livro da terceira classe

Tenho experiência de como temos de domar o bárbaro que transportamos em cada um de nós. Desde cedo. Desde tão cedo que essa minha experiência de criança é ainda hoje uma cicatriz na minha memória.

Andava na então Terceira Classe, tinha dez anos. Lembro-me bem do professor. Era um ser frio e duro. Mas não me lembro que tivesse olhos porque eles estavam escondidos atrás de umas lentes muito grossas. Mas sentia-se o seu olhar gelado de severidade a sair por baixo do Crucifixo ladeado pelas caras sombrias de Salazar e Carmona. Naquele tempo, usava-se palmatória para castigar maus comportamentos ou falhas na aprendizagem. A aplicação de castigos físicos ou de humilhação aos alunos integrava o sistema educativo salazarista e não era contestado, porque não era sequer contestável, nem sequer pelos pais. Por isso, uma régua grossa de madeira fazia parte dos instrumentos de «ensino e disciplina» que ornamentavam a mesa professoral. Mas o professor da minha Terceira Classe, severo e cruel na aplicação de palmatoadas, lembrou-se de refinar o seu sadismo, recorrendo à sus difusão pela transformação dos castigados em castigadores. Periodicamente, organizava uma espécie de sabatinas em que um miúdo fazia uma pergunta sobre matéria escolar a outro. Se este não soubesse a resposta certa, o perguntador tinha direito a dar uma reguada na mão do ignorante. Ele queria envolver-nos e integrar-nos no mundo de lobos em que a mente do desgraçado vivia. Usava, assim, uma espécie de pedagogia de torturador.

Um dia, um mau dia, calhou-me fazer a pergunta crucial a um companheiro de classe. Senti uma importância prepotente a subir ao cimo dos meus dez anos. Rebusquei a pergunta mais complicada que consegui construir. O desgraçado do colega não fazia a mínima ideia quanto à resposta. O professor proferiu o veredicto: dá-lhe uma reguada. Aquela desproporção de poder apoderou-se de mim e senti a luxúria do domínio sobre outro. Peguei na palmatória e atirei-lhe uma reguada com toda a força que tinha. O meu colega contorceu-se de dor e ficou com a mão inchada durante uma semana. Eu tinha ultrapassado o «Mestre». Senti um profundo mal estar e assustei-me com a minha bestialidade. Eu tinha mudado de campo de uma forma instantânea. E da volúpia sádica desci à vergonha, à mais profunda das vergonhas. Ainda hoje sinto essa cicatriz nas minhas lembranças de infância. Por ter aprendido cedo demais a facilidade com que de pisado se passa a canalha, o frasquinho com o antídoto para o veneno do domínio nunca saiu do meu bolso. 
 
 
(Originalmente publicado no blogue Água Lisa)

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