julgamento
 

No Julgamento do Golpe da Sé 

A 11 de Março de 1959 está-se na véspera da eclosão do que ficará conhecido como o Golpe da Sé, assim chamado por ser aí que reuniam os conspiradores civis. Como sempre sucedera em acções anteriores, a impreparação e o facilitismo dos revoltosos levaram á sua prisão. Houve mesmo alguns aspectos caricatos como o de um Major conspirador que não fazendo parte de uma determinada unidade, nela compareceu fardado, nessa noite, para se encontrar com um outro oficial, também integrante dos revoltosos. É evidente que causou estranheza a sua presença, em particular ao oficial de dia. Mas isto não passa de um «fait-divers» do que quero contar.

Todos os conspiradores, civis e militares, foram julgados no Tribunal Militar de Santa Clara, em Julho e Agosto de 1960. Naturalmente que os seus defensores eram a nata dos advogados da Oposição, todos com grande tarimba destes julgamentos. Entre outros, eram cerca de uma dúzia, estavam Eduardo Figueiredo, Acácio Gouveia, Olinto Figueiredo, Catanho de Menezes, Cunha Leal, Duarte Vidal, Salgado Zenha, etc, já todos desaparecidos. E estava também Mário Soares, que penso ser o único advogado sobrevivente, pelo menos deste julgamento.

Os militares revoltosos eram todos oficiais e encontravam-se detidos no presídio militar da Trafaria. De entre estes sobressaía a figura de um velho capitão que participara no 28 de Maio mas que repudiaria a orientação política entretanto seguida. Afastado do Exército, participa em tudo o que é intentona. Era um homem de boa compleição, entroncado, e de equivalente coragem física. Um dia, já perto dos 80 anos, à porta do café Londres, arrumou a murro e a pontapé dois pides que o interpelaram. Homem frontal, falava sempre com uma voz que se impunha. Tinha 70 anos à data do julgamento.

As janelas da sala do tribunal estão abertas de par em par, pois o calor é muito e não há ventilação. Algumas senhoras abanam-se com os leques, os homens que ainda usam chapéu fazem o mesmo.

(Um parentesis para contar que quando Cunha Leal, com a sua voz de trovão, fazia as alegações, o Juíz Ptresidente pediu-lhe para falar mais baixo, pois ouvia-se tudo na rua. Ao que ele respondeu: «Era o que mais faltava sr. dr. juíz! Deus deu-me esta voz é com ela que falo e é com ela que hei-de morrer! Mande o senhor fechar as janelas, se quiser!»)

Os detidos estão sentados logo à frente da primeira fila da assistência onde se sentam os familiares, apenas separados por uma balaustrada em madeira. O ambiente é pesado e rigoroso, ou não fosse um tribunal militar, as portas guardadas por elementos da Polícia Militar. Após um curto intervalo, quando a sessão retoma, a mulher do nosso bravo capitão debruça-se na balaustrada e sussurra-lhe «Carlos, tens a braguilha aberta!» ao que ele responde prontamente, «Ó filha, isto é pássaro que já não sai da gaiola».

Ignora-se, ainda hoje, se foi esta a razão, ou qualquer outra mais elaborada e complexa, que levou o tribunal a concluir por sentenças benevolentes.

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