Almirante Cabeçadas
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Um texto de Helena Cabeçadas (*) 

Com o aproximar do centenário da implantação da República dei por mim a tentar compreender e a pensar num dos seus principais protagonistas e reconhecido herói, a quem estou ligada por laços familiares e afectivos muito fortes, o Almirante Mendes Cabeçadas, meu tio-avô. Dele guardo recordações muito intensas, que certamente influíram no meu percurso de vida e que gostaria de partilhar. 

Há dias visitei o Museu da Presidência da República e deparei-me com o seu retrato, no meio dos outros retratos de Presidentes. É um retrato sombrio e triste, de tal modo que tive dificuldade em reconhecê-lo, pois não corresponde, de modo algum, às memórias que dele tenho, que são as da minha infância e adolescência e que correspondem à fase final da sua vida (fim dos anos cinquenta e primeira metade dos anos sessenta). A imagem que dele guardo é de uma pessoa afável, cheia de energia, os olhos azuis muito vivos, rodeado de amigos na «Mexicana» e na «Anabela», pastelarias perto da casa onde vivia com duas das suas filhas, na zona da Praça de Londres, e onde reunia uma tertúlia de que faziam parte figuras conhecidas da oposição democrática como Dias Amado, Luís Rebordão, Fernando Vale, Cunha Leal, Adão e Silva, entre outros… Velhos republicanos, anti-salazaristas, maçons convictos que, à mesa do café, comentavam a actualidade política de modo crítico e exaltado e contavam histórias de revoluções, prisões e golpes de estado contra o regime fascista, dos quais tinham sido os principais protagonistas e pelos quais tinham estado presos. Eu ouvia-os, fascinada. Era garota, teria uns 14, 15 anos, saía do Liceu ali perto (o D. Filipa e, depois, o D. Leonor) com as minhas amigas e íamos ouvi-los, encantadas. Era como desfolhar as páginas de um livro de História Contemporânea, mas ao vivo, que não nos era contada, nem sequer mencionada, nos nossas bafientas aulas do Liceu. Gritos entusiásticos de «Viva a República» finalizavam muitas destas discussões apaixonadas e, para mim, apaixonantes. Os PIDES lá estavam, claro, sentados em mesas próximas, para não perderem pitada, com os seus cabelos gordurosos e as suas gabardinas cinzentas, pelo menos aqueles que nem se davam ao trabalho de disfarçar a sua condição pidesca. Provavelmente haveria outros, menos obviamente vestidos de PIDE e que passavam despercebidos… Os velhos republicanos não se preocupavam em falar baixo, talvez porque já estivessem um bocado surdos, ou porque já tinham sido presos várias vezes e já não se importavam muito, ou porque a PIDE naquela época (início dos anos sessenta) já não ligava à oposição moderada republicana, na sua obsessão pelo PCP e pelos comunistas, que considerava então a principal ameaça para o regime. Eu e as minhas amigas lá estávamos, todas contentes, com as batas do Liceu, a beber capilés e a ouvir aquelas histórias extraordinárias de golpes militares e revoluções, prisões e fugas arriscadas… 

O meu tio e os amigos gostavam imenso de nos ver aparecer, um grupinho de miúdas curiosas que os ouviam, avidamente. Deviam pensar que assim se passava o testemunho de aspirações democráticas e de resistência ao salazarismo. E tinham razão pois, de uma maneira ou de outra, todas nós nos tornámos antifascistas e activistas de esquerda, mais à esquerda do que eles desejariam, claro, mas os tempos eram outros. 

Recordo, quando das manifestações de estudantes de 1962, o meu tio, acompanhado de alguns amigos, já todos septuagenários, a saírem da «Mexicana» de bengala no ar, a acompanhar os estudantes, entusiasmados. E essa rebeldia, que tanto me fascinava, manteve-a até ao fim da vida.

Para mim, nessa época, ele era um herói, ao qual estava ligada por laços afectivos muito fortes. Mais tarde, passei a considerar as suas críticas ao fascismo ingénuas e superficiais, o seu anticlericalismo e anticomunismo ultrapassados, a sua luta contra Salazar encarada quase como um duelo, do qual se recusava aceitar ter sido vencido.

Quando o meu tio morreu, eu tinha 17 anos. Já estava expulsa de todos os liceus do país, impedida de fazer o exame da última disciplina do 7º ano, não sabia ainda por quanto tempo, e em vésperas de partir para o exílio, em Bruxelas. Recordo o seu funeral, no cemitério no cemitério dos Prazeres: quis ser enterrado directamente na terra, com toda a simplicidade, tal como sempre tinha vivido, de modo austero. Os velhos heróis da República, os poucos que restavam, fizeram discursos comovidos (e comoventes) – lembro em particular o de Cunha Leal – com muitos vivas à República. Estavam presentes muitos amigos e populares anónimos, apesar da presença ameaçadora e em massa da polícia de choque e de muitos PIDES, ostensivamente armados.

Recordo o meu tio com muita ternura e amizade. Na ausência de avô, tanto do lado materno como paterno, que já tinham morrido quando eu nasci, desempenhou esse papel, tanto mais que o meu pai, que com ele viveu um período significativo da sua vida, tinha com ele uma relação filial, de intenso afecto. É com orgulho, confesso, que leio as descrições do seu papel fulcral na revolta do 5 de Outubro, da sua coragem à frente dos marinheiros do «Adamastor», de onde foram disparados os tiros que deram início à revolta, o que tão decisivo foi para a implantação da I República. Foi com prazer que vi, na última sala do Museu da Cidade de Lisboa, escrita pela sua mão, no dia 5 de Outubro de 1910, a ordem para bombardear o Palácio das Necessidades, onde o rei se refugiara…

Ficou-me, no entanto, a questão que ainda hoje me perturba: como é que este homem, que eu conheci sempre como um democrata sincero e corajoso, profundamente imbuído dos ideais republicanos e maçónicos da liberdade, da igualdade e da fraternidade, pelos quais sempre esteve disposto a dar a vida, foi um dos principais artífices do 28 de Maio de 1926, que deu início ao sombrio regime fascista?

Regime esse, é certo, que ele viria a combater com determinação e coragem, logo em 1930, defendendo o multipartidarismo, com a criação da Aliança Republicana Socialista, como reacção à União Nacional. Manteve-se sempre activo na Maçonaria, tendo desempenhado o cargo de vice-presidente do Conselho da Ordem durante a clandestinidade. Em 1943 integrou o «comité revolucionário secreto» do Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF) e, dois anos mais tarde, apoiou publicamente o Movimento de Unidade Democrática (MUD), quando da sua constituição. Liderou os golpes militares de 1946 e 1947, tentativas de derrube da ditadura, na sequência das quais foi preso, julgado e compulsivamente reformado. Apoiou activamente as candidaturas presidenciais democráticas do Almirante Quintão Meireles (1951) e do General Delgado (1958) e foi ainda, em 1961, um dos três primeiros subscritores do Programa para a Democratização da República, com Jaime Cortesão e Mário de Azevedo Gomes. Fundou o Directório Democrato-Social (1957) que, em 1963, passou a designar-se Acção Democrática e Social (com Adão e Silva, Raul Rego, entre outros) e na qual se manteve entusiasta e activo até à morte.

No entanto, a interrogação persiste, sobre o seu percurso e o seu papel no 28 de Maio de 1926. Mas, provavelmente, esta incompreensão tem a ver com a minha ignorância sobre o que foi, na realidade, a I República em Portugal. Vou ter que aprofundar o assunto. Pena já não o ter perto de mim para esclarecer as muitas dúvidas.

(*) Biografia de Helena Cabeçadas.

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