Berlin Wall

Faz agora 20 anos a notícia abalava o mundo e deixava todos estupefactos. Não é que não se percebesse já, e desde pelo menos há dois ou três anos que o “campo socialista”, o “socialismo real”, o regime que abarcava um terço da humanidade e mudara grande parte do mundo nos últimos 70 anos tinha os dias contados. Pelo menos tal como tinha sido até ali. Em que se transformaria, e como se transformaria, isso era ainda uma incógnita. Mas nesse dia 9 de Novembro de 1989 o Muro de Berlim caía. Dois milhões de cidadãos do outro lado do mundo viriam nos três dias seguintes ver os brilhos do capitalismo, as infindáveis variedades de produtos dos supermercados, as faiscantes montras Vuitton, os reluzentes Mercedes.

A queda do muro de Berlim, todos tinham percebido, era um sinal. O símbolo e a antecipação de que tudo aquilo que estava lá para oriente poderia vir, mais depressa do que se pensara, por aí abaixo. E talvez sem armas nucleares, sem tanques nem canhões. Pelo menos em grande número e sem demasiado sangue.

Como reagiu o principal adepto e suporte ideológico do regime comunista da RDA, na sua forma mais pura e dura, o PCP e Álvaro Cunhal?

O Secretário-Geral do Partido Comunista Português tinha passado o dia encafuado numa sala que então abrigava o Cinema Universal, na Rua da Beneficência, a duzentos metros da sua casa, a sede do CC, na Soeiro Pereira Gomes. Decorria lá uma reunião magna da Juventude Comunista Portuguesa, a JCP, uma assembleia, um congresso, qualquer coisa com uma dimensão menor e a minguar, que não podia fazer história nem sequer para a pequena história do “Partido”. À saída Cunhal tinha um batalhão de jornalistas que lhe apontaram à cara uma parafernália de microfones, objectivas, gravadores e máquinas de filmar. Não adivinho que terá pensado Álvaro Cunhal. Que os media estavam a dar tanta importância à reunião quanto ele? A dúvida, se houve, foi um momento porque o que lhe atiraram com perguntas foi o muro. O muro de Berlim. Aí Cunhal não gostou e não teve tempo de medir , em segundos, o alcance de tal queda . Prenúncio do desmoronamento do comunismo, coisa que não admitia, nem admitiu depois, mesmo contra a realidade dos factos. Aliás, desde há algum tempo que deixara de dar importância aos factos e à realidade que teimosamente contrariavam o que estava escrito. Tanto pior para eles e para ela. De modo que insurgiu-se contra os jornalistas e contra o disparate de perguntas daquelas, sensacionalistas e provocatórias, quando ele “acabava de sair de uma magnífica reunião da JCP onde foram tomadas importantíssimas decisões.”

O «grupo secreto»… era uma acusação sibilina que reboava pelos corredores da sede do CC do PCP, e designava uns quantos “camaradas”, inimigos internos, talvez ligados à CIA ou, ainda pior, ao PS e que, topem a tineta, dera-lhes para no comité central e noutras reuniões menores contrariar a justa orientação do partido.

As vítimas (muito pouco vítimas) da vã e tola atitude de querer impor na actividade mesma do “Partido” discussão livre por células, pela imprensa, por congressos e outras leviandades, as vítimas – dizia eu – deram a acusação por boa e falavam entre si “olha lá pá vamos mas é reunir o grupo secreto e comemorar a queda do muro com um jantar na Varina da Madragoa”.
E agora mesmo lembrámo-nos… e se fossemos comemorar os 20 anos da queda do Muro à Varina? Dito e feito. Lá iremos. Mas não todos porque José Barros Moura e António Graça, já não podem estar presentes. A não ser na nossa saudade.

Anúncios