Postais3-Varões Assinalados, Março1911

 

Um texto de Jorge Martins (*)

 

«Fica vago dentro da República o seu grande lugar de fidalgo, que passou os agitados anos do novo regime sem atraiçoar os seus ideais políticos e religiosos, sem negar os seus intuitos nobremente literários e artísticos e sem se comprometer nas lutas ásperas que dividem os homens hora a hora.»

Diário de Notícias, 23/12/1921. 

 

Anselmo Braamcamp Freire nasceu a 1 de Fevereiro de 1849 e faleceu a 23 de Dezembro de 1921. Foi uma personalidade multifacetada: um estudante insatisfeito que se tornou um historiador autodidacta profícuo; um editor corajoso que criou a primeira revista portuguesa de História; um político monárquico que aderiu ao Partido Republicano em 1907 e se torna um republicano não alinhado quando o PRP se cinde em três facções; um intelectual que assumiu os mais prestigiados cargos académicos; um municipalista que fez uma notável carreira autárquica; um deputado que impôs a sua venerável autoridade republicana.

Inicia-se, com este primeiro artigo, uma série que pretende expor a vida e a obra de um homem se notabilizou numa diversidade de intervenções cívicas, culturais e políticas. Comecemos por resumir o essencial dessas facetas, num momento em que já pairam no ar as comemorações do centenário da República.

A FAMÍLIA BRAAMCAMP EM PORTUGAL

A família Braamcamp é de origem holandesa. O primeiro a exercer cargos políticos em Portugal foi Hermano José Braamcamp, embaixador da Prússia em Lisboa, no reinado de D. José I. O avô de Braamcamp Freire foi Ministro dos Negócios Estrangeiros em 1822. Seu tio, Anselmo José Braamcamp Freire, desempenhou vários cargos ministeriais, entre os quais o de Primeiro-Ministro em 1878. Anselmo Braamcamp Freire pertencia a uma família de tradições liberais, que muito influenciou a sua formação política e humana.

BRAAMCAMP FREIRE HISTORIADOR

A obra historiográfica de Braamcamp Freire mantém ainda hoje uma enorme importância para os investigadores. Os medievalistas e os genealogistas não dispensam a consulta dos Brasões da Sala de Sintra. As dezenas de artigos e particularmente os documentos inéditos, publicados no Arquivo Histórico Português, a primeira grande revista portuguesa de História, têm um valor inestimável para os historiadores contemporâneos. A sua obra proporcionou-lhe um enorme prestígio, que lhe permitiu tornar-se Presidente da Sociedade de Geografia e da Academia das Ciências de Lisboa.

BRAAMCAMP FREIRE MUNICIPALISTA

Braamcamp Freire foi o 1º Presidente da Câmara Municipal de Loures (1887), onde desempenhou um segundo mandato presidencial (1893). Em 1907 aderiu ao Partido Republicano, o que lhe permitiu chefiar uma lista republicana à Câmara Municipal de Lisboa (1908), tornando-se o primeiro presidente de uma vereação republicana da Câmara (1908-1913), embora o regime monárquico, despeitado com a sua adesão ao Partido Republicano, nunca o tenha investido nessas funções, conforme a lei obrigava. Só em 1910, após a implantação da República, viria a ser reconhecido como Presidente da Câmara, funções que exercia, de facto, desde 1908, embora só pudesse assinar como vice-presidente.

BRAAMCAMP FREIRE REPUBLICANO

Braamcamp Freire ao aderir Partido Republicano em 1907 originou um movimento nacional de apoio à sua corajosa atitude, visto que era já considerado um conceituado historiador e um poderoso fidalgo. A população de Sacavém, onde residia, recebeu-o em festa. Estava à frente da Câmara Municipal de Lisboa, quando foi proclamada a República da varanda do edifício camarário. O desempenho da vereação republicana de Lisboa, chefiada por Braamcamp Freire, muito contribuiu para a implantação da própria República. Em 1911 foi eleito deputado por Lisboa e primeiro presidente do parlamento – a Assembleia Nacional Constituinte –, cargo que teve que abandonar para assumir a presidência do Senado. Ainda nesse ano, o seu nome chegou a ser proposto para primeiro presidente da República, estando bem posicionado, mas desistiu em consequência de uma campanha que moveram contra a sua «pureza» republicana.

De entre os retratos de Braamcamp Freire que nos legaram, há uma caricatura de Valença, que o descreve, em 1911, de forma irrepreensível: «“Três presidentes numa pessoa distinta», ou seja, presidente da Câmara de Lisboa, da Assembleia Nacional Constituinte e do Senado.

 

(*) Biografia de Jorge Martins

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