telefone antigo

Toda a resistência tem episódios que o tempo acaba por revelar terem roçado o inacreditável, mesmo o impossível, às vezes até o caricato. E que, com a distanciação do tempo, acabam por nos fazer sorrir. Como diria o meu amigo Helder Costa, são alguns episódios do «saudoso tempo do fascismo». Não conheço muitos destes momentos, mas fui protagonista de um ou outro e sei de outros. Proponho-me contar alguns deles, com pequenas alterações para evitar o reconhecimento de moradas e de pessoas, sempre que se justifique. 

Nos idos dos anos sessenta, a zona da Av. de Roma e Avenidas Novas era o local preferido pela malta estudante, quer para morar, quer para as tertúlias de café. Todos nos recordamos do Vává, do Nova Iorque, da Suprema, da Trevi, do Tic-Tac, do Branco e Negro e do Londres. Havia mais, mas não eram frequentados pela «malta». O Londres era o café preferido pelo pessoal do chamado «reviralho»: burguesia liberal (doutores e engenheiros) e alguns militares na reserva. Alguns de nós, estudantes, também por lá parávamos. Estudava-se de tarde, a tertúlia ficava para a noite. No Londres havia um funcionário só para o salão de bilhares, que era na cave. Este funcionário tinha três particularidades, porque um mal nunca vem só: andava como se sofresse de uma blenorragia permanente, usava os óculos na ponta do nariz e tinha um tom de voz nasalado. Volta e meia, anunciava pela instalação sonora as delícias à disposição dos jogadores e demais clientes. Com uma voz fanhosa apregoava: «Já provou os pastéis de bacalhau do salão de bilhares? Então prove!» Mas tinha ainda uma outra função, mais nobre, a de chamar ao telefone os clientes para quem havia uma chamada. 

Num certo dia de 1961, ano em que, a 21 de Janeiro, se dá o assalto ao Santa Maria, alguém foi à cabine telefónica que havia à entrada, logo a seguir à porta giratória, ligou para o café e pediu para chamarem ao telefone o senhor capitão Henrique Galvão. O nosso bom homem assim fez. Quando se ouve pela instalação sonora «Chamam ao telefone do salão de bilhares o senhor capitão Henrique Galvão», o espanto acompanhado de silêncio, foi total. Logo seguido de uma imensa e gargalhada.

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