Mário Pinto de Andrade - Muralha da China 
 
(Primeira, segunda e terceira parte deste texto.)  

 
Pinto de Andrade troca Paris por Conacry, a primeira base africana: «Para nós, Conacry era uma estância provisória. O que queríamos era aproximar-nos do interior. Com a independência do Congo, começámos a criar novas células. Estávamos em atraso em relação à UPA, que era originária da etnia Bakongo, com clientela política nos meios da emigração em Kinshasa. E Holden Roberto tinha apoio dos dirigentes, nomeadamente de Patrice Lumumba, cujo primeiro reflexo foi apoiar a UPA e excluir o MPLA. Circulava nessa altura uma teoria, defendida por Franz Fanon, de que a UPA recrutava no meio camponês, enquanto que o MPLA era um grupo de intelectuais mestiços. Tínhamos que ultrapassar esses preconceitos para nos podermos enraizar no Congo.»

Lara é o mensageiro para reforçar o MPLA no interior: «Neto já estava em Angola e foi em torno dele que a resistência se organizou. Havia várias organizações e entendemos que a unidade interna devia ser em torno do MPLA e de Agostinho Neto, mas este foi detido em Junho de 60 e, depois dele, o meu irmão, o sacerdote Joaquim Pinto de Andrade.»

Um pouco antes, em Maio, tinham dirigido um memorando a Salazar, propondo a abertura de conversações sobre a situação das colónias: «Estávamos numa época de outorga de independências por meios pacíficos e, para iniciar a luta armada, precisávamos de responsabilizar o inimigo e provar que a contradição com Portugal se situava no campo da luta armada. Foi por isso que redigimos esse memorando ao Presidente do Conselho, a Salazar, em carta registada, para o Palácio de S. Bento. E ali dizia-se simplesmente, no essencial, que sabíamos que Portugal estava a preparar uma guerra preventiva, e que o único modo para evitar esse confronto, que se podia transformar numa autêntica guerra, era reunirmos uma mesa-redonda com os diferentes partidos políticos, para discutir o acesso à autodeterminação e independência. O memorando foi assinado pelo então Presidente do MPLA – eu próprio – Viriato da Cruz e Lúcio Lara e não recebeu resposta do nosso destinatário. Mas recebeu um comentário no jornal Novidades, que pertencia à família salazarista e católica, que o rejeitava, dizendo que nem mesa-redonda nem quadrada para discutir o indiscutível, o que não tem discussão, que era a independência.»

A ideia da luta armada já se agitava no grupo desde os anos 50. Em 59 tinham tido mesmo uma proposta de formação de elementos, de quadros para a luta armada: «Isso passou-se em Roma, na Páscoa romana, creio que em Abril, à margem do 2º Congresso de Escritores e Artistas Negros. Nessa altura já não era secretário de Alioune Diop, mas estive nesse Congresso, com Viriato da Cruz, Lúcio Lara e Marcelino dos Santos. Como conhecia bem Franz Fanon, com já tinha estado em Paris quando do 1º Congresso, servi de intermediário numa reunião que solicitou com os africanos das colónias portuguesas. E reunimo-nos num café, clandestinamente. Fanon era um homem perseguido pela Polícia, tinha sido vítima de uma tentativa de assassinato, mas era já um responsável do GPLA, Governo Provisório da Argélia Livre, um conselheiro político escutado. Defendeu a tese de divisão do imperialismo: a Argélia lutava contra o imperialismo francês, era necessário atacar outro imperialismo da família NATO, para dividir a força da NATO. Então propunha que aqueles grupos, aqueles actores dirigentes – que ainda não eram reconhecidos como tal – aqueles nacionalistas, envidassem esforços para desencadear, simultaneamente, a luta armada em Angola e Moçambique.»

O projecto era temerário, mas a discussão desenvolveu-se e decidiram que podiam responder afirmativamente ao convite de Fanon, para que 11 quadros angolanos fossem fazer a sua preparação militar na Tunísia ou na Argélia, onde o ALN, Exército de Libertação Nacional, tinha as suas bases: «Então decidimos enviar um emissário, Amílcar Cabral, que continuava a fazer missões como engenheiro agrónomo em Angola, para que recrutasse esses 11 elementos. Teve essa missão em Agosto de 59 – foi surpreendido entretanto pelo massacre de Pidjiquiti – e não pôde realizar o objectivo porque a repressão, que se tinha desenvolvido em Angola desde 56, atingiu grandes proporções nesse ano de 59, com muitas prisões, e os militantes e responsáveis das células clandestinas sugeriram-lhe que saísse o mais depressa posível, para não ser ele próprio preso.»

Sem terem logrado recrutar os onze elementos para satisfazer a proposta de Fanon, em 1960, em Conacry, continuam a aprofundar a ideia da luta armada: «Com o memorando rejeitado, tínhamos já a justificação internacional, era a nossa cobertura – divulgámo-lo internacionalmente – e estava claro, também pela repressão desencadeada nos nossos países, que não havia nenhuma solução no interior da problemática posta pelo colonialismo. Não havia nenhuma via legal capaz de solucionar a contradição entre colonizados e colonizadores. Mas como realizar essa opção pela luta armada? Tínhamos que ter ajuda externa. A ONU fazia parte dos nossos projectos. Mas ainda não se levava à ONU a questão da luta armada. Em 1960 houve uma Assembleia Geral muito importante em que se votou a célebre resolução 15.14, mas que foi ultrapassada pelos acontecimentos, porque obrigava cada potência administrante a levar o país à independência. E a nossa opção de luta armada é contra a potência administrante. Já não considerávamos Portugal potência administrante, capaz de dirigir seja o que for. A nossa opção era encontrar os meios externos para a formação militar e política dos nosos quadros e a utilização de bases externas nos países limítrofes, Congo, Guiné, mais tarde a Tanzânia e depois a Zâmbia.»

Em Conacry procuram as embaixadas dos países socialistas. As mais importantes sendo as da URSS e da China, contactaram ambas. Ouvidas as partes, PAI e MPLA, a Embaixada chinesa sugeriu que as suas pretensões fossem levadas a Pequim:
«Organizou-se uma viagem. Do MPLA foram o Eduardo dos Santos e o Viriato da Cruz. O Amílcar Cabral dirigia a delegação, com alguns jovens quadros que seriam os primeiros a ser formados política e militarmente em Pequim. A ajuda concreta foi a formação militar de responsáveis dirigentes. Tivemos as primeiras lições com os membros da Academia Militar de Pequim sobre luta armada, sobre guerrilha, além das discussões políticas e, depois, a ajuda financeira substancial para o momento e as necessidades.»

Já depois da viagem à China, Amílcar Cabral propõe uma acção de propaganda: dar uma conferência no centro da Europa, com impacto internacional. E sugere que os dirigentes da FRAIN se desloquem a Londres: «Infelizmente ele não pode deslocar-se, pelos contactos que tinha com a base e o interior da Guiné-Bissau e sugeriu que fosse substituído por outro camarada que entretanto tinha deixado Bissau, Aristides Pereira. (…) Do lado de Angola, Viriato da Cruz, eu e Américo Boavida. Por essa altura vivia em Londres um goês, João Cabral, que tinha contactos com membros da Casa dos Comuns, com deputados trabalhistas, nomeadamente com alguns anti-colonialistas conhecidos e foi ele que organizou o nosso convite e a nossa conferência.»

«Nos nossos documentos políticos a conferência surge como ‘Conferência na Câmara dos Comuns’», esclarece Mário, sorrindo, «mas é preciso introduzir esta precisão: ‘Conferência numa das salas da Câmara dos Comuns’, é evidente. Nessa conferência fizemos uma Declaração extremamente importante – de cuja leitura fui responsável, na qualidade de presidente do MPLA – a de que, face à obstrução de Portugal em acatar as disposições da ONU e a preparação de guerra preventiva – acusávamos sempre Portugal da preparação de uma guerra preventiva, enquanto nós nos preparávamos para uma luta de libertação nacional, são dois conceitos diferentes, só restava aos nacionalistas o recurso à acção directa. A ‘acção directa’, não dizíamos a luta armada, mas o simples facto de dizer ‘acção directa’ no augusto templo da democracia já era uma ousadia. E dissemos mais: que no interior dos nossos países, o que era o reflexo da pura verdade, reclamavam meios para defesa da guerra preventiva que estava em preparação.»

Foto: Mário Pinto de Andrade, Sambene Ousmane e dois companheiros chineses na Grande Muralha da China, Pequim, Out1958.
(Fundação Mário Soares)

(Continua aqui)

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