Setembro 2009


O quadro foi retirado de um trabalho de António Teodoro, publicado em 1977. Apresenta as taxas de analfabetismo em 1970, por distritos, da população residente em Portugal, com 14 ou mais anos. Dele ressalta que 49,8% da população portuguesa, com 14 ou mais anos, não possuía nem frequentava o ensino primário elementar. Um importante dado da situação da Educação em Portugal anterior ao 25 de Abril, que vemos frequentemente esquecido em análises e reflexões do presente.

DISTRITOS

POPULAÇÃO RESIDENTE

POPULAÇÃO RESIDENTE COM 14 ANOS OU MAIS (Estimativa)

INDIVÍDUOS DE 14 ANOS OU MAIS SEM POSSUÍREM NEM FREQUENTAREM O ENSINO PRIMÁRIO

(%)

TOTAL

8 611 125

6 372 232

49,8

AVEIRO

545 230

403 470

46,9

BEJA

204 440

151 285

66,6

BRAGA

609 415

450 967

46,0

BRAGANÇA

180 395

133 492

54,6

C. BRANCO

254 355

188 222

61,4

COIMBRA

399 390

295 541

58,5

ÉVORA

178 475

132 071

63,3

FARO

268 240

198 497

63,1

GUARDA

210 720

155 932

59,8

LEIRIA

376 940

278 935

58,8

LISBOA

1 568 020

1 160 334

37,2

Cidade

760 150

562 511

31,0

PORTALEGRE

145 545

107 703

66,2

PORTO

1 309 560

969 074

40,3

Cidade

301 655

223 225

28,8

SANTARÉM

427 995

316 716

59,4

SETÚBAL

469 555

347 470

48,9

V. DO CASTELO

250 510

185 377

58,8

VILA REAL

265 605

196 547

52,8

VISEU

410 795

303 908

58,3

ANGRA DO H.

85 650

63 381

51,4

HORTA

40 600

30 044

51,5

P. DELGADA

158 765

117 486

51,6

FUNCHAL

251 135

185 840

53,4

«Apesar de o Instituto Nacional de Estatística não ter ainda divulgado os resultados definitivos do 11º Recenseamento da População efectuado em 1970, pode-se contudo apresentar uma aproximação estatística (…), sobre a situação actual do analfabetismo no nosso país. 1.789 360 (28,1%) declararam não saber ler nem escrever.»

António Teodoro, Sobre as qualificações escolares e profissionais dos trabalhadores portugueses, em Cadernos Seara Nova, 1977.

spínola 28 setembro

Há trinta e cinco anos, o país estava agitadíssimo. Desde as primeiras horas da manhã, dezenas de grupos de militantes paravam e revistavam carros de quem, hipoteticamente, se dirigia a Lisboa para a chamada Manifestação da Maioria Silenciosa – uma iniciativa de apoio ao general Spínola, convocada dias antes por cartazes que invadiram a cidade.

Os sinais públicos de ruptura crescente entre o presidente da República e o governo de Vasco Gonçalves e o MFA tinham sido mais do que evidentes, dois dias antes, durante uma tourada organizada pela Liga dos Combatentes no Campo Pequeno, durante a qual Spínola foi aplaudido e Vasco Gonçalves apupado.

A Manifestação do dia 28 não chegou a realizar-se porque o COPCON prendeu na véspera cerca de setenta pessoas suspeitas de estarem ligadas à iniciativa e pelas actividades populares acima referidas. E Spínola acabou por pedir a demissão em 30 de Setembro, tendo sido substituído na presidência da República por Costa Gomes.

Num vídeo da RTP (minutos 33:29 a 44:06), que aconselho vivamente, percebe-se bem o contexto e vêm-se – ou revêem-se – todos os acontecimentos acima referidos.

P.S. – Uma nota de carácter pessoal. Quando, na tarde de 28 de Setembro, tentava entrar em Lisboa, fui parada algures na avenida da Índia por uma das tais barricadas. Mas escapei à inspecção minuciosa do meu carro porque alguém do grupo me reconheceu – obrigada, Helena Pato

telefone antigo

Toda a resistência tem episódios que o tempo acaba por revelar terem roçado o inacreditável, mesmo o impossível, às vezes até o caricato. E que, com a distanciação do tempo, acabam por nos fazer sorrir. Como diria o meu amigo Helder Costa, são alguns episódios do «saudoso tempo do fascismo». Não conheço muitos destes momentos, mas fui protagonista de um ou outro e sei de outros. Proponho-me contar alguns deles, com pequenas alterações para evitar o reconhecimento de moradas e de pessoas, sempre que se justifique. 

Nos idos dos anos sessenta, a zona da Av. de Roma e Avenidas Novas era o local preferido pela malta estudante, quer para morar, quer para as tertúlias de café. Todos nos recordamos do Vává, do Nova Iorque, da Suprema, da Trevi, do Tic-Tac, do Branco e Negro e do Londres. Havia mais, mas não eram frequentados pela «malta». O Londres era o café preferido pelo pessoal do chamado «reviralho»: burguesia liberal (doutores e engenheiros) e alguns militares na reserva. Alguns de nós, estudantes, também por lá parávamos. Estudava-se de tarde, a tertúlia ficava para a noite. No Londres havia um funcionário só para o salão de bilhares, que era na cave. Este funcionário tinha três particularidades, porque um mal nunca vem só: andava como se sofresse de uma blenorragia permanente, usava os óculos na ponta do nariz e tinha um tom de voz nasalado. Volta e meia, anunciava pela instalação sonora as delícias à disposição dos jogadores e demais clientes. Com uma voz fanhosa apregoava: «Já provou os pastéis de bacalhau do salão de bilhares? Então prove!» Mas tinha ainda uma outra função, mais nobre, a de chamar ao telefone os clientes para quem havia uma chamada. 

Num certo dia de 1961, ano em que, a 21 de Janeiro, se dá o assalto ao Santa Maria, alguém foi à cabine telefónica que havia à entrada, logo a seguir à porta giratória, ligou para o café e pediu para chamarem ao telefone o senhor capitão Henrique Galvão. O nosso bom homem assim fez. Quando se ouve pela instalação sonora «Chamam ao telefone do salão de bilhares o senhor capitão Henrique Galvão», o espanto acompanhado de silêncio, foi total. Logo seguido de uma imensa e gargalhada.

Eleições 1975

 
Resultados (% e nº de deputados):

PS                   37,87%        116
PPD                 26,39%          81
PCP                 12,46%          30
CDS                   7,61%           16
MDP                  4,14%             5
UDP                  0,79%             1
ADIM (*)        0,03%             1

      

(*)  Associação de Defesa dos Interesses de Macau

Zeca80

O núcleo do Norte da «Associação José Afonso» divulgou um Manifesto sobre um projecto que, entre 2 de Agosto de 2009 e 1 de Agosto de 2010, «terá música, palavras, imagens , e o que mais vier ao nível da expressão artística, sempre com o objectivo focado na figura e obra do “poeta, andarilho e cantor”».
Existe também um blogue.

regulamento ascensores 

(Clicar aqui para ler.) 

Muito comum nos prédios que tinham elevadores, nos anos 50 e 60. 

«Quando não haja monta-cargas adequado ao transporte simultâneo de volumes e pessoas, será facultado o uso do ascensor aos serviçais que se dirijam a qualquer pavimento acima do segundo e desde que se apresentem decentemente vestidos…» 

(Contributo de Helena Vasconcelos Cabral)

las fosas de franco 

Emilio Silva Barrera é presidente da Asociación para la Recuperación de la Memoria Histórica e foi um dos seus fundadores. Há cerca de nove anos, encontrou as ossadas do avô, militante da Izquierda Republicana, assassinado pelos falangistas em 1936. 

Conheci-o em Coimbra, há poucos dias, por ocasião de um colóquio organizado pelo CES. Expôs então muito do que sabemos pela leitura da imprensa espanhola, mas que toma outra consistência quando relatado por um protagonista activo numa verdadeira epopeia que se passa bem perto de nós: os espanhóis estão a desenterrar os seus antepassados – pais, agora já quase sempre avós -, no meio de controvérsias e dificuldades sem fim. Num verdadeiro drama, não só para os familiares directamente envolvidos como para as actuais populações dos locais afectados. 

Neste livro, o autor conta-nos detalhadamente a sua história pessoal: os esforços para localizar o corpo do avô, a descoberta de uma fossa onde este se encontrava com mais doze republicanos – num cruzamento de estradas, debaixo de uma nogueira -, mil e uma peripécias para que fossem desenterrados e identificados. (Para se ter uma ideia da dimensão das dificuldades encontradas na identificação dos cadáveres, registe-se que, só na província de Léon, estavam então abertos cerca de 12.000 processos, individuais ou colectivos.)

São também descritas todas as acções que levaram à criação da Associação a que agora preside, a sua expansão em Espanha, a internacionalização da causa, os apoios que envolveram a própria ONU, os campos de trabalho com dezenas de voluntários que se organizaram para a concretização das tarefas – numa «grande fossa chamada Espanha». 

Toda esta problemática deve ser enquadrada no complexo processo da Transição espanhola para a democracia – «transición inconclusa» -, muito bem resumido no último capítulo do livro. Depois de alguns passos tímidos nos primeiros anos, e de um reforço de esperança em 1979 quando os partidos de esquerda tomaram pela primeira vez conta de muitas autarquias, o medo e o espectro da Guerra Civil regressaram a toda a Espanha com o ataque de Antonio Tejero ao Congresso, em Fevereiro de 1981. E foi preciso esperar por 2002 para que o referido Congresso condenasse expressamente o franquismo – por unanimidade, no dia 20 de Novembro, no 27º aniversário da morte do ditador.

Desde então, muito caminho foi percorrido e são conhecidos os episódios mais recentes e as polémicas provocadas pela intervenção do juiz Balthazar Garzón e alguns outros. A Espanha cuida dos seus mortos e procura ouvir as últimas testemunhas vivas – que têm o direito de sairem do esquecimento e de encontrarem o seu lugar na memória colectiva. 

Emilio Siva, Las fosas de Franco, Crónica de un desagravio, Temas de hoy, 2005, seg. ed., 208 pág.

persistencia-de-la-memoria-salvador-dali

1. É já clássica a classificação do historiador Maurice Halbwachs que, opondo memória individual e memória colectiva, define esta última como uma memória normativa, simbólica e fora do tempo.
Em primeiro lugar porque o comum mecanismo de lembrar/esquecer se constitui neste caso como eixo vital de permissão discursiva, de verdade social e de controlo informativo. Ela conta uma história-ficção censurada de acordo com determinados pressupostos ideológicos e políticos, e visa essencialmente preservar a tradição e a estabilidade, cimentar a coesão das sociedades e, no limite, promover a legitimação do poder político.
Neutralizando as contradições históricas e os conflitos sociais, a memória colectiva selecciona no passado o que é considerado importante para o indivíduo ou para a colectividade e organiza e orienta esse material segundo um sistema de valores inquestionáveis.
Daí a segunda característica: simbólica, porque os acontecimentos escolhidos são idealizados, quando não mesmo sacralizados, e os valores e referências sobrepõem-se à procura da verdade do acontecido. Ligando directamente o passado e o presente aponta-se uma visão de futuro… que neutraliza e pulveriza os tempos históricos, confiscando o seu potencial.
Daí a terceira característica: fora do tempo. A memória institucionalizada aprisiona as especificidades emocionais e reduz a complexidade das experiências pessoais, estabelecendo um deslocamento temporal no vivido, como se fosse recoberta por uma dimensão vazia de tempo. Há, pois, um fenómeno de desnaturalização que fixa e reduz o sentido da memória como algo retido ou suspenso no tempo. 

Pelo contrário, a memória individual, na sua assumida subjectividade, alheia às grandes linhas interpretativas e integradoras da memória colectiva, obedece sobretudo à necessidade vital de preservar e transmitir experiências plurais e únicas, projectando luz sobre a diversidade e a complexidade daquilo que tantas vezes nos é mostrado como uma sucessão de factos de um sentido interpretativo único e inquestionável.
Neste caso o comum mecanismo de lembrar/esquecer alimenta uma corrente subterrânea necessária à sobrevivência de diferentes grupos e indivíduos e à reestruturação de identidades, de intencionalidades e valores que não sendo dominantes, são contudo indispensáveis para o que Walter Benjamin pede à história: que «ofereça uma fisionomia às datas».
Assim, mais do que um relato objectivo e factual, a memória individual é um poderoso filão simbólico e compreensivo para diferentes grupos e indivíduos, configurando-se como um reservatório de práticas sociais e políticas mobilizadoras e marca identitária de uma sociedade em busca constante de referências e de projectos. 

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GEPDESP

Reunimos. Éramos uma vintena de professores – uns mais velhos, como o Tiago de Oliveira, outros, gente muita nova, de vinte e poucos anos, como o Paulo Varela Gomes. Apertávamo-nos por trás de uma mesa e sentados em sofás, numa sala obscura do «Sindicato» do Ensino particular, situado a meio da Conde Redondo, em Lisboa. Eram poucos os colegas de quem não sabíamos o nome. Entrevíamo-los para além de uma barreira de fumo que ameaçava ir, mais tarde, fazer das suas. Hoje, sabemos de muitos companheiros desses «caminhos de memória» que se passaram para outra dimensão. Adiante, não interessa. Pertencíamos quase todos aos Grupos de Estudo do pessoal docente do ensino secundário e preparatório – uma estrutura nacional nascida poucos anos antes e que adquirira uma crescente ligação aos professores, de norte a sul do País. (*) 

À tarde, seguiu-se a noite e, após uma animada ceia no bas-fond da prostituição – num restaurante por baixo – entrámos pela madrugada dentro: opiniões em catadupa. Este sugere, aquele exige, o outro recusa, pressa muita pressa, e – sobretudo – uma vontade transbordante de aproveitar a situação para pôr os pontos nos ii em matéria de ensino, dos direitos profissionais e do funcionamento das escolas públicas. Queríamos conseguir rapidamente um sindicato nacional de professores que exprimisse a nossa voz.
Reunião, novamente, em dia seguinte, com mais gente – já em representação de um número significativo de escolas. Fecha-se a fase de preparação: redige-se um stencil que alguém «policopiaria» e que, horas depois, seguiria para os professores e para a Comunicação Social. Às duas da manhã, estava aprovado por unanimidade o primeiro comunicado que deveria chegar aos estabelecimentos de ensino de Lisboa, de todos os graus de ensino, oficial e particular. Histórico:

«A Comissão Coordenadora do Grupo de Estudo do Pessoal Docente do Ensino Secundário e Preparatório de Lisboa, em reunião com professores de escolas do ensino secundário, preparatório, primário e infantil, de Lisboa e concelhos limítrofes, considerando:
1º – que é abusiva e despropositada a atitude assumida por alguns directores de escolas do Ciclo Preparatório de Lisboa de apoio à recondução do professor Veiga Simão no Governo Provisório;
2º – que a existência de um ministro do antigo regime neste Governo Provisório poderá dar imagem pública de uma Junta de Salvação Nacional hipotecada a ideias e personalidades do regime derrubado;
3º – que, à luz da nova situação criada pelo 25 de Abril, se torna urgente discutir e encontrar colectivamente a solução para os graves problemas que afectam o professorado
Convoca a classe para uma Reunião Geral de Professores, no dia 2 de Maio, às 21.30 h, em local que será oportunamente divulgado através dos órgãos de informação.»  

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Juan José Millas - O Mundo

Juan José Millás não teve sorte com as dores de infância, elas foram muitas. Mero acaso pois nenhuma criança escolhe, incluindo as dores. As escolhas ficam sempre para a idade adulta, sobretudo a de banalizar a memória, tentando viver sem ela, ou preferir entender que todos os trajectos começam ali, na infância, onde estão todos os enigmas e todas as chaves para nos entendermos. Uma lucidez acerada e um invulgar talento de escrita podem, ainda, fazer o que Juan José Millás conseguiu no seu romance O Mundo (*): a revisitação da infância, no seu tempo e lugar, como quem vai ao cinema e está tudo ali, projectado, em movimento. E perceber-se que, na vida vivida, a infância está sempre a espetar-nos. Tudo dependendo da memória e da coragem de a ela se «descer». 

Quando há alguns meses atrás foi editada a versão portuguesa de O Mundo, folheado e comprado o livro, desconfiei que tinha ali um fascínio literário à minha disposição. Decidi guardá-lo para o ler mais tarde, em relax favorável a não perder pitada dos sabores. Fiz bem, sobretudo porque é inevitável a tentação de se fazerem viagens paralelas quando se acompanha um escritor em viagem de vida. No caso, com a ajuda particular de eu e o escritor termos vivido semelhanças dos tempos de crescimento, na mesma pequenez e na mesma asfixia, confirmando as enormes semelhanças entre as castrações operadas pelo franquismo e pelo salazarismo. E, visto por este ângulo, está ainda por avaliar quanto as décadas das noites ibéricas marcaram as infâncias portuguesa e espanhola, directa e indirectamente através de pais tristes. 

Livro lúcido e saboroso, uma autêntica viagem ao fazer-se humano, O Mundo tem um brinde – a figura de «Vitaminas», um dos personagens que vai ficar, arrisco, como um clássico da literatura. Impossível pedir-se mais a um livro da melhor literatura, hispânica mas tão perto. 

(*) – O Mundo, Juan José Millás, Editora Planeta

 
(Publicado no blogue Agua Lisa)

A 16 de Outubro de 1975, um grupo de cinco jornalistas ao serviço de duas televisões australianos foi morto por tropas indonésias em Balibó, Timor-Leste.
Adelino Gomes foi uma das últimas pessoas a vê-los com vida e explica os factos em entrevista ao Expresso – vídeo aqui.

Brasil - Exposição «Direito à Memória»  

  Instituto de Antropologia, Coimbra
  15 – 30 de Setembro de 2009

Vasco Pulido Valente

Ainda não desapareceu totalmente a desconfiança perante uma História assumidamente narrativa que dominou a historiografia portuguesa entre os finais da Segunda Grande Guerra e os inícios dos anos oitenta. Por isso, e apesar desta tendência ter vindo a recuar no contexto de uma prática recente mais assumidamente polifónica, a obra de Vasco Pulido Valente permanece entre os da sua geração como um caso raro de opção por aquele modelo. Foi todavia esta preferência que lhe permitiu transformar-se num raro caso de mérito académico associado a aptidão para uma abertura, sem preconceitos, a um público alargado e não-especialista de amantes da História. A Pulido Valente se deve, por isso, a disponibilização a um arco alargado de leitores – sem concessões de maior ao rigor e de um modo simultaneamente atraente e romanesco – de uma abordagem crítica dos últimos dois séculos de vida dos portugueses e de alguns dos seus principais intérpretes. O que não significa uma obra historiográfica metodologicamente incontroversa, por vezes vinculada a interpretações francamente polémicas.

Portugal – Ensaios de História e de Política é uma colectânea de artigos dispersos, publicados entre 1983 e 2006 em revistas e jornais, que confirma esta tendência, disponibilizando um conjunto de viagens literárias através das quais podemos tomar contacto com momentos e ambientes nucleares para um reconhecimento do nosso trajecto comum nestes últimos dois séculos. Sobressaem três estudos mais extensos: um sobre as vicissitudes do liberalismo português no período que antecedeu a Regeneração, um outro sobre as circunstâncias, as voltas e os desvios da «República Velha», desde 1910 até ascensão meteórica mas fugaz de Sidónio Pais, e um terceiro, já antes parcialmente publicado em livro, sobre a vida e o trajecto político de Marcello Caetano. Os restantes textos têm um carácter mais avulso, atravessando a biografia e a autobiografia. Em todos eles, um lugar destacado atribuído a personalidades reconhecidamente nucleares do século XX português: Afonso Costa, Sidónio, Salazar, Marcello, Spínola e Cunhal. Apenas Mário Soares – que surge recorrentemente em artigos e crónicas do autor de um modo tão fugaz quanto Hitchcock nos seus filmes – permanece aqui numa imerecida penumbra.

Como comum marca de água, o tom por vezes irónico, outras vezes quase impiedoso, reconhecido no autor também da sua actividade como cronista, que pode suscitar de imediato a contradição, ou desagradar aos resistentes adeptos de uma história supostamente «neutra», mas que sugere sempre interpretações incapazes de nos deixarem indiferentes. O artigo sobre o «25 de Abril», divulgado aquando do trigésimo aniversário da revolução, e provocatoriamente provido de aspas, é disso claro exemplo. A História que Vasco Pulido Valente nos vai oferecendo não deixa ninguém indiferente.

Vasco Pulido Valente, Portugal – Ensaios de História e de Política. Alêtheia Editores, 336 págs. [Publicado originalmente na revista LER de Julho-Agosto]

mosteiro odivelas

 
Um texto de Jorge Martins (*)

 
Ventura Isabel Dique de Sousa, freira bernarda do Mosteiro de Odivelas, nascida no Rio de Janeiro em 1688, enviada para Lisboa em 1705, noviça em 1706 e freira em 1709, saiu no auto-de-fé de 9/7/1713, na sequência da denúncia de judaísmo feita, em 1712, contra seu pai, João Dique de Sousa, abastado senhor de engenho no Brasil, que teve onze filhos de três mulheres e enviara as filhas para um convento. Foi assim que aquela infeliz freira de Odivelas se encontrou naquele Mosteiro com uma considerável lista de familiares: a própria mãe, três meias-irmãs, uma tia, três primas e uma tia-avó. No referido auto-de-fé desfilariam dois meios-irmãos da freira, que seriam condenados a cárcere e hábito perpétuo, enquanto seu pai persistia na negação da sua condição cristã-nova, o que lhe custaria sair «relaxado em carne» no auto-de-fé do ano seguinte, em que foi queimado vivo. Um outro meio-irmão de D. Ventura seria também condenado, no auto-de-fé de 1716, a cárcere e hábito perpétuo. 

A família Dique de Sousa tinha, efectivamente, raízes judaicas no Brasil. D. Ventura entraria nos cárceres dos Estaus em 26/6/1713, para ser rapidamente interrogada, de forma a poder sair em auto-de-fé menos de duas semanas depois, em que abjurou suas «culpas» de judaísmo e foi condenada a perpétua clausura no Mosteiro, onde tanto gostava de estar. Nomeou-se confessor para a devolver a Odivelas, mas a execução da sentença não foi tarefa fácil, visto que as quatrocentas freiras a rejeitaram por «impura». O Santo Ofício não gostou da recusa e tentou reconduzi-la ao mosteiro, mas encontrou todas as suas portas e janelas ostensivamente encerradas, tendo que regressar ao Palácio dos Estaus (sede da Inquisição) sem sequer ter conseguido falar com a Madre, pois as freiras fizeram tal gritaria que inviabilizaram qualquer negociação. 

Numa derradeira tentativa, a própria abadessa reuniu as freiras e pediu-lhes que aceitassem D. Ventura. Perante a persistente recusa, a abadessa insistiu e as freiras caíram sobre ela e maltrataram-na. O caso subiu ao Inquisidor Geral, D. Nuno da Cunha Ataíde e ao rei D. João V, que declinou o seu envolvimento directo. Face à insistência da Inquisição em impor o regresso de D. Ventura, a insubordinação das freiras subiu de tom, decidindo-se a sair do mosteiro em manifestação, em ar de desafio, para exigir «justiça» ao rei. Desfilaram 134 freiras em direcção a Lisboa, de imponente cruz levantada à sua frente. No caminho, 5 KM adiante, a condessa do Rio convidou-as a entrar no seu palácio, na tentativa, sem sucesso, de as fazer desistir da inqualificável afronta à sua Ordem, ao Santo Ofício e ao próprio rei. Este, no intuito de calar a chacota que já grassava na capital e se preparava para receber tão insólita manifestação freirática, enviou a Cavalaria para as fazer regressar ao mosteiro, evitando maior falatório à triunfante recepção lisboeta das inesperadas manifestantes, mas as intolerantes freiras barricaram-se no palácio durante dois dias e receberam a milícia à pedrada. 

Forçadas as portas, os sargentos entraram, manietaram e arrastaram as freiras para os coches reais que as transportariam de volta a Odivelas. Vencidas mas não convencidas, as freiras ameaçaram matar D. Ventura se as obrigassem a recebê-la no seu convívio conventual. As insubordinadas correligionárias de Madre Paula – célebre amante de D. João V – haviam perdido uma batalha, mas acabariam por ganhar a guerra da histérica intolerância. Com efeito, a freirinha recolheria à clausura no Convento de São Bento, em Évora, perdendo-se-lhe o rasto. Terminavam desta sorte as desventuras de D. Ventura, perante a intransigência antijudaica das menos rigorosas atitudes noutras matérias, por parte das freiras do Mosteiro de Odivelas. Na verdade, demonstrariam menor rigor moral perante as célebres investidas reais e senhoriais dos garbosos cortesãos, que acalmavam os seus libidinosas impulsos entre aquelas que agora se prestavam à rejeição duma arrependida judaizante, no «harém bastantemente turco de Odivelas», como lhe chamava o escritor Camilo castelo Branco.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

rapariga maconde

 
Um texto de José Pedro Barreto (*)
 
 
A rapariguinha olhou para mim, com aqueles dois olhos fantásticos. Apontei-lhe instintivamente a máquina fotográfica. Então, ela não tirou os olhos de mim. Mas levantou as mãos lentamente e torceu-as num gesto de timidez. E ali ficou, à espera que eu lhe tirasse o retrato.

Isto foi em 1973, num sítio do norte de Moçambique chamado Nambude. Estava-se em guerra por ali, era uma entre várias crianças e adultos que erravam por aqueles matos fora.

Não sou o Steve McCurry, nem esta rapariguinha maconde é a jovem afegã que ele fotografou em 1984, de um espantoso olhar verde, e da qual foi em busca passados vinte anos. Mas de vez em quando não deixo de me interrogar: 36 anos depois, o que será feito desta miúda?

Possivelmente, já morreu – a vida não era fácil naquelas paragens, nem geralmente longa. Ou será uma velha mirrada, tatuada, com o lábio superior perfurado, gasta na «machamba» de milho e mandioca e pelo parto de vários filhos. Não, a vida não era fácil por ali, e deve continuar a não o ser.

Nunca ela soube nem saberá que esta foto me acompanha desde então e que tenho por ela um apreço especial, por toda a doçura que há nela. Pergunto-me o que será feito da rapariga, sim. Mas na verdade não iria querer saber a resposta. Quem, ou o que será agora a miúda que em 1973 olhou para mim assim, já não tem nada a ver com a foto que daí resultou. Provavelmente, até já nem é capaz daquele olhar doce. Seja o que, ou quem for, não é a mesma. Nem eu.

 
(Publicado originalmente no blogue Janelas)

(*) Biografia de José Pedro Barreto

Humberto Delgado 1958 Viseu

 
Um texto de José Augusto Rocha (*)

 
É em geral desconhecida a presença cívica e a actuação política da juventude democrática de Viseu, nos fins da década de cinquenta. Os historiadores, os sociólogos, e outros estudiosos – que se têm dedicado aos estudos dos movimentos da juventude – enfatizam, quase sempre, esses movimentos a partir dos anos 60, pelo que tem ficado no olvido da história o que lhe é anterior, por falta de informação e fontes de investigação.

Por ter vivido alguns acontecimentos dessa época e deles ter sido protagonista, aqui vai, para os «Caminhos da Memória», uma curta contribuição retirada e adaptada do texto das minhas memórias, em curso de escrita.

É uma realidade conhecida que o Estado Novo tentou orientar e fiscalizar a formação de toda a juventude num sentido ideológico monolítico. A intensificação dos investimentos oficiais na doutrinação dos jovens, verificou-se, sobretudo, através da criação da Mocidade Portuguesa, ocorrida por decreto de 18 de Maio de 1936.

Sem entrar em desenvolvimentos que esta minha contribuição não comporta, refira-se que o enquadramento institucional da juventude na Mocidade Portuguesa não surtiu os efeitos desejados e as medidas da sua redefinição, operadas pelo Decreto-Lei, de 12 de Novembro de 1966, da autoria do Ministro da Educação Nacional, Inocêncio Galvão Teles, não tiveram melhor sorte. E porque estamos a escrever sobre a memória da juventude democrática de Viseu dos anos cinquenta, tem actualidade observar que o colapso da orientação da juventude, no Estado Novo e segundo a tutela do pensamento oficial, acabou por ser reconhecido, à data, com mágoa, por dois políticos salazaristas de Viseu: Mário Figueiredo, que foi ministro da educação de Salazar e presidente da Assembleia Nacional (1) e Sales Loureiro, que foi deputado por Viseu (2). A juventude de Viseu, já nos anos de 50, confirma este divórcio e afirma a sua autonomia, como se verá.

Num curto registo biográfico, recordo que com formação cristã e católica de família, frequentei o Colégio de Lamego dos monges beneditinos no primeiro e segundo ano, corriam então os anos de 52/ 53. Chegado a Viseu, essa formação não resistiu à minha curiosidade e inquietação intelectual, substituindo-a por outros valores. Já no quinto ano do liceu tinha lido, praticamente, toda a obra de António Sérgio, nomeadamente, os oito volumes dos ensaios, e manifestava já interesse pela política.

A essa data, a juventude monárquica da cidade tinha uma certa actividade política e eu e outros estudantes do liceu resolvemos formar o auto dominado e inorgânico «núcleo republicano da juventude de Viseu», que lhes propôs contactos e debates na «Quinta de São Miguel», propriedade do monárquico, Álvaro Menezes, inaugurados com a reflexão sobre a revolução francesa e a presença de vários estudantes, entre eles, o então estudante do liceu, Vítor Aguiar e Silva, mais tarde Professor universitário, que viria a ser um nome incontornável na teoria da literatura portuguesa. No discurso que este proferiu, na recente homenagem que lhe foi prestada em Viseu e Penalva do Castelo, refere-se a este facto, dizendo que aí «…alimentava vagas conspirações monárquicas anti-salazaristas…» e que «(…) com o José Augusto Rocha discutia, às vezes acaloradamente, os filósofos do Iluminismo e os revolucionários de 1789 (…)», depois de imediatamente antes ter pedido para «(…) evocar, com saudade e como exemplo, a admirável polifonia de ideias, de ideais, da minha geração do 6º e do 7º anos liceais.» É ainda Vítor Aguiar e Silva que lembra o comício pela liberdade do povo húngaro contra a invasão dos tanques soviéticos e os discursos da varanda da Câmara Municipal de Viseu, onde «(…)falei eu e falou o José Augusto Rocha, o mais revolucionário, ao menos verbalmente, de todos nós.»

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O último discurso de Salvador Allende

 

Víctor Jara, Te recuerdo Amanda
Um hino de liberdade dos anos 70

No Público.es de hoje, um artigo de opinião, certamente discutível, sobre as características daquele período e suas consequências na Espanha de hoje – uma questão que parece longe de estar encerrada.

«Resultado de la manera como se hizo la Transición, existen dos versiones del pasado que se han promovido en los mayores medios de información de España. Una versión (la de derechas) todavía justifica hoy el golpe militar y la dictadura que implantó aludiendo que era necesaria para parar un mal mayor, el comunismo. La otra versión (más cercana al centro ideológico) niega la anterior, desmintiendo que existiera peligro de que en nuestro país se estableciera el comunismo. (…)
Considero tales versiones, incluyendo la segunda, profundamente erróneas. Creo que existe suficiente evidencia histórica para concluir que en caso de que hubieran ganado las fuerzas democráticas, derrocando el golpe militar (lo cual habría ocurrido de no contar el golpista Franco con la ayuda de Hitler y Mussolini), tendríamos una España muy distinta. También la tendríamos distinta si la Transición, en lugar de ser resultado del pacto entre el Estado franquista, por un lado, y las izquierdas (que acababan de salir de la cárcel o del exilio), por el otro, hubiera sido consecuencia de una ruptura con el régimen anterior, determinada por movilizaciones generalizadas que hubieran forzado al rey a dejar el país, estableciéndose un sistema republicano que se hubiera considerado, asimismo, heredero de la Segunda República. En ambos casos, la España actual sería hoy muy diferente, mucho más democrática, con unas izquierdas más poderosas y con mayor sensibilidad social.»

Lápide em Cambedo da Raia

 
Um texto de Paula Godinho (*)

 
No comovente filme de António Loja Neves e José Manuel Alves O Silêncio, enrolado em si mesmo, numa posição quase fetal, um homem desfia um sofrimento longo, a partir dum acontecimento que viveu com 16 anos e que lhe mudou a vida, tornando-lhe os sonhos improváveis. Trata-se de Arlindo Espírito Santo, que viu grande parte da sua família ser presa em Dezembro de 1946, na aldeia de Cambedo da Raia, no concelho de Chaves, encostada à Galiza. Ali decorreu um episódio sangrento e tardio, ainda em resultado do golpe franquista em 18 de Julho de 1936.

A Frente Popular vencera as eleições de Fevereiro de 1936 em três das quatro províncias galegas. Os sindicatos anarquistas e o sindicalismo agrário comunista desfrutavam de grande importância. Mesmo assim, um levantamento de militares na Galiza apoiaria o golpe, em 20 de Julho. Antigos alcaides, dirigentes políticos, sindicalistas e professores foram fuzilados sob a acusação de rebelião, ou levados para o paseo de que não retornariam, logo após os primeiros dias do Alzamiento, tendo a repressão um peso que só nos últimos anos pode ser avaliado. Os ajustes de contas que se seguiram à sublevação franquista tinham um acrescido laivo de perversão, ao fazerem-se entre conhecidos, já que frequentemente a vítima e o carrasco integravam sectores de uma mesma rede social. A fuga intensificou-se com o desencadear de combates e a consequente ocupação de povoações por parte dos nacionalistas, visando escapar à repressão, às represálias, e à mobilização obrigatória para o exército franquista.

As aldeias da raia portuguesa constituíram desde 1936 uma possibilidade para os perseguidos, que por aí permaneceram ou partiram para paragens mais longínquas. A fronteira mostrou então ser uma margem de convivência e solidariedade, permitindo a diferença entre a vida e a morte, apesar da conivência dos fascismos ibéricos. Para sobreviver, os fuxidos trabalhavam na agricultura, nas minas de volfrâmio ou no contrabando. Destruídas as trajectórias de vida, ficavam à espera dum momento de busca do direito à vida e à palavra neste espaço fronteiriço, durante meses, anos ou ciclos inteiros da existência, no contexto complicado da guerra e do êxodo. Na eminência vitoriosa do final da guerra, os «nacionais» vão reforçar e ampliar a repressão, o controlo e a vigilância nos sítios onde mais fuxidos se sabia existirem. São criadas as Columnas de Control, constituídas por guardas civis, soldados de infantaria e membros das milícias falangistas, a que se juntarão membros do Tercio e dos regulares.

Alguns fugitivos tornam-se guerrilheiros e a organização política une-os, fundando-se em 1942 a Federação de Guerrilhas de Galiza-Leão (FGGL). A actividade dos maquis pauta-se por frequentes incursões no país vizinho, em acções precisas contra alvos seleccionados, conjugada com tarefas produtivas que garantiam a sobrevivência. No caso galego, a resistência contra a ditadura através da guerrilha exercia represálias contra os elementos do regime, as forças do Estado central e os caciques, principalmente contra aqueles que haviam tido papel de destaque nos paseos de 1936, incluindo representantes da Igreja católica. A repressão envolveria o incêndio de cabanas e refúgios, o assassinato daqueles que acolhiam os maquis, as contrapartidas, formadas por elementos policiais que se faziam passar por guerrilheiros, e a infiltração, executando pelo garrote vil os guerrilheiros presos.

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Stasiland

Estátua erguida junto dos antigos arquivos da STASI, em Berlim

Há já umas algumas décadas que a revista L’Histoire vem dedicando artigos e números especiais à divulgação de estudos sobre o colaboracionismo, acabando de ser publicado um novo dossiê no número de Setembro. O interesse dos franceses pelo tema prende-se directamente com o rasto ainda razoavelmente fresco deixado pelas actividades de República de Vichy (1940-1944), pela capitulação de alguns sectores da sociedade francesa perante a ocupação nazi, e pela existência de um corpo notável de denunciantes e de colaboradores. O trabalho de pesquisa histórica projectado neste campo é particularmente difícil e delicado, uma vez que a afirmação da «verdade dos vencedores» transformou em perversas e criminosas as pessoas responsabilizadas por esse tipo de atitude, e tantos as sobreviventes quanto os seus familiares mostram natural relutância sempre que alguém pretende tocar no assunto. A denúncia como instrumento de política constitui uma prática antiga e universal que nem sequer é privilégio dos Estados totalitários. Na Atenas clássica, a delação era mesmo considerada um acto cívico, destinado a proteger a comunidade de determinados comportamentos desviantes, tendo provavelmente sido aí que se iniciou também a sua perversão em larga escala, uma vez que o denunciante tinha direito a parte dos bens confiscados ao denunciado.

Foi todavia sob regimes fortemente autoritários que a atitude passou a ser sistematicamente enaltecida, sendo os traidores e os delatores promovidos frequentes vezes a heróis, destinatários de honras, medalhas e benefícios oferecidos por um poder que se pretendia incontestado. As benesses destinadas, no tempo da Inquisição portuguesa, aos «familiares do Santo Ofício», que funcionavam basicamente como testemunhantes e informadores, eram dessa natureza. A guilhotina revolucionária do período do Terror foi largamente provida por esta sorte de gente. E na União Soviética ficou sobejamente conhecido o caso do «glorioso mártir» Pavel «Pavlik» Morozov, o rapaz «pioneiro» que aos doze anos denunciou ao NKVD o pai por este vender alimentos sem autorização. O desfecho seria trágico: o pai de Morozov foi deportado para um campo de concentração e os avós, tios e primos, para evitarem a continuação da delação, acabaram por matar a criança, transformada por Estaline num «herói soviético» modelar. Na Polónia, durante a Segunda Guerra Mundial, ficou também amplamente registado o papel de muitos cidadãos polacos na identificação e denúncia dos judeus, responsabilizando-se esta atitude por ser aquele o único Estado europeu no qual o «problema judaico» terá sido efectivamente solucionado. A STASI leste-alemã tinha, por sua vez, um dos mais amplos e perfeitos corpos de denunciantes, tal como se encontra hoje bem documentado.

Em Portugal – os vizinhos espanhóis, ao invés, já começaram há algum tempo este tipo de trabalho – não existe ainda um esforço sistemático e criterioso de reconhecimento das actividades de denúncia e de traição perpetradas por aqueles que, da aldeia do interior à grande cidade, em espaços públicos e privados, graciosamente ou a contar com benefícios, trataram de delatar os opositores que conheciam ou os meros gestos de desagrado ou de chacota em relação ao regime do Estado Novo aos quais assistiam. Não me refiro aos agentes da PIDE identificados, mas antes àquelas pessoas que ofereciam espontaneamente informações às autoridades, ou então que se transferiam de campo, colaborando formal ou informalmente com a repressão salazarista e actuando como traidores das causas e dos movimentos de oposição com os quais ocasionalmente se haviam cruzado. Um trabalho por fazer, à espera de quem por ele se possa interessar. Um trabalho difícil, sem dúvida, mas a História faz-se também revirando soalhos e revelando episódios infamantes. Para que possa servir de exemplo e de alimento da democracia.

Gregorio Peces Barba

O jornal Público.es de hoje publica uma entrevista com Gregorio Peces-Barba, em que este se pronuncia sobre questões relacionadas com direitos humanos e posições da Igreja.

Político e jurista espanhol, um dos «pais» da actual constituição espanhola de 1978, preso pelo regime franquista, ligado a actividades de vários partidos, ficou conhecido em Portugal, antes de mais, como fundador e grande impulsionador dos «Cuadernos para el Diálogo» (1963).

Muitos leitores deste blogue se recordarão do apoio que os «Cuadernos» deram à resistência dos católicos portugueses antes do 25 de Abril – contacto obrigatório em idas propositadas a Madrid para actividades clandestinas, vindas de Pece Barbas a Lisboa em tentativas de tirar partido das ilusórias aberturas marcelistas.

Um exemplo:
Em Maio de 1969, o Centro Nacional de Cultura organizou um colóquio luso-espanhol intitulado «Imprensa?». No primeiro dia, o assunto foi «Lei de Imprensa» e os conferencistas Gregório Peces Barba, dos «Cuadernos para el diálogo», e José Maria Castelet, crítico literário de Barcelona. No segundo, foi abordada a «Situação actual e função da Imprensa em Espanha e Portugal» por Pedro Altares, também dos «Cuadernos para el diálogo», Domingos Jorge de Almeida Fernandes, Francisco Pinto Balsemão, João Gomes e José Tengarrinha.

Este evento provocou reacções da polícia política espanhola junto da sua congénere portuguesa e esta relatou que: «(…) em Espanha, se vê com apreensão as autorizações que foram dadas a espanhóis de tendências comunistas para tomarem parte em conferências que o Centro Nacional de Cultura levou a efeito.». E ainda que : «(…) eram imprevisíveis as consequências que poderiam advir se se continuar a permitir que espanhóis de tendências comunistas discutam em Portugal, com portugueses de ideologia semelhante, assuntos internos de Espanha» (ANTT – PIDE/DGS, Processo CI(1), 4819.).

Como sempre, o papão do comunismo. Assim íamos, eles e nós – e é bom ver que ainda nem todos pararam.

Mário Pinto de Andrade em Havana
 
(Primeira, segunda, terceira e quarta parte deste texto.)
 
 
Entre as repercussões dessa conferência numa sala da Câmara dos Comuns, considera Pinto de Andrade o entendimento, pelos militantes do interior, de um encorajamento à passagem à luta armada: «Dois meses depois, a  4 de Fevereiro de 1961, os militantes do interior, encorajados por essa conferência de Imprensa, pelos apoios internacionais de que o movimento dispunha e aproveitando a presença dos jornalistas que pretendiam cobrir o eventual acontecimento da chegada do Santa Maria a Luanda, decidiram uma acção contra as prisões onde estavam detidos alguns dos nacionalistas e, sobretudo, dirigentes do Movimento, do MPLA, sobre os quais pesava, aliás, a ameaça de transferência para o Tarrafal. Portanto, esta conjunção de circunstâncias decidiu a acção do 4 de Fevereiro, que depois se transformou em início da luta armada, mas cujo objectivo era a libertação dos presos políticos.» 

Pouco depois, segue-se o 15 de Março, uma acção da UPA: «Há uma diferença qualitativa e organizacional. Evidentemente que há o ponto de vista de cada um dos movimentos, subjectivo, mas objectivamente pode dizer-se que a acção dos militantes do interior, enquadrados por militantes do MPLA – a acção não é exclusiva, mas enfim, é reivindicada pelo MPLA – sucedeu uma tal repressão sobre as populações que já não restava outra alternativa que organizar-se de uma maneira muito mais organizada, para fazer do 4 de Fevereiro o verdadeiro ponto de partida de uma luta de libertação nacional. Mas era necessário ainda algum tempo, porque os meios de que dispúnhamos, os conhecimentos de que éramos portadores, a difusão das próprias técnicas de guerrilha não estavam suficientemente maduras para enquadrar os angolanos nacionalistas numa verdadeira luta de libertação nacional. Entretanto a UPA considerou o 4 de Fevereiro como uma precipitação, uma iniciação precipitada nessa via, e iniciou em 15 de Março as operações nas plantações de café, o que se transformou numa acção que se pode denominar em termos técnicos de guerrilha em jacquerie, uma insurreição não controlada pelos próprios dirigentes no seu desenvolvimento. O próprio Holden Roberto disse, numa conferência de Imprensa em Nova Iorque, que as suas palavras de ordem tinham sido ultrapassadas. Mas, independentemente da discussão sobre a natureza do 4 de Fevereiro e do 15 de Março, a nossa primeira ilação e o nosso primeiro reflexo foi propor e aprofundar propostas anteriores ao movimento adverso – adverso ideologicamente – de criar uma frente unida para fazer face ao inimigo comum. Só que a parte adversa não considerou assim. A capitalização que a direcção da UPA fez do 15 de Março inviabilizou a nossa ideia de movimento unido, que nos permitiria pôr os nossos recursos em conjunto para fazer frente à repressão e à resposta do inimigo, que viria, e que naturalmente, a partir desse ano de 61, foi fatal a uma grande parte da insurreição no Norte. A nossa análise era a favor de uma Frente unitária e uma preparação da luta armada que não se assemelhasse ao ataque indiscriminado aos civis ou à transformação numa guerra de tipo racial. Essa capitalização, esse monopólio que a UPA se atribuiu do norte de Angola tornou impossível uma unidade e a própria operacionalidade daquilo a que se chamou depois a 1ª Região Político Militar do MPLA.» 

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Mário Pinto de Andrade - Muralha da China 
 
(Primeira, segunda e terceira parte deste texto.)  

 
Pinto de Andrade troca Paris por Conacry, a primeira base africana: «Para nós, Conacry era uma estância provisória. O que queríamos era aproximar-nos do interior. Com a independência do Congo, começámos a criar novas células. Estávamos em atraso em relação à UPA, que era originária da etnia Bakongo, com clientela política nos meios da emigração em Kinshasa. E Holden Roberto tinha apoio dos dirigentes, nomeadamente de Patrice Lumumba, cujo primeiro reflexo foi apoiar a UPA e excluir o MPLA. Circulava nessa altura uma teoria, defendida por Franz Fanon, de que a UPA recrutava no meio camponês, enquanto que o MPLA era um grupo de intelectuais mestiços. Tínhamos que ultrapassar esses preconceitos para nos podermos enraizar no Congo.»

Lara é o mensageiro para reforçar o MPLA no interior: «Neto já estava em Angola e foi em torno dele que a resistência se organizou. Havia várias organizações e entendemos que a unidade interna devia ser em torno do MPLA e de Agostinho Neto, mas este foi detido em Junho de 60 e, depois dele, o meu irmão, o sacerdote Joaquim Pinto de Andrade.»

Um pouco antes, em Maio, tinham dirigido um memorando a Salazar, propondo a abertura de conversações sobre a situação das colónias: «Estávamos numa época de outorga de independências por meios pacíficos e, para iniciar a luta armada, precisávamos de responsabilizar o inimigo e provar que a contradição com Portugal se situava no campo da luta armada. Foi por isso que redigimos esse memorando ao Presidente do Conselho, a Salazar, em carta registada, para o Palácio de S. Bento. E ali dizia-se simplesmente, no essencial, que sabíamos que Portugal estava a preparar uma guerra preventiva, e que o único modo para evitar esse confronto, que se podia transformar numa autêntica guerra, era reunirmos uma mesa-redonda com os diferentes partidos políticos, para discutir o acesso à autodeterminação e independência. O memorando foi assinado pelo então Presidente do MPLA – eu próprio – Viriato da Cruz e Lúcio Lara e não recebeu resposta do nosso destinatário. Mas recebeu um comentário no jornal Novidades, que pertencia à família salazarista e católica, que o rejeitava, dizendo que nem mesa-redonda nem quadrada para discutir o indiscutível, o que não tem discussão, que era a independência.»

A ideia da luta armada já se agitava no grupo desde os anos 50. Em 59 tinham tido mesmo uma proposta de formação de elementos, de quadros para a luta armada: «Isso passou-se em Roma, na Páscoa romana, creio que em Abril, à margem do 2º Congresso de Escritores e Artistas Negros. Nessa altura já não era secretário de Alioune Diop, mas estive nesse Congresso, com Viriato da Cruz, Lúcio Lara e Marcelino dos Santos. Como conhecia bem Franz Fanon, com já tinha estado em Paris quando do 1º Congresso, servi de intermediário numa reunião que solicitou com os africanos das colónias portuguesas. E reunimo-nos num café, clandestinamente. Fanon era um homem perseguido pela Polícia, tinha sido vítima de uma tentativa de assassinato, mas era já um responsável do GPLA, Governo Provisório da Argélia Livre, um conselheiro político escutado. Defendeu a tese de divisão do imperialismo: a Argélia lutava contra o imperialismo francês, era necessário atacar outro imperialismo da família NATO, para dividir a força da NATO. Então propunha que aqueles grupos, aqueles actores dirigentes – que ainda não eram reconhecidos como tal – aqueles nacionalistas, envidassem esforços para desencadear, simultaneamente, a luta armada em Angola e Moçambique.»

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«O povo de Barrancos recebe segunda-feira a Medalha da Extremadura, o galardão máximo desta região espanhola atribuído pela primeira vez a estrangeiros, como reconhecimento da ajuda dos barranquenhos aos refugiados extremenhos durante a guerra civil espanhola.»

MHJMemória, História e Justiça é o título do colóquio internacional que o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra levará a cabo nesta cidade nos próximos dias 15 e 16 de Setembro. As questões relativas à justiça de transição, particularmente relevantes no contexto de países que passaram por regimes ditatoriais, bem como as dinâmicas que se estabelecem entre violência e memória, serão abordadas com particular destaque. Mais informações sobre este evento podem-se encontrar aqui.

Mário Pinto de Andrade
 
(Primeira e segunda parte deste texto.) 

 
Em 1954, Mário Pinto de Andrade parte para Paris:
«Sentia-me perseguido, como toda a gente, pela PIDE. E pressenti que, não estando ligado propriamente às actividades políticas portuguesas, seria para mim um corte na minha própria formação continuar em Lisboa. Depois, já tinha ligações com o Alioune Diop, com a Présence Africaine, e havia também já dois dos elementos do nosso grupo em Paris, Marcelino dos Santos e Guilherme Espírito Santo, da família do 37 da Rua Actor Vale.»

Sendo necessário justificar a saída de Portugal, o objectivo explícito para as autoridades portuguesas foi a participação num campo de trabalho. Saiu sem dificuldades, graças também à cumplicidade de um amigo – mais tarde seu editor – João Sá da Costa, que lhe passou um documento de idoneidade moral e financeira: «Fiz o tal mês de trabalho num campo internacional no Sudeste da França, com estudantes de vários países, entre os quais argelinos, cheguei a Paris e tive a felicidade de encontrar Alioune Diop e de ter imediatamente a esperança, ou, pelo menos, o engajamento, de trabalhar na revista Présence Africaine, na dupla função de secretário da nova série da revista e de secretário pessoal do próprio director.»

Mantinha o contacto com Viriato da Cruz e os restantes compagnons de route, mas começa a ligar-se a intelectuais africanos francófonos:
«Foi um deslumbramento. Para além de me inscrever na escola Prática dos Altos Estudos – onde tive por mestre Roger Bastide – tinha o meu quotidiano preenchido pelo trabalho na Présence Africaine, onde circulava o escol da intelectualidade francófona. Nenhum intelectual importante nesse tempo deixava de frequentar essa revista. E não só africanos, também intelectuais de outras áreas, do mundo negro. Richard Wright, por exemplo, que vivia em Paris nesse tempo, James Baldwin e mesmo o Chester Himes, de uma maneira mais peregrina, mas enfim, o essencial da intelectualidade francófona não só colaborava como mantinha contactos com Alioune Diop e eu ia, evidentemente, aprofundando os meus conhecimentos e alargando os meus horizontes culturais. E devo dizer que beneficiei da amizade pessoal não só de Alioune Diop, naturalmente, mas também de Aimé Césaire e Léopold Sedhar Senghor e indico os nomes nessa ordem pela intensidade das relações.»

Pelo próprio facto da origem senegalesa de Alioune Diop, os primeiros contactos intelectuais de Mário Pinto de Andrade com o mundo francófono foram com o meio senegalês. Mas, para além disso, Mário vivia na cidade universitária e a cidade universitária desse tempo, anos 50, plena guerra fria, era um mundo de grande agitação política:
«Devo dizer que um outro elemento importante, que não teve passagem por Lisboa, não frequentou as academias de Portugal, mas que se encontrava em Paris – tinha vindo directamente de Goa para Grenoble, passando por Moçambique – foi o meu amigo, o meu cúmplice, Aquino de Bragança. Era um homem cujo destino se cruzou com o meu e teve uma influência extraordinariamente importante, na sua qualidade de grande agitador de ideias. De modo que esta vivência de Paris foi das mais ricas e mais determinantes no meu devir cultural e político.»

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Joaquim Pinto de Andrade
 
(A primeira parte deste texto pode ser lida aqui.)

 
Na viagem para Lisboa, Mário tem a companhia do irmão Joaquim e do futuro cardeal Alexandre Nascimento. A saída das Ingobotas – «mais precisamente do Quilómetro 5» – para um jovem que apenas fizera algumas curtas viagens em Angola, foi «uma separação penosa, difícil, um primeiro desenraizamento»: «Encontrei o Outono, quase já princípio de Inverno, as folhas mortas no Cais de Alcântara, foi extremamente difícil, mas essa dificuldade foi atenuada por saber que ia viver numa pensão – perto de Santo Amaro, contígua à estação dos eléctricos – onde estavam já dois angolanos que me tinham precedido nessa aventura, um colega de escola, Licínio de Assis, filho do dicionarista e antigo jornalista António de Assis Júnior, e Humberto Alves Machado.» 

Poucos dias depois, «creio que na própria semana em que cheguei a Lisboa»,  Humberto Machado, estudante de Agronomia, apresentou-lhes um colega chamado Amílcar Cabral: «Lembro-me, naturalmente, tão importante foi esse encontro, do dia exacto em que lhe apertei a mão pela primeira vez, a esse homem que foi a personalidade mais influente na minha geração. Foi na rua Luís de Camões, subindo a R. Luís de Camões ao encontro da Tapada da Ajuda, do Instituto Superior de Agronomia, que encontrei pela primeira vez Amílcar Cabral. Um homem elegante, disponível, que me considerou imediatamente como mais um elemento, mais uma unidade no grupo que depois haveríamos de formar.» 

Seguiram-se o moçambicano Marcelino dos Santos e Agostinho Neto, «que eu conhecia mal em Angola, e que, vindo de Coimbra, veio também alojar-se nessa pensão de Santo Amaro.» 

Segue-se, nesta lista de nomes que entrarão para a História, Francisco José Tenreiro, um pouco mais velho, nessa altura a estagiar com o geógrafo Orlando Ribeiro. «E depois a família Espírito Santo, no 37 da rua Actor Vale, e muitos outros, o Américo Boavida, o Diógenes Boavida, etc.» 

O número de africanos em Lisboa foi-se alargando, e foram-se constituindo novas organizações:
«Nessa altura havia pólos de congregação. O primeiro pólo para nós, estudantes,  era a Casa de Estudantes do Império, pelas facilidades de ordem social e recreativa que permitia. Mas, como africanos, organizámo-nos para lá da CEI. Começámos por ter conhecimento da Casa da África Portuguesa, dominada por um proto-nacionalista, Artur de Castro, e que estava na continuidade das várias associações que existiam em Lisboa, desde a Junta de Defesa dos Direitos de África, Liga Africana, Partido Nacional Africano, o Grémio dos Africanos… A Casa da África Portuguesa é uma organização que sucede ao Grémio dos Africanos, de 1929, é criada em 1944 e, em 49/50, pretendemos, alguns de nós, criar uma organização de reactivação, reorganizadora, da Casa de África. Não fomos bem sucedidos, porque a direcção era – para falar em termos actuais – reaccionária ou, pelo menos, conservadora e não estava disponível para aceder a uma presença e a uma infiltração de sangue novo. Sobretudo uma infiltração que, na interpretação de Artur de Castro, podia ser comunizante.» 

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Jornal Republica

A Hemeroteca Municipal de Lisboa está a digitalizar este importante jornal, estando já disponível online uma parte do ano de 1956.

Mário e Joaquim Pinto de Andrade 

Nasceu e morreu no mês de Agosto. Teria completado 81 anos no passado dia 21, se a morte não o tivesse apanhado em Londres poucos dias depois de fazer 62 anos – a 28 de Agosto de 1990. Pouco tempo depois, também, de ter tido oportunidade de conhecê-lo.

A partir dos anos 60 e durante muito tempo, Mário Pinto de Andrade foi para mim uma referência: angolano, nacionalista, intelectual prestigiado, primeiro presidente do MPLA. Mas só muito mais tarde, nos finais da década de 80, vim a conhecê-lo. Combinado um encontro à porta da Biblioteca Nacional e temendo não o reconhecer, perguntei-lhe se era parecido com o irmão Joaquim, que conhecia bem. A resposta desconcertou-me: «Não. Sou muito mais bonito!» Então, como reconhecê-lo? «Costuma ver muitos negros carregados de livros sair da Biblioteca Nacional de Lisboa?» 

Reencontrei a ironia na forma como, na entrevista que me deu, para a série documental «Geração de 60», definiu as suas origens sociais: «Não vêm na sociologia marxista. Era a lumpen aristocracia luandense.» Depois explicitou o conceito: «Caracterizava-se, nos anos 30, pela sobrevivência de pergaminhos familistas. Um grupo de gente que se reportava a um passado de participação na administração colonial, algumas funções na Igreja e no Exército e que ainda participavam das migalhas dessa existência.» 

O pai era um funcionário aposentado, os seus amigos eram também da área administrativa. Foi nesse meio que se formou a consciência nativista de Mário Pinto de Andrade: «A lumpen aristocracia se, por um lado, vivia dos seus pergaminhos, por outro veiculava aos seus descendentes uma consciência nativista. Havia uma ambivalência, um certo orgulho de ter sido parte integrante dessa vida no meio do colonizador e, ao mesmo tempo, de ter estado na vanguarda de uma luta contra as discriminações de que foram sendo vítimas, no seio da problemática de qualquer colonialismo.» 

De qualquer modo, sublinhou, «essa lumpen aristocracia não se situava ainda no extremo de sobrevivência do colonizado. Quem se situava nesse lugar era o indígena.» O meio em que Mário se inseria era considerado assimilado, com direito à escola e à ascensão social: «Em princípio. Evidentemente já se manifestavam outras formas de discriminação social – não falemos já de discriminação política, porque isso era mais vasto, era o próprio sistema já em vigor, o sistema do Estado Novo. Mas essas formas de discriminação social e racial exerciam-se já no nosso meio, no meio africano, exerciam-se já nas Ingombotas, onde vivi, no meio nativo em geral. Era já um meio de luta para ascender à vida social através da escola.» 

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Los Refugiados de Barrancos

Acabámos de receber o seguinte mail do presidente da « ASOCIACION PARA LA RECUPERACION DE LA MEMORIA HISTORICA DE EXTREMADURA»:

Caros amigos: Os comunicamos que el documental LOS REFUGIADOS DE BARRANCOS, se estrenará en TV, mañana miércoles (quarta feira), a las 22.35 horas (21.35 horas de Lisboa) en CANAL EXTREMADURA TV. También se emitirá on line por internet y por satélite (se puede ver si se tiene parabolica orientada al satélite ASTRA, es un canal de emisión libre, sin codificar).

Lo más comodo para vosotros, será verlo on line.

Con ello se adelanta así al acto institucional en el que se hará entrega de la Medalla de Extremadura, concedida por el Consejo de Gobierno de la JUNTA DE EXTREMADURA (gobierno autónomo de Extremadura) a la localidad de Barrancos y que tendrá lugar en el Teatro Romano de Mérida, la próxima semana (7.09.2009). Con este galardón se valora la labor humanitaria prestada colectivamente por el pueblo de Barrancos.

Como sabeis, “Los refugiados de Barrancos” narra cómo multitud de republicanos de pueblos extremeños fronterizos con Portugal decidieron huir de España ante el avance de las tropas golpistas del general Franco. En dicho documental colaboran la antropóloga Mª DULCE SIMOES, los historiadores FERNANDO ROSAS, FRANCISCO ESPINOSA y JOSÉ MARIA LAMA y lo periodista PAULO BARRIGA, además del neto del teniente Seixas.

Aunque el procedimiento habitual de las autoridades portuguesas era entregar a los exiliados a sus aliados franquistas, gracias a la intervención humanitaria del teniente de la guardia fiscal portugués Antonio Augusto de Seixas, se crearon junto a la localidad de Barrancos dos campos de refugiados para alojar y proteger a los republicanos españoles.

Saludos.
José Manuel Corbacho Palacios. Abogado
Presidente de la ASOCIACION PARA LA RECUPERACION DE LA MEMORIA HISTORICA DE EXTREMADURA.

 
Sinopse: Setembro de 1936. Os últimos redutos republicanos situados junto à fronteira portuguesa são conquistados pelas tropas do General Franco. Tal como aconteceu em Badajoz e noutras povoações, a repressão desatada é brutal. O apoio do regime salazarista aos sublevados não aconselha a fuga a Portugal, mas, para muitos, esta é a única saída. Com efeito, centenas de pessoas decidem passar a fronteira, perseguidas, de perto, pelos militares revolucionários. O procedimento habitual das autoridades portuguesas é entregá-las aos franquistas, que as fuzilam sem demora. Porém, graças à humanitária intervenção do Comandante da Guarda Fiscal de Safara, Tenente António Augusto de Seixas, cria-se um campo de refugiados perto da localidade de Barrancos para alojar e proteger a este grupo de exilados espanhóis.

Gdansk 1set2009

Veterano polaco em cerimónias comemorativas – hoje, em Gdansk.

invasão polónia  

Inicialmente anarquista, depois membro do Partido Republicano Evolucionista, mais tarde militante monárquico, Alfredo Pimenta manteve com Salazar uma extensa correspondência, recentemente publicada. 

São  de Salazar e Alfredo Pimenta, Correspondência 1931-1950, (Editorial Verbo, prefácio de Manuel Braga da Cruz), os três excertos que reproduzimos, relativos à posição portuguesa perante o conflito que acabava de eclodir:
 
 
«Casa da Madre de Deus – Guimarães, 3 de Setembro, Domingo 

Ex.mo Sr. Presidente do Conselho: – já ontem cumpri o meu dever de português, enviando a V.ª Ex.ª as minhas felicitações pela doutrina exposta na proclamação do Governo ao Pais. É aquela. Não podia ser outra, a menos que se esquecessem os altos interesses do País. Mas V.ª Ex.ª não pode ficar por aí.
Não sei o que pensa o Prof. Oliveira Salazar que nem sempre estará de acordo com o Chefe responsável do Governo, sobre o que se passa na Europa.
Por mim penso que voltamos ao equívoco, à comédia, à mistificação de 1914: interesses puramente materiais escondidos sob a máscara dos Princípios da Civilização, do Direito, da Lberdade, da Democracia, etc.
Não morro de amores pelo Chanceler alemão. A minha doutrina política é a garantia da minha antipatia.
Os povos não são deste ou daquele: são dos seus chefes naturais – os que os fizeram, os que herdaram destes a missão de os defender. Os Césares são soluções provisórias. Quando me aparecem com a pretensão de definitivas, considero-os perigosos para a Ordem social.
Mas se não morro de amores pelo Chanceler alemão, sinto uma repugnância fundamental e decidida pelas Democracias judaizantes, maçocizantes e comunizantes. De modo que nesta luta que se está a travar, receio mais as consequências da vitória das Democracias do que a do Cesarismo alemão.

(…)

De V.ª Ex.ª M.to At.º Ven.or Obrig. 

Alfredo Pimenta»
 
 
«10 de Setembro de 1939 

Ex.mo Senhor Dr.
(…)
Nas circunstâncias presentes, e encarado o aspecto das repercussões da guerra nos regimes políticos, há apenas, segundo creio, um perigo – o de se generalizar a guerra, pela perda da neutralidade da Itália e da Espanha, das democracias contra os fascismos. Enquanto assim não for, e quanto a nós, enquanto soubermos o que estamos a fazer, a força que temos e o que nos convém, nenhum perigo resultará duma vitória franco-inglesa sobre o Hitlerismo.
(…)
Com toda a consideração de V.ª Ex.ª

M.to At.º Ven.or e Obrig.

Oliveira Salazar»
 
 
«18 de Setembro de 1939

Ex.mo Senhor Dr.
(…)
No conflito em que somos e queremos ser neutrais, dadas as consequências do facto para toda a Europa e especialmente para nós, quem nos convém que vença? Apesar do receio que possa inspirar a vitória das democracias pela sua possível – não provável em todo o caso – repercussão nos regimes internos de vários países entre os quais nós estamos, sou levado a crer, por muitas razões impossíveis de resumir aqui e neste momento, que o nosso interesse será mais facilmente salvaguardado com o triunfo inglês, que com a sua derrota.
(…)
Mais uma vez muito grato pela atenção de V.ª Ex.ª Com toda a consideração.

de V.ª Ex.ª m.to at.º Vem.or  e obrig.
 
Oliveira Salazar»

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