homem com mala

Nota: O episódio que se segue, embora possa parecer inacreditável, foi-me contado por duas fontes diferentes, ambas credíveis, e em tempos diferentes.

 
A cortesã amiga

Em tempos de resistência não se limpam armas e há que deitar mão a todas as possibilidades para se escapar à prisão ou, pelo menos, para esconder à polícia o maior número de provas possível.

Todos os que andaram nestas andanças conhecem muitos dos truques que se engendra-vam para esconder documentos comprometedores: do autoclismo ao colchão, do interior de um livro colocado por trás de outros numa prateleira da estante à arca no sótão, às vezes na casa de um amigo insuspeito ou de um parente na província. Se a imaginação dos resistentes tinha que ser muita, a da polícia não lhe ficava atrás e, de um modo geral, acabava por ir direitinha aos esconderijos. Mas, nem sempre.

Estamos em meados dos anos sessenta, talvez 1964, quando este episódio, a roçar o inacreditável, se passa. Um companheiro que morava ali para as avenidas novas, começou a desconfiar que a sua casa estava a ser vigiada. Como, semanas antes, havia sido preso um outro com quem ele mantinha ligações conspirativas, receou que ele tivesse falado na polícia. A situação adensa-se qundo recebe a informação de que o melhor era limpar a casa e preparar-se para o pior, ou seja, a prisão. Dirige-se para casa e verifica que a vigilância tinha sido reforçada. A prisão está eminente. Sobe no elevador, entra em casa e mete a papelada conspirativa e alguns livros numa pequena mala de viagem, tendo tido o bom senso de não queimar nada na sanita: os restos queimados ficam sempre à tona. Mas sabe que não pode sair com a mala.

No andar de baixo morava uma senhora de idade balsaquiana, com muito boa presença e simpática, com quem ele já se cruzara por várias vezes. Como se dizia então, a senhora «recebia», embora sempre com a maior discrição. Era uma cortesã. O nosso amigo, com a polícia à perna e não vendo outra alternativa, corre o risco de bater à porta da senhora, contar-lhe o que se passava e pedir-lhe para guardar a mala. A senhora manda-o entrar, fecha a porta e, espante-se, diz que ali é que ela ficaria bem guardada, que a  punha debaixo da cama. Ainda mal refeito da surpresa da sorte, regressa a casa. Passados alguns minutos a PIDE esta lá, passa revista e leva-o preso. A prisão não durou mais do que uma semana. A PIDE não tinha grandes provas até porque o companheiro anteriormente preso não falara nele. Foi o que se chamava «andar à pesca».

Regressado a casa, aguardou uns dias até ganhar coragem para ir bater à porta da senhora. Quando o viu, a nossa boa dama diz-lhe «Entre, entre, a sua malinha continua aqui, debaixo da cama». Quando ele se debruça para puxar a mala, remata ela «Aqui é que ela estava mesmo bem guardada», e em voz mais baixa quase sussurante, «porque um dos que vem cá a casa é da PIDE!»

O episódio termina aqui, o resto da história não, mas também não é para aqui chamado.

Anúncios