9-A Lanterna-1913     10-Zé,-1913
   Árbitro no Senado violento, A Lanterna,1913                       Justiceiro implacável, O Zé,1913

  
11-O Moscardo-1913   12-Zé-1913
   Líder ineficaz no Parlamento, O Moscardo, 1913              Árbitro parlamentar, O Zé, 1913

 
Um texto de Jorge Martins (*)

 
Republicano não alinhado

O facto de Braamcamp Freire ser um neo-republicano e ter preservado toda a sua relutância em se envolver nas dissidências republicanas pós-República, não se colocando ao lado de nenhuma das facções, valeram-lhe algumas agruras. Começou por ter que abandonar a corrida presidencial em 1911 (ganha por Manuel de Arriaga), em consequência da campanha de insinuações de não ser um republicano da primeira hora.
Contudo, Braamcamp Feire mereceu os maiores elogios de figuras gradas do republicanismo quando aderiu ao PRP, em 1907, numa altura em que o fenómeno da «adesivagem» ainda não emergira. Para além dos já citados anteriormente, valerá a pena juntar este, de Bernardino Machado, que coloca o futuro presidente da Câmara de Lisboa, numa linhagem de inequívocas tradições liberais: «Ora o nome de V. Exª. é um nome histórico. Seu avô, o sr. Anselmo Braamcamp d’Almeida, punha-se ao lado da revolução de [18]20 com todos os cabedais, e acompanhava-o a esposa, oferecendo aos revolucionários todas as suas jóias. Seu tio, meu venerando amigo, o sr. Anselmo José Braamcamp, foi patuleia, pegando em armas para defender a liberdade nas lutas de [18]46 e [18]47. Um combateu o absolutismo sob a forma miguelista, o outro sob a forma cabralista. V. Exª. combate-o sob a forma franquista.»

Sete meses antes da proclamação da República, já na vereação republicana de Lisboa, Braamcamp Freire, reafirmava a sua decisão de 1907: «O que penso hoje, já então pensava; a coerência é perfeita e apenas dei um passo para diante quando, em Novembro de 1907, me declarei republicano.»
Afastado da vida política por decisão pessoal, depois de ter sido presidente da Câmara Municipal de Lisboa, da Assembleia Nacional Constituinte e do Senado, viria a dedicar-se com afinco aos estudos históricos, de que falaremos em próximo artigo. Nessa época, precisamente em 3 de Janeiro de 1915, escreveu uma carta a João Chagas, em Paris, demonstrando alguma amargura pela evolução do regime republicano: «Não sei se lhe chegou lá o desânimo, mas isto por cá está deplorável; não vejo remédio e receio um muito rápido e fatal desfecho.»

Oito dias depois, João Chagas, achando exagerada a profecia do historiador, responde-lhe nos seguintes termos: «Agradeço a carta de V. Exª. e muito sinceramente retribuímos, minha mulher e eu, os amáveis votos, mas se são fundados os seus receios, eles não podem ter realização. Associei a minha felicidade à obra a que consagrei metade da minha vida. Se, como V. Exª. Diz, ela está condenada, o tempo que me resta viver não pode ser feliz.»

Eram, infelizmente, fundados os receios de Braamcamp Freire: apenas duas semanas após esta carta de João Chagas, impunha-se ao país a breve ditadura de Pimenta de Castro, que durou de 28 de Janeiro a 14 de Maio de 1915. Ironia do destino: na sequência da ditadura de Pimenta de Castro, João Chagas demite-se do cargo diplomático em Paris, não querendo servir tal figura, que até havia sido seu ministro da Guerra em 1911 e que acabara por demitir por, já então, não merecer a sua confiança política. O mesmo João Chagas, regressado a Portugal, foi convidado em 1915 para chefiar novo governo logo após a queda de Pimenta de Castro. Na viagem de comboio para Lisboa, Chagas foi alvejado a atiro, o que lhe fez perder um olho e a chefia do governo, que não chegou a assumir.

Tinha razão Braamcamp Freire quanto à fatalidade do destino da República. No entanto e apesar das críticas que fazia aos «passarões da política», manteve-se fiel ao regime republicano, como se pode verificar pelo convite que endereçou a Teixeira de Queirós para estar presente no almoço que ia dar em sua casa em 19 de Maio de 1916, em homenagem ao embaixador de Espanha, aproveitando aquele evento para lhe apresentar republicanos portugueses ilustres: «(…) desejo dar-lhe a conhecer alguns Portugueses que honrem o seu país e o regime. Entre eles (muito poucos) está o Teixeira de Queirós e por isso lhe peço o favor de vir no referido dia almoçar connosco.»

 
(*) Biografia de Jorge Martins

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