muro berlim

Estamos à beira dos vinte anos passados desde a queda do Muro. Esse Muro que foi o símbolo maior, um autêntico ícone, da separação radical de dois mundos, dos pontos de vista político, ideológico e social, em permanente confronto até à vitória de um sobre o outro, um desfecho de antagonismos herdados de 1917 e há muito anunciado que alimentou medos de décadas de que se iria «resolver» pela via da hecatombe nuclear e que, surpreendendo todos, se deu de uma forma instantânea e pacífica, porque o comunismo simplesmente tinha apodrecido (como aqui, em Portugal, acontecera ao fascismo de Caetano). Nesse momento histórico, o Muro, caindo, transmutou-se, por via da dinâmica dos símbolos, de emblema maior opositivo entre capitalismo democrático e comunismo totalitário para o sinal maior da vitória de um e falência do outro.

Nunca vi, ao vivo, o Muro que a maior parte das pessoas conhece através da imagem, o Muro odiado, conspurcado, repleto de graffitis obscenos, humorísticos ou artísticos, decorado com repulsa que ia do talento irónico até ao ódio, aquele Muro em que o ocidente cuspia na antítese comunista. Mas conheci, no princípio da década de 80, um outro Muro no lugar do mesmo Muro, um Muro limpo, sepulcral, bélico e emblemático da luta de classes, o Muro visto de Berlim-Leste, então capital da RDA. E ainda hoje, quando se fala do Muro, é esse Muro que remexe a minha memória. Em viagem turística, com dois casais metidos num velho Fiat 127 atafulhado de apetrechos campistas, todos militantes empenhados do PCP, ali estávamos, eu e os meus companheiros de viagem, após quatro mil quilómetros de estrada e calcorrearmos a Checoslováquia e a RDA, a olhar para a face comunista do Muro, o lado do mundo que Lenine iluminava. O percurso tinha sido feito até à Porta de Brandenburgo, onde o Muro apresentava uma espécie de «barriga», por uma zona em que raros eram os berlinenses que ali passeavam ou simplesmente circulavam, o meio envolvente era dissuasor, fortemente policiado e militarizado, a vista alcançava a «terra de ninguém» e, ao fundo, o Muro com a sua frieza de betão, um betão lívido a fazer de horizonte após ouriços de arame farpado numa faixa de terreno que se sabia minada. Entre espaços repetidos, elevavam-se as guaritas com guardas armados de kalash e binóculos. Por muito que isso me apetecesse, e na altura apetecia-me muito e acima de tudo, eu não conseguia encontrar naquela imagem gélida, bélica, desumanizada, petrificada a betão, a classe operária que eu tudo fazia por servir e seguir, as lutas dos trabalhadores, os gritos anticapitalistas contra a opressão, a igualdade e a fraternidade que procurei no comunismo, a camaradagem representada na vida do partido, a festa da festa do avante, o Cunhal contado a admiradores, seguidores e crédulos, muito menos amanhãs mesmo que afónicos. Mais que para fora, o Muro pareceu-me apontado para dentro, também para mim, comunista e internacionalista, marxista-leninista pois claro. E a visão do Muro, enquanto claustrofobia totalitária, reencontrei-a quando o vi de novo á minha beira estando sentado numa esplanada durante uma visita à beleza de Potsdam, perto de Berlim, dando-me a dimensão tentacular daquele polvo de betão. Apesar do choque, o Muro não me trouxe, então, indignação ou protesto. Simplesmente, engoli-o, por disciplina e fidelidade, como outros que ainda hoje andam enfartados com gulags e lubiankas a inchar-lhes o estômago transformado em sede de pensamento político e absorvedor de neurónios para serem corroídos pelo suco gástrico.

Hoje, quando vejo pedaços expostos do Muro que engoli em Berlim-Leste há quase trinta anos atrás, graffitados como não o conheci, sinto-os como se tivessem saído de dentro de mim por via de vómitos, admirando-me com as dimensões daquilo que um ser humano, abdicando da inteligência e da lucidez, sobretudo do juízo sem amos, pagando o preço da tranquilidade de uma paz ideológica, é capaz de olhar sem ler na escrita do betão, o que petrifica ideais, sonhos e utopias.

 
(Texto publicado também no blogue Água Lisa)

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