Timor

Há dez anos, saíamos às ruas a manifestar-nos por Timor-Leste. Há dez anos, o povo timorense afirmava nas urnas o seu desejo de ser livre e ver partir o ocupante indonésio.
David vencia Golias: pagava-o em mortos e sangue, mas garantia a sua independência.

 

Não, não estive em Timor…

Não, não estive em Timor-Leste na altura do referendo, há exactamente dez anos.

Tudo o que sei é por ouvir dizer, pelas histórias que me contaram depois aqueles que as viveram.

As da violência sofrida, naturalmente. Mas também as outras.

A de Moisés dos Santos, por exemplo, que me serviu de motorista intérprete na primeira vez que visitei Timor, no ano da segunda proclamação de independência.

Como tantos outros nos anos da ocupação indonésia – os timorenses dizem muitas vezes «javanesa», deixando-nos na dúvida sobre se estão a ir, de repente, muito mais longe nas suas memórias e a dizer «japonesa» – Moisés trabalhava simultaneamente para o ocupante e para a Resistência. Chefe de suko, ao aproximar-se o referendo os indonésios exigiram-lhe a assinatura de um documento garantindo a adesão de toda a população às milícias Besa Mehra Puti, pró-indonésias. Obrigado a escolher a traição ou a morte, contactara Xanana, então preso em Cipinang. E Xanana respondera, sem hesitar: «Assina! Que seja feito segundo a vontade deles!»

Era a mesma linha que recomendara que se hasteassem bandeiras indonésias nas aldeias, para que Djakarta, pensando que ganhava o referendo, o aceitasse.

A mesma que – e quão terrível terá sido pensar, dar, obedecer a essa palavra de ordem! – ordenou aos resistentes que não respondessem à violência das milícias pró-indonésias, para que a opinião pública internacional pudesse não ter dúvidas sobre quem violava os direitos humanos em Timor.

«Quando o vento é forte, a erva ondula para não quebrar». A sabedoria camponesa, feita preceito maoista, é por vezes dificil de aceitar, mas foi ela que garantiu a sobrevivência e a vitória da Resistência timorense, no pequeno território da meia-ilha, sem comunicação fácil com o exterior.

Mário Caeiro Alves explicara-mo com recurso a um provérbio timorense: «Em terra de cavalos, temos de agir como os cavalos, se não levamos coices?». Fora assim que lograra obter balas que faltavam aos combatentes no mato: oferecendo veados aos indonésios que, reconhecidos, lhe davam munições para que pudesse caçar mais.

Já antes, em 1983, a direcção da luta tinha mostrado a sua inteligência, ordenando ao povo que passava fome nas suas bases que se entregasse ao inimigo, que até trabalhasse para ele com as suas mãos e o seu corpo – continuando a luta com a cabeça e o coração. E permitindo aos combatentes prosseguir a luta.

Por isso me surpreendo quando se levanta agora a questão de saber se os números do referendo foram manipulados, para diminuir o vexame da Indonésia e lhe permitir aceitar mais facilmente o esmagador voto na independência. E se assim tiver sido? Não, não acho que os fins justifiquem os meios: mas acho que há que olhar aos meios e aos fins. Se a vitória por 78,5% permite a independência e evita um novo banho de sangue, será preciso – numa circunstância como aquela – exigir que fiquem nos anais os 90%? Por que não salvar a face do inimigo, para evitar que mais seres humanos morram ou sejam violentados? Dir-me-ão que é uma questão de honra. Defendo-me com um texto de Malaparte em que se diz disposto a fazer tudo, mesmo de palhaço, para evitar as lágrimas de um homem.

Sim, são terríveis as memórias da violência de 1999. É terrível ouvir, no Suai, relatar o que foi esse Setembro Negro, é terrível ouvir um homem dizer que têm nove filhos enquanto a mulher diz que têm sete e perceber que ele continua a incluir os dois filhos mortos e perceber-lhe as lágrimas nos olhos. E se um jogo com percentagens permitiu que os outros sete sobrevivessem, chegando na mesma Timor-Leste à independência, valeu certamente a pena.

Sei que os timorenses não esqueceram nada do que se passou. Vi, em Suai, entregarem ao Arquivo Museu da Resistência restos de documentos clandestinos, encarquilhados pelo fogo no incêndio ateado pelas milícias – para que a memória não se perca. Ouvi, em Leotala, um resistente dizer, ao entregar os documentos da organização local: «Isto é o nosso sangue, a nossa vida.» Sei o orgulho que têm na luta que travaram. Na coragem, na entrega, nos mártires, mas também na inteligência dessa luta. E, por muito que pense que há que honrar a memória das vítimas, por muito que saiba que essa é uma memória que nunca se pode esquecer, sinto-me feliz por poder honrar os resistentes enquanto vencedores, em vez de chorá-los como vencidos.

Sem esquecer uma só das terríveis imagens de 1999, uma só das terríveis histórias de 1999, essa é, para mim, a grande lição do referendo: a opção dos resistentes pela inteligência e pela vida. O terem sabido virar ao contrário o grito de Millán Astray e, sobre a violência e o sangue, terem proclamado. «Viva a inteligência, morra a morte!»

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Diana Andringa visitou duas vezes Timor-Leste, a primeira em 2002, para um documentário sobre Xanana Gusmão e a luta de libertação – Timor-Leste, o sonho do crocodilo – a segunda em 2005, para mostrar esse documentário nos locais onde tinha filmado.

Na mesma altura, viajavam também para Dili dois elementos da Fundação Mário Soares que, no âmbito do apoio daquela Fundação à criação do Arquivo Museu da Resistência Timorense, ali iam recolher documentos da Resistência. Um desses elementos, Somotxo, era um antigo guerrilheiro que fizera parte dos grupos de segurança de Xanana e Matan Ruak e, depois da reorganização empreendida pelo sucessor de Xanana, Nino Konis Santana, secretariara a Região 4 da Resistência. Combinam juntar forças: eles ajudá-la-iam nas projecções, ela acompanhá-los-ia na recolha de documentos.

Da viagem, filmada com uma pequena câmara amadora, ficou o testemunho em dois pequenos filmes acessíveis no site do Arquivo Museu da Resistência.

O que se segue é um excerto do Diário dessa viagem:

2005, 21 de Agosto: Leotala, Hatukessi

Desde os primeiros alvores da manhã que Vicente Leko, antigo secretário da Resistência na zona de Likisá e Filomeno Oliveira, Lulik, vice-secretário do ODIR – Órgão Director Regional – de Likisá, preparam a entrega de documentos à gente da Fundação Mário Soares, no âmbito de um protocolo entre esta e a Associação de Veteranos da Resistência e o Presidente Xanana Gusmão. Sobre uma mesa, frente a um cartaz onde se inscreve o nome da zona, vão amontoando papéis, que o professor José Mattoso começa a folhear. Ao lado do cartaz, a bandeira de Timor Leste, guardada desde a luta. Atrás, um coro de jovens, as raparigas em traje tradicional, começa a cantar canções de resistência. Uma das canções fala do sangue vermelho espalhado dos filhos que tombaram e é evidente a emoção de muitos dos que assistem à cerimónia, nomeadamente a viúva e o irmão de Hatoli, um professor de Lukolai que, nos anos 90, organizou a primeira manifestação clandestina na zona, arriando a bandeira indonésia para içar a da FRETILIN, refugiando-se depois nas montanhas. Assistente Político da Região 4 e, mais tarde, comandante, muito admirado pelas operações militares que levou a cabo para capturar armamento e munições ao inimigo, morreu durante um ataque ao seu abrigo, em Fevereiro de 1998, com 36 anos.

Vicente Leko toma a palavra. Fala da reorganização da Resistência, da reorganização de 13 de Setembro. Explica a importância da memória, da preservação dos documentos. Lulik, que tal como Vicente Leko foi preso e torturado várias vezes, entrega um conjunto de documentos a José Mattoso, dizendo: «Isto é o nosso sangue, a nossa vida…» Mattoso recebe os documentos, comovido, e passa-os ao nosso motorista, Carlos, que tem lágrimas nos olhos. Vicente Leko toma de novo a palavra e passa a historiar a actividade da resistência na região. Mesmo para os que, como eu, não percebem tétum, é evidente que lembra, um a um, os que tomaram parte na luta e nela tombaram. Tenho o plano fechado sobre ele, quando me murmuram ao ouvido: «Vê as jovens do grupo coral, como choram!» Choram em grandes soluços, enquanto as lágrimas lhes correm pelos rostos, numa emoção impossível de fingir. Quando viro a câmara para elas, deixam-se cair, para esconder as lágrimas, soluçando sempre. Lulik tem os olhos rasos de lágrimas, e o maestro que dirige o coro, e o Moisés, o Carlos, o Hamar, a mulher de Moisés, o Somotxo e muitos outros… Vicente Leko limpa os olhos a um lenço.

A voz de José Mattoso embarga-se quando agradece a confiança depositada pelos que lhe entregam os documentos e lembra que é importante recordar, além dos dirigentes, o nome dos elementos do povo que combateram. Os jovens do coro choram ainda quando o historiador lembra que cabe agora à juventude manter a herança de seus pais, e é mais difícil fazer uma nação do que conquistar a independência. Somotxo, um antigo guerrilheiro que fez parte dos grupos de segurança de Xanana e Matan Ruak e, depois da reorganização empreendida pelo sucessor de Xanana, Nino Konis Santana, secretariou a Região 4 da Resistência, fala depois, para também ele referir a importância de honrar a memória, de não deixar morrer a recordação da resistência.

Então o coro entoa uma canção em que entendo o refrão: é sobre o «irmão bot (grande) Piti Lakon Mossu» (o nome de Somotxo enquanto secretário da região 4, na clandestinidade), «direcção do comando da luta, da luta da nossa terra».

Num ambiente carregado de emoção, segue-se a deposição de flores no monumento aos mortos, que começa com Mattoso e Somotxo, seguidos pela viúva e o irmão de Hatoli e por todos nós: pétalas de flores lançadas sobre a pedra.

Em Hatukesi visitamos uma casa que servira de abrigo ao comandante Maputo e em cujo subterrâneo estão guardados documentos, munições, armas e outros objectos que pretendem entregar ao Arquivo da Resistência.

Maputo, aliás Zacarias da Costa, é o único sobrevivente do grupo de combatentes de Aileu. Saído para as montanhas em 1975, e isolado depois da queda das Bases de Resistência, junta-se à companhia dos Comandantes Ferraz e Lekas, na zona de Ainaro, onde permanece até à reorganização de 81 – marcada pela criação do Conselho Nacional da Resistência Maubere, CNRM. Assegura a ligação entre a fronteira e a zona Cruzeiro (Central). No início dos anos 90, é nomeado assistente político e, em 1994, adjunto político da Região 4. Colocado na sub-região Norte, onde fica até ao referendo, teve um papel central na criação das zonas e ODIRs de Likisá, Maliana e Ermera. É um homem pequeno e magro, com os cabelos a tornarem-se grisalhos.

Conduz-nos ao esconderijo cavado sob um quarto. Quando se afasta a cama que a cobre, a marca da entrada é nítida no soalho – levando o Somtxo a dizer que era uma armadilha mortal, tanto mais que não tinha outra saída para o exterior. É, no entanto, grande e cómodo, com uma escada de pedra que Maputo desce com dignidade, seguido por muitos dos presentes, já que os abrigos atraem sempre grande curiosidade. Lá dentro, para além de papéis, armas velhas, uma máquina de escrever e munições, uma fotografia de Maputo na guerrilha e uma inscrição: «Leão da montanha». Desço também, com José Mattoso e Somotxo, e tento filmar no abrigo sobrelotado. Lá fora, o coro – que nos acompanhou desde Leotala – recomeça a cantar canções de resistência, enquanto os documentos, a máquina de escrever, as armas, vão sendo tiradas do abrigo, passando de mão em mão, para uma mesa grande, no exterior, onde decorrerá a cerimónia de entrega. Já fora do abrigo, ao cimo da escada, vou filmando o melhor que sei a saída dos documentos. De súbito, oiço uma grande risada: um dos elementos da Frente Clandestina, com o tripé aberto sobre a cama, finge filmar, imitando a malai ferik (estrangeira velha) e provocando o riso geral. Quando vêem que o filmo, redobram de riso.

Fora de casa, com os documentos e os objectos espalhados numa grande mesa, há lugar de novo para a emoção, perante a entrega dos documentos ao Professor Mattoso e o Somotxo. Os objectos, esses, ficam guardados, para serem mais tarde expostos no Museu.Para que a memória se não perca.

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