Joaquim Pinto de Andrade
 
(A primeira parte deste texto pode ser lida aqui.)

 
Na viagem para Lisboa, Mário tem a companhia do irmão Joaquim e do futuro cardeal Alexandre Nascimento. A saída das Ingobotas – «mais precisamente do Quilómetro 5» – para um jovem que apenas fizera algumas curtas viagens em Angola, foi «uma separação penosa, difícil, um primeiro desenraizamento»: «Encontrei o Outono, quase já princípio de Inverno, as folhas mortas no Cais de Alcântara, foi extremamente difícil, mas essa dificuldade foi atenuada por saber que ia viver numa pensão – perto de Santo Amaro, contígua à estação dos eléctricos – onde estavam já dois angolanos que me tinham precedido nessa aventura, um colega de escola, Licínio de Assis, filho do dicionarista e antigo jornalista António de Assis Júnior, e Humberto Alves Machado.» 

Poucos dias depois, «creio que na própria semana em que cheguei a Lisboa»,  Humberto Machado, estudante de Agronomia, apresentou-lhes um colega chamado Amílcar Cabral: «Lembro-me, naturalmente, tão importante foi esse encontro, do dia exacto em que lhe apertei a mão pela primeira vez, a esse homem que foi a personalidade mais influente na minha geração. Foi na rua Luís de Camões, subindo a R. Luís de Camões ao encontro da Tapada da Ajuda, do Instituto Superior de Agronomia, que encontrei pela primeira vez Amílcar Cabral. Um homem elegante, disponível, que me considerou imediatamente como mais um elemento, mais uma unidade no grupo que depois haveríamos de formar.» 

Seguiram-se o moçambicano Marcelino dos Santos e Agostinho Neto, «que eu conhecia mal em Angola, e que, vindo de Coimbra, veio também alojar-se nessa pensão de Santo Amaro.» 

Segue-se, nesta lista de nomes que entrarão para a História, Francisco José Tenreiro, um pouco mais velho, nessa altura a estagiar com o geógrafo Orlando Ribeiro. «E depois a família Espírito Santo, no 37 da rua Actor Vale, e muitos outros, o Américo Boavida, o Diógenes Boavida, etc.» 

O número de africanos em Lisboa foi-se alargando, e foram-se constituindo novas organizações:
«Nessa altura havia pólos de congregação. O primeiro pólo para nós, estudantes,  era a Casa de Estudantes do Império, pelas facilidades de ordem social e recreativa que permitia. Mas, como africanos, organizámo-nos para lá da CEI. Começámos por ter conhecimento da Casa da África Portuguesa, dominada por um proto-nacionalista, Artur de Castro, e que estava na continuidade das várias associações que existiam em Lisboa, desde a Junta de Defesa dos Direitos de África, Liga Africana, Partido Nacional Africano, o Grémio dos Africanos… A Casa da África Portuguesa é uma organização que sucede ao Grémio dos Africanos, de 1929, é criada em 1944 e, em 49/50, pretendemos, alguns de nós, criar uma organização de reactivação, reorganizadora, da Casa de África. Não fomos bem sucedidos, porque a direcção era – para falar em termos actuais – reaccionária ou, pelo menos, conservadora e não estava disponível para aceder a uma presença e a uma infiltração de sangue novo. Sobretudo uma infiltração que, na interpretação de Artur de Castro, podia ser comunizante.» 

Face à resistência da direcção de Artur de Castro, essa comissão composta essencialmente por jovens decidiu procurar outras vias de se afirmar como grupo: «Alguns de nós já tínhamos concebido um plano – subscrito pelo Francisco José Tenreiro e por mim –  que era o plano do Centro de Estudos Africanos, que deveria funcionar na Casa da África Portuguesa. Devo dizer, sem falsa modéstia, que o essencial do plano foi pensado pelo Francisco José Tenreiro. Dei a minha contribuição, mas o Tenreiro era já um homem que já não era hóspede em certas disciplinas científicas, como a Antropologia e a Sociologia, sem falar da Geografia. No meu caso, que era um estudante de Filologia Clássica, posso dizer que fui um discípulo de Francisco José Tenreiro nessas matérias e isso foi importante para a concepção do plano de estudos do Centro de Estudos Africanos.» 

Começa pela criação de um grupo cultural que se materializava essencialmente por uma série de conferências realizadas na casa da família Espírito Santo, de que Alda do Espírito Santo era uma das hóspedes: «Foi nessa casa, no 37 de rua Actor Vale, que esse grupo se organizou e realizou conscientemente esse programa de palestras.»

Cada um dos participantes tomava um tema a desenvolver – podia ser a Linguística, a Geografia, a História – para apresentação aos restantes numa espécie de seminário em torno do tema: «Essa foi uma primeira forma de consciencialização cultural, com dimensão política, porque a contribuição de cada um não se limitava a uma exposição de tipo académico, mas congregava outros elementos de tomada de consciência contra o assimilacionismo e, evidentemente, de defesa do colonizado. E colonizado aqui é, evidentemente, o conjunto da população explorada.»

Poder-se-lhes ia opor que tudo se passava, afinal, entre aqueles a quem os portugueses consideravam assimilados…

Pinto de Andrade rejeita a palavra: «Entre intelectuais. Não nos considerávamos assimilados. Éramos contra o assimilacionismo. Era um termo que não utilizávamos.» E acrescenta: «Também tinhamos ‘proletariado’. Esse ‘proletariado’ – entre aspas – eram os embarcadiços. Os marítimos, trabalhadores das companhias desse tempo, a Colonial e a Nacional de Navegação.» Esses embarcadiços – que viviam, em geral, no Bairro da Graça, tinham-se organizado no Clube Marítimo, e os intelectuais, os estudantes universitários, actuavam como professores, mestres políticos desse grupo de embarcadiços: «Esse era outro pólo de congregação dos africanos. Um intelectual, outro proletário, o Clube Marítimo, passando, evidentemente, pela Casa de Estudantes como elemento de contacto geral.»

Ao princípio, as actividades do Centro de Estudos africanos não despertam atenção especial nas autoridades portuguesas, ironiza Mário Pinto de Andrade:
«As actividades no 37 da rua Actor Vale tinham um ar de família. Primeiro, porque se passava numa família conhecida, a família Espírito Santo. E todos os pretos eram família, não é? E era ao Domingo, ao Domingo à tarde. Estava camuflado por reuniões de pretos em família.»

Seriam os acontecimentos de 1953, em S. Tomé, a modificar esse estado de coisas:
«Quando se operou a resistência dos santomenses às medidas do governador Carlos Gorgulho, sobre o trabalho obrigatório dos nativos, aí sim. Houve uma revolta, conhecida, que se materializou no massacre de 3 de Fevereiro, dos primeiros dias de Fevereiro de 1953, e os elementos da família Espírito Santo foram presos e houve aí uma pausa nas nossas actividades. Foi então que, retrospectivamente, a polícia fez a relação entre as reuniões de Domingo, culturais, e a resistência dos santomenses em Fevereiro de 1953.»

A Censura existente em Portugal ditara a inviabilidade de um outro projecto, o da publicação das conferências levadas a cabo no CEA. O que não os impediu de, na menos rebarbativa vertente literária, editarem, em 1954, o Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa: «Foi a primeira antologia – magra antologia, de 16 páginas, mas era o que nos era possível fazer nesse tempo – com um prefácio da minha autoria e uma nota final do Francisco José Tenreiro e que publica alguns poemas pela primeira vez – o Monagamba, de António Jacinto, poemas de Agostinho Neto, de Noémia de Sousa, da Alda do Espírito Santo, do próprio Francisco José Tenreiro, de Viriato da Cruz. Era a primeira afirmação literária da negritude em língua portuguesa e, na sequência até do massacre de S. Tomé, tinha um conteúdo de revolta contra a violência de que tinha sido vítima a população santomense.»

Atentos à necessidade de aumentar o seu conhecimento sobre a África natal, os estudantes africanos mantinham também contacto com a Oposição portuguesa:
«O perfil do estudante africano progressista nesse tempo passava por uma participação no MUD Juvenil. Em todas as academias havia actividades e secções do MUD Juvenil. Não fomos todos – mas, no geral, fomos militantes do MUD Juvenil. Eu próprio tinha os meus controladores – alguns deles foram membros ilustres do Partido Comunista Português, como o Aboim Inglês, por exemplo, para falar de um colega da Faculdade de Letras.»

Para lá do MUD Juvenil e através do Francisco José Tenreiro, Mário Pinto de Andrade relaciona-se com diversos intelectuais portugueses: «Como sabe, nesse tempo, a actividade política passava-se também muito em cafés – além, claro, da actividade clandestina, distribuição de panfletos pela paz, etc. – os homens situavam-se politicamente em relação aos cafés. Eu frequentava um café pelo fim da manhã, o Café Chave de Ouro, onde algumas figuras intelectuais de esquerda tomavam a sua bica, homens como Jorge de Sena, Castro Soromenho, Adolfo Casais Monteiro…»

Os contactos de Mário com «figuras gradas das letras portuguesas» dão-se «sob a sombra protectora de Francisco José Tenreiro»:
«Mas com alguns tive relações pessoais e até de amizade profunda, como é o caso de Castro Soromenho, pelas afinidades angolanas e pelo posicionamento cultural, literário e político desse escritor. E o outro café era o Café Cister, perto da Faculdade de Ciências, que ainda existe, onde me encontrava sobretudo com colegas da Faculdade de Letras, como o Orlando da Costa, e outros estudantes habitantes na área, como Vieira de Almeida (filho do professor Vieira de Almeida), ou Lúcio Lara, que era estudante na Faculdade de Ciências. Como vê, o mundo dos africanos não era um mundo fechado, estanque. Longe de nós, evidentemente, a prática do racismo! Sendo nós vítimas do próprio racismo, estávamos até em melhores condições de nos exprimirmos e de agirmos como humanistas.»

Se diversos progressistas africanos militavam no MUD Juvenil, já entre os oposicionistas portugueses não era clara a posição em relação à independência das colónias:
«Nessa altura, anos 50, não estava nada clara – de maneira nenhuma – a ideia da independência das colónias portuguesas. Não só o Partido Comunista Português, mas também o Partido Comunista Francês, partidos das potências coloniais, pensavam que era necessário concentrar os esforços na luta anti-fascista e que o fim do fascismo era naturalmente a porta da independência das colónias. Quer dizer, um Portugal livre do fascismo outorgaria a independência às colónias.»

Visão essa que os estudantes das colónias estavam longe de partilhar:
«De modo nenhum. De modo nenhum. Se alguns continuaram a ser membros do MUD Juvenil, e mesmo em direcções de organizações portuguesas – caso do próprio Agostinho Neto – era para defender que a independência das colónias devia ser obra dos colonizados. (…) Pessoalmente, decidi, por volta de 1953, deixar de me consagrar às actividades de difusão de panfletos do MUD Juvenil, continuando a ser leitor da sua produção ideológica e até mesmo da produção comunista, do Avante, e consagrar-me à minha formação como africano, em ligação com os outros africanos no Mundo, nomeadamente os colonizados pela França. Cortei as ligações institucionais com o MUD Juvenil, não as relações pessoais. Mas a divergência era clara: as energias, a atenção e as minhas capacidades de ordem intelectual, cultural e política deviam ser dirigidas para esse fim. Também dentro do Centro de Estudos Africanos começara já a germinar a ideia de organizações políticas, organizações clandestinas. Devo dizer que já em 1952, quando Amílcar Cabral voltou para a Guiné-Bissau, era portador de um plano de criação de organizações na Guiné-Bissau, de organizações africanas. E quando a Alda do Espírito Santo voltou a S. Tomé – no fim de 52, foi surpreendida logo pelo massacre de 53 – era também portadora de um plano para suscitar organizações em S. Tomé, organizações locais. Os africanos já tinham criado formas autónomas de pensamento e de acção.»

Na formação política de Pinto de Andrade, como de outros dos seus companheiros das colónias portuguesas, destaca-se a influência da revista Présence Africaine:
«A livraria Bucholtz recebia, com frequência, livros do exterior. E por cumplicidade com uma das proprietárias desse tempo, eu recebia com frequência e quase clandestinamente – não pelas vias normais – a Présence Africaine e outras publicações dos africanos. Foi assim que recebi os primeiros números da revista, criada em 1947, e eu próprio estabeleci correspondência com Alioune Diop desde 1950. Assim se explica que, em 1951, tenhamos enviado uma contribuição colectiva para um número especial da Présence Africaine, “Les étudiants noirs parlent”. Entre esses estudantes negros falavam os das colónias portuguesas. Os artigos não estavam assinados, obviamente, era uma contribuição colectiva, mas podemos identificar as contribuições de Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Francisco José Tenreiro, Alda do Espírito Santo, a minha própria contribuição, sobre a situação dos estudantes, sobre o problema do ensino nas colónias portuguesas. E foi a primeira denúncia que fizemos da nossa situação de colonizados por Portugal. Além desse contacto, recebemos também, e isso é importante, a antologia determinante na nossa formação pela Literatura, o livro determinante, a Antologia da Poesia Negra e Malgache de Langue Française, de Léopold Sédar Senghor, prefaciada por Jean Paul Sartre. O célebre Orfeu Negro chegou-nos por essa altura. E foi assim que nos chegou a negritude.»

Através da Antologia, a negritude, um movimento dos anos 30, chega no princípio dos anos 50 aos estudantes oriundos das colónias portuguesas:
«Circulou no nosso meio e pode ver-se através dos poemas que se publicam então, do próprio Francisco José Tenreiro, Meu coração em África, dos poemas do Agostinho Neto, a influência da leitura dessa Antologia.»

Marcantes também, para esses jovens intelectuais, os avanços de ordem social e cultural registados nas biografias desses autores: «Quando se abria a Antologia e se via que Aimé Césaire era deputado da Martinica e tinha passado pela Escola Normal Superior, que Senghor era professor na Escola France d’Outremer, Alioune Diop era senador, etc., é evidente que nos comparávamos, que víamos como os negros dessas colónias francesas estavam em avanço, do ponto de vista cultural e político, na defesa das reivindicações dos colonizados. Portanto, teve um grande impacto, não só do ponto de vista literário e cultural, mas também do ponto de vista político.»

Foto: Joaquim Pinto de Andrade, Monte Estoril, Out1951.
(Fundação Mário Soares)

(Continua aqui)

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