Aviso à Navegação (1941), Incomodidade (1945), A Poesia Necessária (1966); e em Ensaio: Uma Poética da Cultura (1994). Dizem que foi Joaquim Namorado quem, para iludir a PIDE e a Censura, camuflou de “neo-realismo” o tão falado “realismo socialista”. Entre muitas outras actividades relevantes, foi redactor e director da Revista Vértice (onde ficou célebre o episódio relacionado com a publicação de pensamentos de Karl Marx, assinados com o pseudónimo Carlos Marques. Conta-se que, um dia, apareceu na redacção um agente da PIDE a intimidar: “Ó Senhor Doutor Joaquim Namorado, avise o Carlos Marques para ter cuidadinho, que nós já estamos de olho nele”)
Cidadão com uma vida de sacrifício e de luta, dedicada à defesa dos interesses do povo português, foi membro da Assembleia Municipal da Figueira da Foz pela APU – considerava-se um figueirense de coração e de acção. Em Janeiro de 1983, por iniciativa do jornal Barca Nova, a Figueira prestou-lhe uma homenagem que constituiu um acontecimento nacional de relevante envergadura e que teve a participação de vultos eminentes da Cultura e da Democracia. Na sequência dessa homenagem, a Câmara Municipal da Figueira da Foz instituiu um prémio literário que, durante anos, se revestiu de grande prestígio a nível nacional: “Prémio do Conto Joaquim Namorado”. Até Santana Lopes ser Presidente de Câmara desse concelho e decidir extingui-lo.

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