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Por ocasião do 40º aniversário das eleições legislativas de 1969, decidimos fazer esta pergunta a nós próprios – os nove redactores deste blogue. As respostas revelam bem a variedade dos nossos passados.

Artur Pinto – Nas «eleições» de 1969 estava a cumprir o serviço militar. Participei tão activamente quanto pude, uma vez que já tinha uma prisão atrás de mim, em 1965, e a informação da PIDE foi-me acompanhando. E, como já tinha tido sido castigado por duas vezes, não me podia permitir grandes aventuras. Mas participei dando o meu apoio logístico em serviço nocturno na sede, ali ao Campo Pequeno. E é curioso referir que enquanto eu e a minha Mãe militávamos na CDE, o meu Pai, fiel às suas amizades, em particular com Soares e Zenha, apoiou a CEUD. Mas mais curioso é o facto de se ter afastado de Soares após o 25 de Abril, para virar à esquerda. A minha actividade e aprendizagem política prática tinham começado nas «eleições» do Delgado, tinha eu 16 anos, continuado na Crise de 1962, até à prisão em 1965. Mas a experiência da CDE foi particularmente importante pelo convívio que tive com figuras destacadas da Oposição. E lembro com saudade Sottomayor Cardia, que eu já conhecia da Crise Académica, um homem de grande cultura, saber e, até, coragem, sobretudo atendendo à sua fraca compleição física. Uma noite em que houve algumas provocações pidescas à porta da CDE, ele não hesitou em vir à rua comigo e defender os companheiros vítimas da provocação. Queria mesmo apresentar queixa, do que foi dissuadido. Como lembro o andar pelas casas dos amigos, noite dentro, a entregar propaganda para estes distribuírem. E dizer que foi com alguma surpresa que dois ou três oficiais do quadro, sabendo das minhas ideias, me abordaram para colher informações e propaganda. Um deles viria a ser um participante activo ao comando de uma das colunas militares em Abril de 1974. Afinal, ao fim de cinco anos, acabámos por ganhar mesmo as eleições.

Diana Andringa – Sendo Domingo, estava, provavelmente, em Peniche, a visitar o Alexandre. Teria provavelmente ido na véspera, como a Lena, a Graça e a Manuela, habituais companheiras desses fins de semana de «turismo prisional» e encontrado a Maria Emília Brederode, a Nita Feronha, a Zé Catanho, que visitavam no Forte os seus irmãos. Terei quase certamente desabafado com o Alexandre o desgosto pelo meu recente trabalho como copy-writer na Ciesa NCK, depois da demissão colectiva da Vida Mundial, onde fora tão exaltante trabalhar. Teremos voltado a falar dessa demissão que me ensinara tanto sobre solidariedade, e cuja razão sentia ligada às eleições e às disputas entre CEUD e CDE. Teremos talvez discutido, na vigiada conversa no Parlatório, a forma como as candidaturas de Oposição tratavam a questão colonial – e a exigência de um corte radical com a ideologia colonialista. Faltavam três meses para ser presa, Angola estava-me mais próxima que Portugal.
Em frente da porta, do lado de fora, terei talvez comprado uma batata-doce assada ao vendedor de castanhas. Afinal, era esse o sabor do Outono em Peniche.

Helena Pato – Lembro-me tão bem do 26 de Outubro de 1969! Durante o dia, sentada na mesa de voto da freguesia de Santa Maria dos Olivais, eu não tirava os olhos da urna dos votos e o grupo de velhos pidescos e ranhosos da União Nacional, que constituía a mesa, não tirava os olhos de mim – um olhar que parecia de nojo por eu ser mulher, uma garota, e estar ali delegada de uma lista da oposição. À noite, na sede nacional da CDE, no Campo Pequeno, troquei reflexões, notícias e nervoso, muito nervoso, com os companheiros da Comissão Política com quem reuni. Do Lindley Sintra e do Pereira de Moura tenho uma saudade imensa. Não me esqueço do arguto e obstinado Sottomayor Cardia remando contra a nossa maré. Já os outros, mal eu sabia que, um dia, haveria de os ver quase todos pela Assembleia da República interpelando-se na «defesa da honra da bancada» – e todos em diferentes bancadas, da esquerda claro está… –, ou passando revista às tropas num quartel, ou dando brilho a um governo, ou falando em Belém ao Povo, com a bandeira portuguesa de um lado e a da Comunidade Europeia do outro. Enquanto isso, eu ficava cada vez mais mulher e cada vez mais mãe. O eterno desgraçado destino de quem nasce no feminino. Porém, irremediavelmente apaixonada pela vida política e cegamente enterrada na profissão que, por maus motivos, agora mais brado dá neste país.

Joana Lopes – Estive ligada às eleições de 1969 desde o mês de Janeiro, quando foi formada a «Comissão Promotora de Voto» para a qual fui recrutada pelo então meu aluno Jaime Gama.
Fazia parte da direcção do Centro Nacional de Cultura, que, em jeito de preparação remota para as eleições de Outubro, organizou em Março Lusitania Quo Vadis?, um conjunto de três colóquios que foram objecto de intervenções da polícia e palco de inacreditáveis peripécias.
Vivi mais tarde, nos bastidores, um dos momentos mais dramáticos da cisão CDE / CEUD, numa reunião relativamente restrita em casa de Salgado Zenha. Durante a campanha, «andei por aí», a falar em sessões de esclarecimento da CDE, sendo hoje totalmente incapaz de me lembrar de uma única palavra do que poderei ter dito… Na última noite, estive algures numa colectividade em Benfica, numa mesa presidida pelo Sottomayor Cardia. Quando terminaram as intervenções – impreterivelmente antes da meia-noite – Cardia sussurrou-me ao ouvido: «Srª Drª, entoe!» Olhei-o atónita e ele completou: «O hino!». Lancei então um «Heróis do mar» tão afinado quanto consegui, mas com uma enorme e mal contida vontade de rir. No dia 26, passei pela sede da CDE, onde Nicolau Breyner se passeava como sempre como os seus cães de guarda para garantir a segurança. Depois fui votar pela primeira vez na minha vida – e última até 25 de Abril de 1975.

João Tunes – Cheguei à Guiné em Maio de 1969. Depois de um período de estacionamento num quartel de Bissau, Outubro desse ano, quando veio, arrastou a minha deslocação para o «mato». Mais precisamente para o norte, para o Pelundo, um quartel situado numa aldeia no coração do «chão manjaco» (onde estava localizada uma etnia animista e com uma cultura riquíssima). Ali, Spínola alimentava o sonho de corromper os guerrilheiros do PAIGC que actuavam na zona e, com um fraccionamento nas forças de libertação, vibrar um golpe na capacidade militar e na moral dos independentistas guineenses. O resultado é conhecido: o PAIGC alimentou a encenação do «namoro» até, em Abril de 1970, desferir um golpe em que decapitou o exército colonial de alguns dos seus melhores oficiais colocados no teatro operacional da Guiné. Na data em questão, eu estava no Pelundo, uma aldeia manjaca a viver a paz podre que resulta do jogo táctico-traiçoeiro de uma guerra em compasso de espera para ver quem melhor engana para não ser enganado. Mas estava na guerra colonial e no «mato» da Guiné. Exactamente num sítio e em circunstâncias que era antípoda de todos os sítios e situações em que desejava estar. O que me deu uma sensação de solidão triste de que só me libertei quando sai da Guiné e, muito mais tarde, fiz a paz com a minha memória libertando-me para a disponibilidade de fruir as boas e felizes solidões.

Mª Manuela Cruzeiro – Estava em Coimbra, no refluxo da histórica Crise Académica, tentando gerir, a nível colectivo, a dura constatação de que não fora ainda então que tínhamos conseguimos «mudar o mundo» e, a nível pessoal, a ida para a tropa, como castigados, do meu namorado, do meu irmão e de mais umas dezenas de amigos e companheiros – afinal os principais quadros do movimento, cuja despedida emocionada na Estação Nova foi ocasião para a primeira manifestação anti-colonial estudantil em Coimbra. Por tudo isto, ou porque a minha preparação política era muito deficitária, as eleições de 69 foram uma espécie de chamada à realidade de que a luta contra o fascismo tinha várias frentes. E nem todas tão radicais e exaltantes como aquelas que eu conhecia.

Miguel Cardina – Estava longe. Tinha pedaços do que viria a ser espalhados por Angola e Moçambique. Gente nova, distante dos cenários de guerra, a viver uma vida de europeus remediados. Quando nasci, uma década depois, talvez se julgasse que Outubro de 69 havia ficado do lado de lá da curva da história. Talvez. A verdade é que eu ainda continuava longe. E hoje, quando me aproximo desse tempo, a questão não é tanto a de saber onde estava se pudesse estar, mas como estiveram os que lá estiveram. E, já agora, como estiveram aqueles que se reivindicavam ou que viriam a pertencer ao campo plural e ainda inorgânico da extrema-esquerda. Não é saudosismo do que não se viveu ou vontade de identificação com uma área política. É que tenho de falar disso na próxima semana e toda a informação é bem-vinda.

Raimundo Narciso – Vivíamos há mais de um ano em Vale de Lobos, perto de Belas, e a Maria estava a um mês de ter a nossa filha. Eu era «um desenhador de máquinas a trabalhar em Lisboa», a família era ordeira e de boas contas e ninguém ia pôr-se a pensar que éramos um subversivo casal de comunistas a viver na clandestinidade, ia para 5 anos.
Obrigados a sair dali rapidamente e sem deixar rasto – descobrira uma pessoa da minha terra natal a viver na aldeia – passei o dia 26 de Outubro pelas ruas de Alcabideche a tentar alugar uma casa escondida mas não em excesso.
Alcabideche abrigou-nos cerca de dois anos e não mais porque receámos o atrevido namoro político de um jovem casal nosso vizinho: «ontem a rádio Moscovo dizia que na Guiné os guerrilheiros abateram um helicóptero dos nossos». E diziam isto sem sombra de patriotismo! Nós garantíamos que «a nossa política era o trabalho» apesar de ser exactamente o contrário! Incautos anti-fascistas ou provocadores? Aí por 1975, já sem o peso do fascismo em cima das nossas vidas, procurámos tirar o caso a limpo. Confirmámos a primeira versão.

Rui Bebiano – Em Outubro de 1969 tinha 16 anos e acabava de chegar a Coimbra para concluir o liceu. O que chamamos de consciência política era então, em mim, qualquer coisa de muito nebuloso ainda. Mas tinha algumas informações e meias-certezas. Lembrava-me vagamente da campanha de Delgado – muito vagamente, claro –, mas o suficiente para saber que se tratava de um combate dos bons contra os maus. E como na luta entre cowboys e índios sempre preferi ser índio (modéstia à parte, naturalmente), estava do lado dos bons, que precisavam esforçar-se muito para que toda a gente se juntasse a eles para um dia vencerem os maus. Sabia da luta estudantil que rebentara uns meses antes e das suas razões. Acima de tudo, conhecia já o suficiente de um país triste e envelhecido, da guerra interminável, das desigualdades, da pobreza, das fugas «a salto», das prisões, da porrada da polícia, do medo. E da necessidade de fazer alguma coisa para mudar tudo aquilo. Como ainda não era senão um jovem da província simpatizante do reviralho, fui algumas vezes sozinho à sede da CDE e pedi alguns papéis para meter por debaixo das portas. No dia das eleições, como não podia votar e «adivinhava» o resultado, fiquei em casa. Sendo domingo, devo ter passado a tarde a ouvir o relato do futebol. À noite dei uma volta pela cidade e parecia-me tudo como dantes. Engano meu.

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