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Reunimos. Éramos uma vintena de professores – uns mais velhos, como o Tiago de Oliveira, outros, gente muita nova, de vinte e poucos anos, como o Paulo Varela Gomes. Apertávamo-nos por trás de uma mesa e sentados em sofás, numa sala obscura do «Sindicato» do Ensino particular, situado a meio da Conde Redondo, em Lisboa. Eram poucos os colegas de quem não sabíamos o nome. Entrevíamo-los para além de uma barreira de fumo que ameaçava ir, mais tarde, fazer das suas. Hoje, sabemos de muitos companheiros desses «caminhos de memória» que se passaram para outra dimensão. Adiante, não interessa. Pertencíamos quase todos aos Grupos de Estudo do pessoal docente do ensino secundário e preparatório – uma estrutura nacional nascida poucos anos antes e que adquirira uma crescente ligação aos professores, de norte a sul do País. (*) 

À tarde, seguiu-se a noite e, após uma animada ceia no bas-fond da prostituição – num restaurante por baixo – entrámos pela madrugada dentro: opiniões em catadupa. Este sugere, aquele exige, o outro recusa, pressa muita pressa, e – sobretudo – uma vontade transbordante de aproveitar a situação para pôr os pontos nos ii em matéria de ensino, dos direitos profissionais e do funcionamento das escolas públicas. Queríamos conseguir rapidamente um sindicato nacional de professores que exprimisse a nossa voz.
Reunião, novamente, em dia seguinte, com mais gente – já em representação de um número significativo de escolas. Fecha-se a fase de preparação: redige-se um stencil que alguém «policopiaria» e que, horas depois, seguiria para os professores e para a Comunicação Social. Às duas da manhã, estava aprovado por unanimidade o primeiro comunicado que deveria chegar aos estabelecimentos de ensino de Lisboa, de todos os graus de ensino, oficial e particular. Histórico:

«A Comissão Coordenadora do Grupo de Estudo do Pessoal Docente do Ensino Secundário e Preparatório de Lisboa, em reunião com professores de escolas do ensino secundário, preparatório, primário e infantil, de Lisboa e concelhos limítrofes, considerando:
1º – que é abusiva e despropositada a atitude assumida por alguns directores de escolas do Ciclo Preparatório de Lisboa de apoio à recondução do professor Veiga Simão no Governo Provisório;
2º – que a existência de um ministro do antigo regime neste Governo Provisório poderá dar imagem pública de uma Junta de Salvação Nacional hipotecada a ideias e personalidades do regime derrubado;
3º – que, à luz da nova situação criada pelo 25 de Abril, se torna urgente discutir e encontrar colectivamente a solução para os graves problemas que afectam o professorado
Convoca a classe para uma Reunião Geral de Professores, no dia 2 de Maio, às 21.30 h, em local que será oportunamente divulgado através dos órgãos de informação.»  

A primeira Assembleia Geral plenária de docentes de Lisboa ficara, deste modo, programada e iria ser imediatamente agendada para a Escola Preparatória Manuel da Maia. O ginásio comportaria, à vontade, uns duzentos professores. («Será tanta gente, assim?» – alguns duvidavam). Descansámos. Ninguém pensou em mais nada.
Agora, o urgente, urgente, era começar a promover a eleição de delegados em todas as escolas, escolher uma mesa para dirigir os trabalhos, redigir uma moção e alinhavar nomes para uma proposta de Comissão Instaladora do Sindicato a levar à Assembleia. Entretanto, ir à Junta de Salvação Nacional pedir uma sede. Por esses dias do fim de Abril, a avalanche das tarefas que quase nos submergia não nos dava tempo para o sono. Chocávamos uns com os outros e com as questões inadiáveis: os nossos minutos enchiam-se de Revolução.

A 2 de Maio, o inesperado. Pelas 9 horas da noite, grande confusão no Bairro de Campo de Ourique. Os professores agitavam-se inquietos na rua, junto à Escola Manuel da Maia – «Calma, colega, calma» clamava-se. A procura de solução por parte dos mais experientes não chegou para responder com celeridade à situação. Choviam os protestos e já havia acusações. A determinação e a impaciência dos docentes de Lisboa caiu nos braços da Comissão Coordenadora dos Grupos de Estudo: de repente, não eram as esperadas duas centenas. Eram milhares e milhares, a quererem participar, ansiosos por correrem com os directores e por sanearem o Ministério. Querendo resolver o problema dos eventuais, querendo remodelar os estágios e abolir com urgência o exame de estado. Cada grupo, cada escola tinha as suas prioridades na ponta da língua. Tive a sensação de que, a partir do desaire dessa noite, daquele nosso erro de cálculo, nós seriamos vistos ou como os salvadores ou como os responsáveis pelos problemas sentidos pela classe.

A reunião começou, finalmente, (bastante tarde) no Pavilhão dos Desportos. O espaço enchera e transbordava.
Aprovou-se um telegrama para a JSN (de saudação e apoio ao MFA, e manifestando toda a disponibilidade para a colaboração na construção da Democracia). Aprovou-se a constituição de uma Comissão Instaladora do sindicato (**), com a vigência de apenas um mês, até à realização de eleições.
Encerrámos a assembleia num ambiente de euforia, sob uma chuva de aplausos e gritos que vinham de todos os lados. Era a Revolução, pois claro.

 
(*) O movimento sindical dos professores não surgiu espontaneamente a 25 de Abril. Apesar da extinção pelo fascismo de todas as organizações sindicais e associativas dos docentes, houve sempre movimentações e, na fase final do regime, a partir de 1969/70, destacou-se a actividade desenvolvida pelos Grupos de Estudo. Com reuniões periódicas (realizadas com a cumplicidade mais ou menos activa de meia dúzia de directores), começaram por se organizar em torno da reivindicação de contratos mínimos de 12 meses para os chamados “professores eventuais” (a maioria), atribuindo-se a designação: Grupos de Estudo dos Professores Eventuais e Provisórios. Porém, rapidamente alargaram a sua acção, promovendo a mobilização da classe na luta pela “revalorização da função docente”, por um “estatuto profissional” e por uma “associação de professores” com carácter sindical, o que contribuiu para a adesão de “professores do quadro”. Tomaram, então, o nome: Grupos de Estudo do Pessoal Docente do Ensino Secundário e Preparatório. Na chegada à Revolução, os Grupos de Estudo tinham, objectivamente, um historial de resistência, haviam obtido algumas conquistas para a classe docente e, temiam diariamente pelo seu silenciamento. Testemunho real disto é o despacho 9/74, com que o Ministério de Veiga Simão pretendeu liquidar este Movimento: “As actividades em causa prendem-se, claramente, com a actividade profissional dos professores, que vêm emitindo os resultados das reflexões feitas no seio desses grupos sobre temas de ordem pedagógica, de política educativa e, também, de administração sectorial (mormente os respeitantes à situação dos professores enquanto funcionários do Estado” Fotografia da resistência docente é o abaixo-assinado (que guardamos) da resposta a esse despacho, dirigido ao ministro por 1517 professores, em Fevereiro de 1974, reafirmando a sua determinação em prosseguir a reflexão crítica em que estavam envolvidos e a sua vontade de ver publicada a legislação “permissiva da reorganização da vida associativa dos professores”. Arriscando o afastamento compulsivo da Função pública.

(**) Constituição da Comissão Instaladora aprovada no Pavilhão dos Desportos: Lindley Cintra, António Abreu, Tiago de Oliveira, Vítor Faria e Silva e Manuel Gusmão (Ensino Superior); António Teodoro, Fátima Rodrigues, Helena Pato, A. Sousa Santos e Adelaide Carvalho (E. Secundário e Preparatório); Manuel Balbino, Catarina Carapinha, Domingos Torgal, Henrique Belezo e Regina Sousa (E. Primário); Pedro Onofre, Maria João Avilez, Orquídea Quartim, Rui Passos e Flândia Roxo (Ensino Particular).

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