Soldados israelitas, anos 50

A tarefa de escrever a turbulenta História do Estado de Israel afigurava-se complicada para Martin Gilbert, o biógrafo de Winston Churchill que é também um notável historiador do Holocausto. Desde logo porque uma boa parte do tema remete inevitavelmente para o terreno movediço que a história do presente sempre envolve porque vive sujeita à revisão dos sobreviventes e se mantém próxima dos episódios aos quais se refere. Mas também porque a existência política do Estado de Israel passou a convocar, principalmente a partir da sua independência formal, paixões quase sempre inimigas do rigor histórico e da equidade. Gilbert resolveu ambos os problemas da forma aparentemente mais segura, cingindo-se aos factos e limitando-se à enunciação dos pontos de vista presentes no terreno. Desta maneira, e tanto quanto lhe foi possível, optou por contornar leituras mais assumidamente interpretativas.

Podemos decompor cronologicamente a narrativa proposta. Num primeiro tempo percorrem-se as origens novecentistas do movimento sionista e traça-se o processo de retorno e de fixação dos judeus na Palestina, passando pela Declaração de Balfour sobre o seu direito a um lar, pelas vicissitudes do mandato administrativo britânico, pelos primórdios da resistência árabe, fechando-se a sequência com a declaração formal da existência do Estado israelita, a 14 de Maio de 1948. Aborda-se de seguida o processo de construção de Israel num contexto de conflitos praticamente contínuos, envolvendo a Guerra da Independência, a Campanha do Sinai, a Guerra dos Seis Dias ou a Guerra do Yom Kippur. Por último, de modo menos extenso mas não menos relevante, tratam-se as novas condições de sobrevivência do Estado no contexto, pós-Intifada, da busca de processos de paz viáveis e da reorganização da resistência do campo árabe, em íntima relação com a renovação de uma classe política, originalmente orientada à esquerda, que foi dando lugar a actores essencialmente pragmáticos e pouco vocacionados para um diálogo com o «inimigo».

No geral, a obra propõe uma leitura bastante aliciante e muito informada, que tem, desde logo, sobre algumas obras politicamente mais empenhadas, a vantagem de ajudar a demolir um conjunto de ideias estabelecidas, quase sempre resultantes de importante dose de ignorância ou da leitura apressada dos factos, que tendem a transformar Israel, tout court, num covil de demónios ou em pátria de heróis. Destaca também o papel decisivo, e não apenas simbólico, de actores e pioneiros – como Theodor Herzel, David Ben-Gurion, Chaim Weizmann, Yigael Yadin, Yitzhak Rabin, Golda Meir, Abba Eban ou Shimon Peres – cujos trajectos de vida foram decisivos na fundação e na definição dos caminhos tomados pelo Estado judaico. Não deixa, porém, de acusar uma lacuna cuja persistência toca o centro dos problemas que ainda perduram na região: escamoteia o valor da dimensão multiétnica do território da Palestina, colocando os árabes palestinianos como figurantes, presentes-ausentes, habitando um limiar longínquo do processo histórico. E aqui termina a imparcialidade de Gilbert.

Martin Gilbert, História de Israel. Trad. de Patrícia Xavier. Edições 70, 824 págs. [Na LER de Setembro]

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