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Decorre por estes dias na Fundação Gulbenkian uma justíssima homenagem a Ernesto Melo Antunes, à qual por esta via menos institucional, mais singela, mas por certo igualmente digna gostaria de me associar, dado o privilégio que tive de com ele conversar horas e horas, numa longa entrevista prolongada por dois anos, que deu origem à obra Melo Antunes –O Sonhador Pragmático.

Parti para ela ciente das suas dificuldades naturais, desta vez acrescidas pelo facto de ir entrevistar alguém por todos considerado reservado, distante, mesmo elitista, selectivo e exigente tanto consigo como com os outros. E logo no primeiro encontro percebi que a nossa conversa tanto podia ficar por duas ou três breves horas, como prolongar-se pelas cerca de trinta que acabou por durar. Indiferente à popularidade fácil e à efemeridade dos aplausos de ocasião, Melo Antunes só seria conquistado para um trabalho que ele achasse contribuir para desfazer um obscuro conjunto de ideias feitas e lugares comuns sobre o seu pensamento e o seu real protagonismo, ambos tão esquecidos ou desvirtuados.

Não foi fácil vencer a barreira do silêncio a que se remetera, após a sua saída de cena. Esse silêncio era para ele uma ilha de dignidade e honradez no mar calmo do habitual descaso nacional, quando não da mesquinhez revanchista e interesseira. Basta lembrar que à data da sua morte (1999) Melo Antunes era ainda tenente-coronel, só sendo promovido a coronel cinco anos depois.

Vítima de alguma injustiça? Da ingratidão do país? A resposta vem directa, sem ressentimentos, rancores ou frustrações pessoais, que remeteu sempre para “os atalhos da história” : “não vejo o caso dessa maneira. Tive a intervenção que tive, o meu papel histórico esgotou-se. Sou um cidadão como outro qualquer. Se existe injustiça, não é contra mim, mas generalizada em relação a quase todos os que se bateram contra a ditadura”. Não contassem com ele para o discurso da vitimização tão nosso, tão português. E muito menos para se pôr em bicos de pés. Não sei sequer com o que sonhava este “intelectual fardado” para si, a título pessoal. Ele, de quem o amigo César de Oliveira, com alguma mágoa dizia “esperar mais que as situações venham ter com ele, e que os outros o chamem”. Mas sei que tinha perfil para presidente da República, para primeiro ministro, enfim, para um percurso político activo e influente, no país democrático que tanto lhe ficou a dever. Este, porém, preferiu dispensá-lo. Ou antes: suportá-lo, primeiro como presidente da Comissão Constitucional, a antecessora do Tribunal Constitucional, até 1983, e posteriormente como conselheiro de Estado, pela mão de Ramalho Eanes e depois de Jorge Sampaio. Pouco, demasiado pouco para alguém, a quem justamente o amigo Jorge Sampaio chamou “o verdadeiro pai da nossa democracia”.

Esta “desatenção” raia contudo a indignidade quando, em 1992, Cavaco Silva então primeiro-ministro recusa apoiar a sua candidatura a director-geral da Unesco. De nada valeu a sua extraordinária cultura, a rara preparação política, a vasta experiência internacional dos governos que integrou, nem o prestígio alcançado como conselheiro e subdirector dessa organização entre 1984 e 1988.

É que no outro prato da balança pesava (e como!) aquele gesto que definitivamente lhe garantiu um lugar na história deste pais: no dia seguinte ao 25 de Novembro, vai à televisão e diz, preto no branco, que o PCP é indispensável à democracia.

Um gesto que a direita nunca perdoou, e que o PCP, escassas horas antes duramente criticado pelo próprio Melo Antunes, leu como generosa mão estendida aos vencidos. Algo em que se confundia grandeza humana e táctica política. Penso contudo que, mais do que táctica, era estratégica essa atitude de soberana independência, de rara lucidez política e de compromisso ético com a própria ideia de Democracia. Como me disse: “achava que era perfeitamente imoral essa tentativa de eliminação do PC, porque no fundo era isso que se exigia, quer dizer o seu desaparecimento como partido. Era não só imoral e injusto, como politicamente disparatado, absurdo, porque seria o fim do processo democrático”.

As diversas e autorizadas vozes que se ouvirão na Gulbenkian, sublinharão certamente o alcance deste gesto mais conhecido, mas também o de muitos outros que fizeram de Melo Antunes a referência ética, política e humana dos militares de Abril, como eles próprios confirmaram através de um inquérito realizado pelo jornal Público justamente nos 30 anos da Revolução.

A tentação em lhe traçar o perfil de herói será grande, mas gostaria que não exclusiva. Porque se há traço fascinante neste homem é o permanente conflito entre as suas convicções e as reais possibilidades da sua concretização. O que o obrigou muitas vezes a actuar à revelia do seu ideário em obediência a um pragmatismo que em seu entender a situação exigia. A situação, isto é, o país ao qual dedicou uma vida a vários títulos exemplar, em grande parte registada neste admirável Sonhador Pragmático.

Revisitá-lo a estes anos de distância é cada vez mais um acto de resistência: resistência, antes de tudo, ao esquecimento, à amnésia e à reescrita da história. Resistência à quietude endémica e passiva, ao pântano moral e cívico em que vivemos. Resistência a um país de espinha partida e de mentalidade medíocre, sem dignidade, sem projecto nem ambição, por mais que o negue a nova geração de “pragmáticos” que nos governa.

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