1000 anos Liceu Camões

Um texto de Cecília Cunha (*)

O que vos proponho é a leitura de um livro, Liceu de Camões. Cem Anos. Cem Testemunhos, título que nos chama, literal – como se verá.

Afinal dois títulos, dois painéis, dois autores, estes em estado de graça: José Luís Falcão de Vasconcellos dá-nos o essencial que a sua erudição autoriza e entramos na História e na Cidade. Comprova a colagem dum liceu a Cem Anos com memórias, tal como prefaciou António Nóvoa. Sarah Adamopoulos encarrega-se do fio condutor que integra cada testemunho e fala da escola na perspectiva dos que nela viveram ou por ela passaram.

Os cem anos são revistos num capítulo que é Das «Origens» aos «anos fundadores», e apresenta um manancial de informação, a partir de documentos e sua inscrição na diacronia. Por exemplo: a fotografia das crianças que plantam uma «árvore da liberdade» na Praça José Fontana, em 1910, transporta-nos para uma época e para um ambiente, poucos meses antes da Revolução Republicana. Já construído, o Lyceu Camões sofreu danos originados pelos violentos combates entre republicanos e monárquicos – «Numa relação nominal dos credores do Estado (…) por despesas efectuadas no mês de Novembro de 1910 pode ler-se:”A José Passos Mesquita, pelas reparações feitas nas salas d’este lyceu provenientes dos estragos causados nos dias 4 e 5 de Outubro,……….36 400 (réis)”.» (páginas 40-41).

O leitor apreende todos os factores que confluíram para o aparecimento do edifício de Ventura Terra. Tem a apoiá-lo uma excelente cronologia e é-lhe permitido reconhecer o aparecimento do edifício no contexto duma época de transição política, mas de aposta na instrução pública. O capítulo contém uma escrita de sabor original e sustentada por estilo sóbrio. Muito recomendável e à disposição de vários tipos de leitores.

Sarah Adamopoulos apresenta-nos 100 anos/100 testemunhos, visões da escola ao longo de um século. Capítulo sinalizado por uma fotografia tirada duma galeria para um dos dois pátios gémeos, marca para uma abordagem mais «intimista». Atente-se, também, à fotografia da capa, imagem ilustrativa doutro ângulo do pátio, com um tronco de plátano no primeiro plano: qualquer um que tenha passado por aquela escola, reconhece o pátio e o significado dessa imagem. Ninguém fica indiferente, porém.

Os autores souberam criar um conjunto de efeitos, a começar pela consciência de uma comunidade dentro doutra(s) comunidade(s): podemos conhecer períodos e personagens notáveis, misturadas com os anónimos que foram professores, alunos e funcionários. As fotografias dos primeiros tempos ilustram a época anterior à ditadura – correm imagens, a par do texto, documentos preciosos que «as fadas e os duendes» trouxeram à luz do dia (e parafraseando a ideia que Margarida Sérvulo Correia nos trouxe, em plena sessão solene, no dia do centenário).

É, na verdade, a revelação de um trabalho laborioso de José Luís Falcão de Vasconcellos, ele que cumpre a aposentação a tratar do miolo documental do liceu, hoje secundária de Camões.

Há fotografias do tempo da Primeira República, de meninos a fazer ginástica, alegres no pátio. Páginas à frente outros meninos aparecem, alinhados em fotografias da Mocidade Portuguesa. A Legião também usou o ginásio para solenidades militantes, em tempos de guerra. Salazar por lá passou e até Humberto Delgado fez um discurso histórico nesse espaço da escola. «Eis-nos chegados a um momento fundamental para a compreensão da grandeza das múltiplas e multiformes ilegitimidades do regime de então: aquele em que Humberto Delgado, em campanha eleitoral, sobe à tribuna do ginásio do Liceu Camões para proferir um discurso feito de uma desassombrada e palavrosa indignação sem precedentes. (…) É no ginásio que o candidato nacional independente reafirma a inexorabilidade do desejo popular de mudança (…).» (página 151)

Porém, mais do que pelas marcas deixadas pelos visitantes, e através do trabalho de selecção e da escrita da autora, o Lyceu reinventa-se, testemunho a testemunho. Renasce cem vezes, à força dos cem depoimentos: um a um, escritos para que todos possamos partilhar histórias de dedicação, de aprendizagem, de respeito, e até de bravura. São todas histórias diferentes, até pela referência de gerações.

Excertos de textos com assinatura, estampados em canto superior, esquerdo e direito, todos moldados por afectos e (arrisco dizer) por valores. Mais: cada testemunho faz prova e alinha com todos os outros testemunhos, em prol de uma multiplicidade de valores. São simples episódios, histórias de vida, momentos, memórias, caminhos. Dessa linha, e tomado o conjunto, sobressai uma estampa de sentimentos e de convicções.

Repare-se que o grande criador do edifício é humano, arquitecto e sábio: Ventura Terra, cuja biografia recomendamos. Quando tomamos consciência da importância, qualidade e beleza daquele espaço, temos de regressar à planta, apreendê-la como suporte: ao abrir, o livro apresenta um desenho do rés-do-chão, planta do edifício, de uma arquitectura doce, arejada e funcional. Observada a planta, apoiados no texto que acompanha os testemunhos e nas imagens, compreendemos a interacção do espaço com a história e as pessoas. Mesmo aquele que andou na «concorrência» (o Liceu Pedro Nunes) pode embarcar nesta aventura.

O capítulo referente aos anos de 1950 a 1974 apresenta-nos o reitor, Joaquim Sérvulo Correia: figura controversa, que «(…) marcou indelevelmente todos os que com ele se cruzaram no Liceu Camões, tendendo as vozes mais críticas a atribuir-lhe infâmias que se confundem com a própria natureza do regime.» (página 112). Aquele que alcunharam de «cabeça de martelo», foi personagem austera e marcou gerações num ambiente de intolerância.

Há depoimentos que fazem declarações de fidelidade à casa e ao reitor que cumpriu o seu trabalho «como uma missão». Outra será a leitura possível resultante de pequenos apontamentos, já que, «(…) nas outras escolas, nomeadamente nos liceus Passos Manuel e Gil Vicente, se podia correr nos pátios sem restrições.» (página 132).

Alguns antigos alunos trazem-nos memórias de repreensões, expulsões e de problemas de aproveitamento escolar. Para que não fiquemos à mercê de juízos pessoais, o texto é acompanhado por fotografias e documentos. É o caso da ordem de serviço número 15, de 27 de Janeiro, assinada pelo reitor, que declara: «Sabem todos os alunos do Liceu que, para se evitarem prejuízos de várias espécies, foram proibidas nos pátios, desde há muito, todas as brincadeiras que implicam o uso de bolas ou de quaisquer objectos que as substituam. (…)» (página 138)

Sarah Adamopoulos consegue afastar-se dos testemunhos para nos dar conhecimento de todas as facetas e iniciativas do reitor: esta narrativa, agora distanciada, estava por fazer.

Porque este livro reúne testemunhos diversos, somos convidados a enfrentar perspectivas diferentes das nossas. E assim fugimos à traição das nossas memórias, quando demasiado fechadas. João Lobo Antunes falou pelos antigos alunos na já referida sessão solene do centenário: recuou à mocidade nunca perdida, a contar histórias de brincadeiras e inocência, e curvou-se perante a memória de Joaquim Sérvulo Correia. Entre o que disse e a informação que o livro contém, talvez se possa compor um outro caminho de memórias, num registo que só temos de conhecer e contextualizar.

Como acabámos por associar um livro a sentimentos, ao convite à leitura, à mestria de Ventura Terra e a tudo o que mais é impossível destacar, regressamos à sessão solene do centenário, em que foi feita a apresentação formal deste livro. Assim…

…, um livro torna-se fascinante quando proporciona mudanças e atitudes. No passado dia 16 de Outubro, (depois da apresentação do livro feita por Margarida Sérvulo Correia, que estava «em casa»), falou uma pessoa de visual alternativo na mesa de honra: Pedro Feijó, representante dos actuais alunos e aluno do décimo segundo ano.

Estavam também o Senhor Presidente da República, a ministra da Educação (que ainda era, para manifesta despedida, Maria de Lurdes Rodrigues), João Lobo Antunes, João Jaime, nosso director, (que faz questão de não ser reitor e que gabou a excelência de gerações de professores que passaram naquela casa e se tornaram mestres, sem precisarem de titularidades); estava também a dona Olinda, funcionária desde 1974.

O aluno dirigiu-se ao palanque que a presença de Cavaco Silva impunha, e começou por se dizer portador de uma escola de sonho. Falou de improviso. Comentou as medidas que, na sua análise, puseram em causa a escola democrática. Deu casos, explicou os efeitos das medidas ministeriais. Mas demarcou-se dos sindicatos, porque trouxe às centenas de camonianos, pessoas de muitas diferentes idades, uma proposta de comunhão, inspirada na cultura da sua escola – no ginásio do antigo liceu Camões, agora escola secundária, os presentes foram confrontados com a necessidade de criar projectos para dar vida a um espaço que o merece.

Não passa de um episódio, este, despoletado por um aluno de dezassete anos, a propósito de um livro que causou sucesso no dia do lançamento. Feita a devida leitura, praticado o vaivém de consultas, entre páginas e imagens, pode tomar-se o passado e sonhar-se com uma escola viva. O livro serve de inspiração. O arquitecto, esse, deixou-nos as galerias, os pátios, o ginásio, e tantos espaços.

Este livro é um convite incontornável a todos os que quiserem entrar, porque o liceu, agora escola secundária, está disposto a abrir-se às pessoas e à cidade: foram os seus autores que souberam proceder à chamada.

Adamopoulos, Sarah e Vasconcellos, José Luís Falcão de (2009), Liceu de Camões. 100 Anos. 100 Testemunhos, Lisboa, Quimera Editores, pp. 261.

 
(*) Biografia de Cecília Cunha

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