Costa Gomes  - Manuela Cruzeiro

 
Costa Gomes morreu há oito anos, em 31 de Julho de 2001.

 
Eis uma das figuras de Abril que nunca classificaria de herói, mas antes de anti-herói, dado o perfil enigmático (quase esfíngico) que tanto inquietou os portugueses no tempo revolucionário, e continua hoje a inquietar estudiosos e investigadores.
A prová-lo os mais variados epítetos (para ficar por aqui….) com que tem sido distinguido e até a imagem dominante que deixou para a galeria de um certo anedotário político nacional. Rolha ou Cortiça foi a sinalização encontrada para a sua proverbial habilidade política, a sua capacidade de flutuar e se manter à tona de todas as tempestades.
Num registo mais erudito, são inúmeros os desabafos de impotência de todos quantos apostaram no esclarecimento da sua real dimensão na cena político-militar nacional, quase sempre de forma ultra-discreta, durante cerca de meio século.
Medeiros Ferreira, por exemplo, considera que «o papel de Costa Gomes é indiscutivelmente um dos maiores mistérios da fase pré-constitucional da Revolução» (1) e Gomes Mota confessa que só se conhecerá verdadeiramente o que ele pensava, através de critérios sobrenaturais. E foi talvez por levar a sério essa sugestão que, a dada altura, Sá Carneiro decidiu ir tão longe quanto possível nessa pista, pedindo uma audiência privada ao amigo e director espiritual do velho marechal, o padre jesuíta Cabral Abranches. Queria saber, de fonte credível, se Costa Gomes era, de facto, católico. Consta que a resposta não foi muito tranquilizadora, uma vez que o jesuíta só garantiu o que a sua própria experiência lhe permitia: que o seu velho amigo cumpria escrupulosamente os mandamentos da Igreja Católica. Se por dever, se de acordo com o dever, para usar a regra de ouro da moralidade kanteana, nem ele, seu confessor, o saberia nunca. 

Uma simples consulta ao que se tem escrito sobre aquele que alguém descreveu como demasiado neutro para ser interveniente e demasiado interveniente para ser neutro, permite-nos distinguir claramente dois períodos:
Um primeiro, dominado pela visão exaltante (e exaltada!) das vozes e dos rostos da revolução, que dificilmente enquadrava o «cinzentismo» da figura, a sua visível dificuldade de expressão, a sua consabida tendência para a conciliação, quando não mesmo para a neutralização das tensões em estado de explosão iminente.
Um segundo, em que a reavaliação do papel que Costa Gomes desempenhou durante aqueles meses de brasa, tem vindo a ser proposta pelos mais amplos sectores políticos e ideológicos, valorizando-o como o principal responsável pelo evitar da guerra civil e pela estabilização do regime democrático saído da revolução.
Tudo se fez, críticas ou elogios, um tanto à revelia da figura inspiradora, comummente considerado um homem discreto e apagado, obscuro, quase sombrio, que, como dizia «se viu sem saber ler nem escrever, em Presidente da República», porque «não tinha ambições politicas, não tinha preparação politica, não tinha, sobretudo, uma máquina promocional que lhe vendesse a imagem» (2).
Com um vasto capital de queixa, quer à direita, quer à esquerda – desde traidor aliado a Moscovo, a inimigo mortal de qualquer radicalismo – Costa Gomes não contentou totalmente ninguém, e isso, longe de o magoar, era para ele a prova mais cabal da sua independência e do seu patriotismo. Na verdade, «houve de tudo na nossa revolução: spinolistas, gonçalvistas, otelistas, eanistas, sá-carneiristas, soaristas…mas ninguém ouviu falar de costa-gomistas» (3).
Daí o seu comportamento desconcertante, imprevisível e incómodo, o que faz dele um desalinhado no complexo xadrez político revolucionário. Outros, mais severos, evocarão as suas características de exímio negociador ou até de temível manobrador, treinado por longas sessões de bridge nas salas de oficiais. 

Hoje, vencedores e vencidos do confronto político-ideológico que abalou este pais nos anos de 74 e 75, converteram o descontentamento, a frustração, e mesmo a revolta pela acção de Costa Gomes em reconhecimento póstumo do seu papel arbitral. E um árbitro, na política como no futebol, todos sabemos, é sempre uma figura polémica.
Desempenhou sempre esse papel ingrato com rigor e isenção? Certamente que não. Ao longo do acidentado processo tenta conciliar o inconciliável, insistindo na síntese entre a legitimidade revolucionária do MFA e a legitimidade eleitoral dos partidos: afastando-se do PS em acontecimentos como o Caso República, a posse do 5º Governo Provisório, a condenação dos signatários do Documento dos 9, ou mesmo no episódio do cerco da Assembleia Constituinte, iria aproximar-se em toda a sequência das assembleias militares do verão quente, dominadas por uma estratégia de alegada autonomia do MFA em relação ao PCP. Sequência que culminaria na célebre assembleia de Tancos que inverte totalmente o equilíbrio de forças em favor da corrente militar afecta ao PS. E, finalmente, na cobertura total ao plano e à acção dos vencedores do 25 de Novembro.
Chamei-lhe anti-herói, o que, ao contrário do que possa pensar-se, não é o mau herói ou o herói falhado. É antes o oposto, o companheiro antitético, cuja serena e discreta obscuridade mais favorece a luminosa visibilidade dos outros. Anti-herói, pois, porque o seu perfil enigmático, a pose distante de observador até de si próprio, o subtrai a todos os excessos do amor ou do ódio.Na verdade ele nunca usa o léxico da emoção, mas antes o rigor do código matemático, não é um tribuno inflamado, que põe as multidões ao rubro, mas o analista frio que as obriga a usar a razão mais do que o coração. Não desencadeia, por isso, reacções que levem a ver nele «um amigo» como Otelo, «um pai» como Spínola, «um companheiro» como Vasco. A forma como (não) explica a sua responsabilidade no 25 de Abril, desconcerta-nos e reenvia-nos para novos enigmas: «pelo menos não os denunciei. Estou convencido de que se estivesse ao lado do governo, a revolução fracassaria» (4).

Eis o exemplo do anti-herói. Talvez o caminho mais difícil, mais duro e mais ambíguo de ser herói. Não ficar na história por um gesto, um grito, um discurso, mas por uma paciente e persistente gestão do silêncio, nunca para proveito próprio, mas sempre em nome do que pensava melhor para o seu país.
Viveu os últimos anos num quase apagamento. Dos vários cargos que poderia ter desempenhado, após a sua saída da presidência da República, todos foram sucessivamente descartados. De embaixador, a alto comissário da ONU para a Namíbia, passando por qualquer função num organismo que conhecia como ninguém, a NATO, tanto o presidente Eanes, como o primeiro-ministro Mário Soares se mostraram desfavoráveis a confiar qualquer destas missões a Costa Gomes. Ao mesmo tempo foi sempre preterido por Spínola nas funções de conselheiro permanente da Presidência da República, qualidade inerente ao grau de marechalato.
Quando da sua morte, em 31 de Julho de 2001, o coro de elogios contrastou de forma gritante com o silenciamento a que foi votado, confirmando a regra tão portuguesa de que «depois de mortos todos somos os melhores». Por mim preferi lembrar o que me disse, em jeito de balanço, num dos nossos últimos encontros: «vivo os últimos dias com a consciência tranquila de que nunca me deixei comprar». Quantos, como ele, poderão dizer o mesmo?

 
Notas:
(1) Ferreira, José Medeiros. Ensaio Histórico sobre a Revolução do 25 de Abril, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa, 1983, p. 131
(2)Cruzeiro, Maria Manuela. Costa Gomes, o último Marechal, Editorial Notícias, Lisboa, 1998
(3)Vasconcelos, José Carlos. O Anti-herói do 25 de Abril, Visão, 2 a 8 de Agosto, 200
(4)Cruzeiro, Maria Manuela. Costa Gomes, o último Marechal, Editorial Notícias, Lisboa, 1998.

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