Setembro 2009


persistencia-de-la-memoria-salvador-dali

1. É já clássica a classificação do historiador Maurice Halbwachs que, opondo memória individual e memória colectiva, define esta última como uma memória normativa, simbólica e fora do tempo.
Em primeiro lugar porque o comum mecanismo de lembrar/esquecer se constitui neste caso como eixo vital de permissão discursiva, de verdade social e de controlo informativo. Ela conta uma história-ficção censurada de acordo com determinados pressupostos ideológicos e políticos, e visa essencialmente preservar a tradição e a estabilidade, cimentar a coesão das sociedades e, no limite, promover a legitimação do poder político.
Neutralizando as contradições históricas e os conflitos sociais, a memória colectiva selecciona no passado o que é considerado importante para o indivíduo ou para a colectividade e organiza e orienta esse material segundo um sistema de valores inquestionáveis.
Daí a segunda característica: simbólica, porque os acontecimentos escolhidos são idealizados, quando não mesmo sacralizados, e os valores e referências sobrepõem-se à procura da verdade do acontecido. Ligando directamente o passado e o presente aponta-se uma visão de futuro… que neutraliza e pulveriza os tempos históricos, confiscando o seu potencial.
Daí a terceira característica: fora do tempo. A memória institucionalizada aprisiona as especificidades emocionais e reduz a complexidade das experiências pessoais, estabelecendo um deslocamento temporal no vivido, como se fosse recoberta por uma dimensão vazia de tempo. Há, pois, um fenómeno de desnaturalização que fixa e reduz o sentido da memória como algo retido ou suspenso no tempo. 

Pelo contrário, a memória individual, na sua assumida subjectividade, alheia às grandes linhas interpretativas e integradoras da memória colectiva, obedece sobretudo à necessidade vital de preservar e transmitir experiências plurais e únicas, projectando luz sobre a diversidade e a complexidade daquilo que tantas vezes nos é mostrado como uma sucessão de factos de um sentido interpretativo único e inquestionável.
Neste caso o comum mecanismo de lembrar/esquecer alimenta uma corrente subterrânea necessária à sobrevivência de diferentes grupos e indivíduos e à reestruturação de identidades, de intencionalidades e valores que não sendo dominantes, são contudo indispensáveis para o que Walter Benjamin pede à história: que «ofereça uma fisionomia às datas».
Assim, mais do que um relato objectivo e factual, a memória individual é um poderoso filão simbólico e compreensivo para diferentes grupos e indivíduos, configurando-se como um reservatório de práticas sociais e políticas mobilizadoras e marca identitária de uma sociedade em busca constante de referências e de projectos. 

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GEPDESP

Reunimos. Éramos uma vintena de professores – uns mais velhos, como o Tiago de Oliveira, outros, gente muita nova, de vinte e poucos anos, como o Paulo Varela Gomes. Apertávamo-nos por trás de uma mesa e sentados em sofás, numa sala obscura do «Sindicato» do Ensino particular, situado a meio da Conde Redondo, em Lisboa. Eram poucos os colegas de quem não sabíamos o nome. Entrevíamo-los para além de uma barreira de fumo que ameaçava ir, mais tarde, fazer das suas. Hoje, sabemos de muitos companheiros desses «caminhos de memória» que se passaram para outra dimensão. Adiante, não interessa. Pertencíamos quase todos aos Grupos de Estudo do pessoal docente do ensino secundário e preparatório – uma estrutura nacional nascida poucos anos antes e que adquirira uma crescente ligação aos professores, de norte a sul do País. (*) 

À tarde, seguiu-se a noite e, após uma animada ceia no bas-fond da prostituição – num restaurante por baixo – entrámos pela madrugada dentro: opiniões em catadupa. Este sugere, aquele exige, o outro recusa, pressa muita pressa, e – sobretudo – uma vontade transbordante de aproveitar a situação para pôr os pontos nos ii em matéria de ensino, dos direitos profissionais e do funcionamento das escolas públicas. Queríamos conseguir rapidamente um sindicato nacional de professores que exprimisse a nossa voz.
Reunião, novamente, em dia seguinte, com mais gente – já em representação de um número significativo de escolas. Fecha-se a fase de preparação: redige-se um stencil que alguém «policopiaria» e que, horas depois, seguiria para os professores e para a Comunicação Social. Às duas da manhã, estava aprovado por unanimidade o primeiro comunicado que deveria chegar aos estabelecimentos de ensino de Lisboa, de todos os graus de ensino, oficial e particular. Histórico:

«A Comissão Coordenadora do Grupo de Estudo do Pessoal Docente do Ensino Secundário e Preparatório de Lisboa, em reunião com professores de escolas do ensino secundário, preparatório, primário e infantil, de Lisboa e concelhos limítrofes, considerando:
1º – que é abusiva e despropositada a atitude assumida por alguns directores de escolas do Ciclo Preparatório de Lisboa de apoio à recondução do professor Veiga Simão no Governo Provisório;
2º – que a existência de um ministro do antigo regime neste Governo Provisório poderá dar imagem pública de uma Junta de Salvação Nacional hipotecada a ideias e personalidades do regime derrubado;
3º – que, à luz da nova situação criada pelo 25 de Abril, se torna urgente discutir e encontrar colectivamente a solução para os graves problemas que afectam o professorado
Convoca a classe para uma Reunião Geral de Professores, no dia 2 de Maio, às 21.30 h, em local que será oportunamente divulgado através dos órgãos de informação.»  

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Juan José Millas - O Mundo

Juan José Millás não teve sorte com as dores de infância, elas foram muitas. Mero acaso pois nenhuma criança escolhe, incluindo as dores. As escolhas ficam sempre para a idade adulta, sobretudo a de banalizar a memória, tentando viver sem ela, ou preferir entender que todos os trajectos começam ali, na infância, onde estão todos os enigmas e todas as chaves para nos entendermos. Uma lucidez acerada e um invulgar talento de escrita podem, ainda, fazer o que Juan José Millás conseguiu no seu romance O Mundo (*): a revisitação da infância, no seu tempo e lugar, como quem vai ao cinema e está tudo ali, projectado, em movimento. E perceber-se que, na vida vivida, a infância está sempre a espetar-nos. Tudo dependendo da memória e da coragem de a ela se «descer». 

Quando há alguns meses atrás foi editada a versão portuguesa de O Mundo, folheado e comprado o livro, desconfiei que tinha ali um fascínio literário à minha disposição. Decidi guardá-lo para o ler mais tarde, em relax favorável a não perder pitada dos sabores. Fiz bem, sobretudo porque é inevitável a tentação de se fazerem viagens paralelas quando se acompanha um escritor em viagem de vida. No caso, com a ajuda particular de eu e o escritor termos vivido semelhanças dos tempos de crescimento, na mesma pequenez e na mesma asfixia, confirmando as enormes semelhanças entre as castrações operadas pelo franquismo e pelo salazarismo. E, visto por este ângulo, está ainda por avaliar quanto as décadas das noites ibéricas marcaram as infâncias portuguesa e espanhola, directa e indirectamente através de pais tristes. 

Livro lúcido e saboroso, uma autêntica viagem ao fazer-se humano, O Mundo tem um brinde – a figura de «Vitaminas», um dos personagens que vai ficar, arrisco, como um clássico da literatura. Impossível pedir-se mais a um livro da melhor literatura, hispânica mas tão perto. 

(*) – O Mundo, Juan José Millás, Editora Planeta

 
(Publicado no blogue Agua Lisa)

A 16 de Outubro de 1975, um grupo de cinco jornalistas ao serviço de duas televisões australianos foi morto por tropas indonésias em Balibó, Timor-Leste.
Adelino Gomes foi uma das últimas pessoas a vê-los com vida e explica os factos em entrevista ao Expresso – vídeo aqui.

Brasil - Exposição «Direito à Memória»  

  Instituto de Antropologia, Coimbra
  15 – 30 de Setembro de 2009

Vasco Pulido Valente

Ainda não desapareceu totalmente a desconfiança perante uma História assumidamente narrativa que dominou a historiografia portuguesa entre os finais da Segunda Grande Guerra e os inícios dos anos oitenta. Por isso, e apesar desta tendência ter vindo a recuar no contexto de uma prática recente mais assumidamente polifónica, a obra de Vasco Pulido Valente permanece entre os da sua geração como um caso raro de opção por aquele modelo. Foi todavia esta preferência que lhe permitiu transformar-se num raro caso de mérito académico associado a aptidão para uma abertura, sem preconceitos, a um público alargado e não-especialista de amantes da História. A Pulido Valente se deve, por isso, a disponibilização a um arco alargado de leitores – sem concessões de maior ao rigor e de um modo simultaneamente atraente e romanesco – de uma abordagem crítica dos últimos dois séculos de vida dos portugueses e de alguns dos seus principais intérpretes. O que não significa uma obra historiográfica metodologicamente incontroversa, por vezes vinculada a interpretações francamente polémicas.

Portugal – Ensaios de História e de Política é uma colectânea de artigos dispersos, publicados entre 1983 e 2006 em revistas e jornais, que confirma esta tendência, disponibilizando um conjunto de viagens literárias através das quais podemos tomar contacto com momentos e ambientes nucleares para um reconhecimento do nosso trajecto comum nestes últimos dois séculos. Sobressaem três estudos mais extensos: um sobre as vicissitudes do liberalismo português no período que antecedeu a Regeneração, um outro sobre as circunstâncias, as voltas e os desvios da «República Velha», desde 1910 até ascensão meteórica mas fugaz de Sidónio Pais, e um terceiro, já antes parcialmente publicado em livro, sobre a vida e o trajecto político de Marcello Caetano. Os restantes textos têm um carácter mais avulso, atravessando a biografia e a autobiografia. Em todos eles, um lugar destacado atribuído a personalidades reconhecidamente nucleares do século XX português: Afonso Costa, Sidónio, Salazar, Marcello, Spínola e Cunhal. Apenas Mário Soares – que surge recorrentemente em artigos e crónicas do autor de um modo tão fugaz quanto Hitchcock nos seus filmes – permanece aqui numa imerecida penumbra.

Como comum marca de água, o tom por vezes irónico, outras vezes quase impiedoso, reconhecido no autor também da sua actividade como cronista, que pode suscitar de imediato a contradição, ou desagradar aos resistentes adeptos de uma história supostamente «neutra», mas que sugere sempre interpretações incapazes de nos deixarem indiferentes. O artigo sobre o «25 de Abril», divulgado aquando do trigésimo aniversário da revolução, e provocatoriamente provido de aspas, é disso claro exemplo. A História que Vasco Pulido Valente nos vai oferecendo não deixa ninguém indiferente.

Vasco Pulido Valente, Portugal – Ensaios de História e de Política. Alêtheia Editores, 336 págs. [Publicado originalmente na revista LER de Julho-Agosto]

mosteiro odivelas

 
Um texto de Jorge Martins (*)

 
Ventura Isabel Dique de Sousa, freira bernarda do Mosteiro de Odivelas, nascida no Rio de Janeiro em 1688, enviada para Lisboa em 1705, noviça em 1706 e freira em 1709, saiu no auto-de-fé de 9/7/1713, na sequência da denúncia de judaísmo feita, em 1712, contra seu pai, João Dique de Sousa, abastado senhor de engenho no Brasil, que teve onze filhos de três mulheres e enviara as filhas para um convento. Foi assim que aquela infeliz freira de Odivelas se encontrou naquele Mosteiro com uma considerável lista de familiares: a própria mãe, três meias-irmãs, uma tia, três primas e uma tia-avó. No referido auto-de-fé desfilariam dois meios-irmãos da freira, que seriam condenados a cárcere e hábito perpétuo, enquanto seu pai persistia na negação da sua condição cristã-nova, o que lhe custaria sair «relaxado em carne» no auto-de-fé do ano seguinte, em que foi queimado vivo. Um outro meio-irmão de D. Ventura seria também condenado, no auto-de-fé de 1716, a cárcere e hábito perpétuo. 

A família Dique de Sousa tinha, efectivamente, raízes judaicas no Brasil. D. Ventura entraria nos cárceres dos Estaus em 26/6/1713, para ser rapidamente interrogada, de forma a poder sair em auto-de-fé menos de duas semanas depois, em que abjurou suas «culpas» de judaísmo e foi condenada a perpétua clausura no Mosteiro, onde tanto gostava de estar. Nomeou-se confessor para a devolver a Odivelas, mas a execução da sentença não foi tarefa fácil, visto que as quatrocentas freiras a rejeitaram por «impura». O Santo Ofício não gostou da recusa e tentou reconduzi-la ao mosteiro, mas encontrou todas as suas portas e janelas ostensivamente encerradas, tendo que regressar ao Palácio dos Estaus (sede da Inquisição) sem sequer ter conseguido falar com a Madre, pois as freiras fizeram tal gritaria que inviabilizaram qualquer negociação. 

Numa derradeira tentativa, a própria abadessa reuniu as freiras e pediu-lhes que aceitassem D. Ventura. Perante a persistente recusa, a abadessa insistiu e as freiras caíram sobre ela e maltrataram-na. O caso subiu ao Inquisidor Geral, D. Nuno da Cunha Ataíde e ao rei D. João V, que declinou o seu envolvimento directo. Face à insistência da Inquisição em impor o regresso de D. Ventura, a insubordinação das freiras subiu de tom, decidindo-se a sair do mosteiro em manifestação, em ar de desafio, para exigir «justiça» ao rei. Desfilaram 134 freiras em direcção a Lisboa, de imponente cruz levantada à sua frente. No caminho, 5 KM adiante, a condessa do Rio convidou-as a entrar no seu palácio, na tentativa, sem sucesso, de as fazer desistir da inqualificável afronta à sua Ordem, ao Santo Ofício e ao próprio rei. Este, no intuito de calar a chacota que já grassava na capital e se preparava para receber tão insólita manifestação freirática, enviou a Cavalaria para as fazer regressar ao mosteiro, evitando maior falatório à triunfante recepção lisboeta das inesperadas manifestantes, mas as intolerantes freiras barricaram-se no palácio durante dois dias e receberam a milícia à pedrada. 

Forçadas as portas, os sargentos entraram, manietaram e arrastaram as freiras para os coches reais que as transportariam de volta a Odivelas. Vencidas mas não convencidas, as freiras ameaçaram matar D. Ventura se as obrigassem a recebê-la no seu convívio conventual. As insubordinadas correligionárias de Madre Paula – célebre amante de D. João V – haviam perdido uma batalha, mas acabariam por ganhar a guerra da histérica intolerância. Com efeito, a freirinha recolheria à clausura no Convento de São Bento, em Évora, perdendo-se-lhe o rasto. Terminavam desta sorte as desventuras de D. Ventura, perante a intransigência antijudaica das menos rigorosas atitudes noutras matérias, por parte das freiras do Mosteiro de Odivelas. Na verdade, demonstrariam menor rigor moral perante as célebres investidas reais e senhoriais dos garbosos cortesãos, que acalmavam os seus libidinosas impulsos entre aquelas que agora se prestavam à rejeição duma arrependida judaizante, no «harém bastantemente turco de Odivelas», como lhe chamava o escritor Camilo castelo Branco.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

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