rapariga maconde

 
Um texto de José Pedro Barreto (*)
 
 
A rapariguinha olhou para mim, com aqueles dois olhos fantásticos. Apontei-lhe instintivamente a máquina fotográfica. Então, ela não tirou os olhos de mim. Mas levantou as mãos lentamente e torceu-as num gesto de timidez. E ali ficou, à espera que eu lhe tirasse o retrato.

Isto foi em 1973, num sítio do norte de Moçambique chamado Nambude. Estava-se em guerra por ali, era uma entre várias crianças e adultos que erravam por aqueles matos fora.

Não sou o Steve McCurry, nem esta rapariguinha maconde é a jovem afegã que ele fotografou em 1984, de um espantoso olhar verde, e da qual foi em busca passados vinte anos. Mas de vez em quando não deixo de me interrogar: 36 anos depois, o que será feito desta miúda?

Possivelmente, já morreu – a vida não era fácil naquelas paragens, nem geralmente longa. Ou será uma velha mirrada, tatuada, com o lábio superior perfurado, gasta na «machamba» de milho e mandioca e pelo parto de vários filhos. Não, a vida não era fácil por ali, e deve continuar a não o ser.

Nunca ela soube nem saberá que esta foto me acompanha desde então e que tenho por ela um apreço especial, por toda a doçura que há nela. Pergunto-me o que será feito da rapariga, sim. Mas na verdade não iria querer saber a resposta. Quem, ou o que será agora a miúda que em 1973 olhou para mim assim, já não tem nada a ver com a foto que daí resultou. Provavelmente, até já nem é capaz daquele olhar doce. Seja o que, ou quem for, não é a mesma. Nem eu.

 
(Publicado originalmente no blogue Janelas)

(*) Biografia de José Pedro Barreto

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