Livro

Havíamos regressado a casa, finalmente, uns dias antes do 25 de Abril. Tínhamos andado pelo estrangeiro, fugidos, à espera que a situação do Zé se definisse. De tempos a tempos era isto.
Voltámos na convicção de que o perigo de prisão tinha passado. No dia de chegada, antes de nos deitarmos, queimámos tudo quanto era papel que pudesse incriminar-nos. Eram tantos – ou a nossa minúcia tão grande – que a sanita em que decorreu a operação estalou com o calor. (Confesso que, até hoje, continua rachada porque sempre que tenho obras em casa me esqueço de a substituir – e às vezes interrogo-me se no subconsciente a quero assim, testemunho concreto e visível de que o fascismo existiu…). Depois, pela noite fora, fizemos ainda inúmeros lançamentos da varanda do nosso quarto, de rolos de jornais clandestinos atados com um cordel, para os pátios do casario do Bairro das Colónias. Para que alguém os lesse e aproveitasse com aquela operação de limpeza. Materiais clandestinos eram sagrados. Evitávamos desperdiçar todos os que, pelo seu conteúdo e actualidade, constituíam um meio de informação importante acerca do que se estava a passar no País e nas Colónias.
Só então ficámos em paz. Porém, efémera. 

Ao alvorecer, tal como era prática deles naquelas circunstâncias, tocaram-nos à porta e, à mesma hora, à porta de mais uma dúzia de antifascistas, em Lisboa. Quase em simultâneo, o nosso telefone começou a soar ininterruptamente: eram jornalistas e familiares de amigos que também tinham sido presos, querendo avisar-nos da vaga de prisões. A informação estava a chegar aos poucos aos jornais. Para nós, era tarde. Entraram-nos pela casa dentro três agentes da PIDE/DGS e um inspector que informou, imediatamente, o Zé de que «estava detido para averiguações» – a fórmula do costume. Mandaram-no arranjar com brevidade e, enquanto um deles se colou à porta entreaberta da casa de banho, os outros dois passaram a casa a pente fino. Procuravam algo que o incriminasse.
Finda a busca esmiuçada, começaram a atirar energicamente para o chão os livros que retiravam das estantes. Ao fim de poucos minutos, tinham umas dezenas de livros seleccionados para apreensão, acumulados em pilhas – na maior parte, com base em critérios evidenciando a sua profunda ignorância – e eram inúmeros os que atapetavam o chão da sala.
Enquanto isto decorria, as crianças dormiam. A nossa filha R., ainda bebé, provavelmente sonhava com ursinhos e gaivotas, mas escondia um manancial de informação capaz de lhes alimentar semanas de interrogatórios. Ao toque da campainha da rua, antes de lhes abrirmos a porta, corremos para o carrinho dela e colocámos a agenda do Zé debaixo do colchão. (Na véspera, tínhamos evitado destruí-la por conter um sem número de anotações importantíssimas, algumas mesmo imprescindíveis). Embora tivesse admitido que aí não iriam, logo que vi oportunidade fui lá buscá-la e passei-a à nossa empregada, que a escondeu prontamente junto ao corpo. Pedi-lhe entre dentes e entre portas que fosse às compras e a deixasse em casa de uma vizinha. Eles obrigaram-na a mostrar a cesta, estipularam-lhe um tempo para a saída, mas deixaram-na partir. 

Cerca de uma hora após a invasão da casa, o Zé assistia na sala à operação «tiro à Cultura» e ao amontoar da caça. Vestidos de fato e gravata, os três agentes avançavam zelosos e velozes no empilhar de livros, sob o olhar atento do inspector. Todos praticamente em silêncio.

Eu decidira cumprir a rotina matinal das crianças e, por isso, às tantas, fui acordar o nosso filho J. Com três anos e meio, frequentava o colégio Fernão Mendes Pinto, em Benfica, e a carrinha passava cedo à nossa porta. O tempo já escasseava mas eu fiz questão de o mandar para a escola, como sempre. Não queríamos que ficasse em casa, assistindo a tudo.
Conduzi-o do quarto para a casa de banho, onde acabei de o arranjar. Dada a estrutura do apartamento, a passagem pela sala era inevitável. Sem ter conseguido encontrar, durante esses instantes, uma explicação plausível e adequada para o cenário que o J. teria obrigatoriamente de atravessar, optei por nada lhe dizer. Além disso, decidi abreviar, tanto quanto possível, a despedida do Zé. Imaginei o que estaria a sentir, sabendo que contava com anos de cadeia pela frente. Foi por essa razão que ensaiei – sem sucesso, como se verá – fazê-lo passar rapidamente para a cozinha, sem lhe dar tempo a que se fosse instalar ao colo do pai. Dei-lhe a mão e avancei decidida. Entrou, pois, na sala, sem qualquer preparação prévia.

Viu todos aqueles livros no chão, quatro homens bem vestidos folheando-os, e o Pai sentado num sofá. A cabeça dele rodava para um lado e para o outro, em movimento rápido, espantado com a animação invulgar daquela sala. Viam-se os seus olhos brilhando de alegria e imaginava-se o que o deslumbrava – Tantos livros ao estender da mão! Atravessou a sala e foi dar um beijo ao Pai. A seguir, correu para junto dos livros, parou, e dirigiu-se aos pides com um «Olá!» esfusiante, no seu estilo habitual de comunicação. No outro canto da sala, simulando tranquilidade mas com vontade de lhe bater, eu. Eu esperava que ele me obedecesse quando o chamei, veemente: «Vamos?». Nada. Ou por outra, foi então que, olhando-me de frente, e com o vozeirão que se lhe conhecia, me interrogou: «Ó Mãe, quem são estes amigos? Estão a ler os nossos livros?»
E dirigindo-se ao Zé: «Ó Pai, eu hoje não quero ir à escola, vou ficar também a ver os livros com vocês-»
Tive de o puxar (à força) até à cozinha. Contrariado no seu apelo, enquanto tomava o pequeno-almoço, insistia na pergunta «Quem são aqueles amigos, Mãe?» e eu continuava sem saber o que responder. Irritadíssima, a dada altura, apenas lhe disse num tom meio zangado: «Não são amigos, meu filho!»
Bastou. Pegou na «pasta» da Infantil, assumiu uma expressão de quem ficou esclarecido e exclamou (peremptório): «Não, Mãe? Então vou para a minha escola!»

Adaptação de um texto publicado in Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006

Anúncios