Crianças anos 60

 
Um texto de Cecília Cunha (*) 

I.

Trilham-se os Caminhos da Memória também com histórias de gente anónima, que tem em comum o ter sido vítima de um regime: o fascismo cai sobre as pessoas como uma manta negra que tudo atabafa.

É neste sentido que para aqui trazemos episódios que pertencem ao mundo das crianças que cresceram sem liberdade: auscultamos a forma como sofreram e reagiram, cada uma no seu lugar, como então era possível à custa de separadores sociais e culturais.

Como é que as crianças tomaram consciência do país amordaçado? Mais: que crianças puderam tomar contacto com as formas de repressão e de resistência? E qual o efeito da ditadura sobre as crianças mais pobres?

Responder as estas questões exige que se aceite uma premissa: as crianças não estavam imunes aos efeitos da ditadura, porém tinham a sua própria percepção e vivência. Os episódios que se seguem são configurações que não deixam cair no esquecimento as possibilidades de ser criança entre 68 e 74.

E por se tratar de várias possibilidades, arriscamos dizer que o fascismo trouxe uma outra consequência: a que atesta uma impossibilidade de pertencer a uma geração homogénea. Antes do 25 de Abril as crianças não brincavam umas com as outras: brincavam com aqueles que pertenciam ao seu universo estanque.

Entregue a adultos, a luta e a ditadura recortaram várias formas de se ser criança em Portugal, antes do 25 de Abril: lidemos com episódios que brotam de contrastes. Percebamos então como crescer pôde ter contornos e efeitos tão distintos: são episódios soltos, ao sabor da percepção das crianças, que captam o mundo assim, sem a marca de conceitos. É que só os conceitos dão fio condutor aos factos e sentido maior às histórias. Trabalha para isso a memória que guardamos daquilo que nos marcou quando éramos miúdos, e se ser miúdo raramente é fácil, naquela passagem de década a infância e a adolescência eram como pássaros encarcerados em gaiolas.

Servem as imagens que acompanham este texto para documentar dois registos diferentes de vida, de crianças, hoje cidadãos comuns. Sem que fosse para leituras destas que foram fotografados, estes momentos inscrevem-se em contextos e universos apartados, separados não pelos anos, antes porém pelos conteúdos (ou formas de vida).
 

II.

O homem que foi menino da aldeia lembra-se de ser criança e de uma outra criança da sua idade, um dos irmãos mais pobres da aldeia em que vive, a quarenta quilómetros de Lisboa.

Em 1968, Outubro, era o primeiro dia de escola e todos entraram na sala de aula, que tinha a configuração que todos sabemos; havia a obrigatoriedade de um livro de leitura obrigatório (e que tanta gente recorda hoje, com uma pontada de saudades do antigamente) e os meninos não sabiam comportar-se. Lembra-se dos gritos da professora nova que era sempre velha, a contrariar-lhes a desorganização, assim que tropeçaram uns nos outros, que eram meninos da rua e não sabiam alinhar-se à entrada. Mas o pior veio quando sentados: a professora levou as mãos à cabeça, num gesto que prenunciava as reguadas – todos sabiam que o objecto inanimado depressa ganharia vida, numa extensão daqueles braços que só podiam apontar, escrever com giz na ardósia e espancar por castigo.

A professora reparara no menino mais pobre da aldeia, que nunca se assoava e que vinha descalço – todos os outros meninos sabiam que vivia num barracão com mais sete irmãos, que eram desgraçados a partir do dia em que a mãe fugira com outro e que o pai aperfeiçoara a vocação de bêbedo na escola das duas tabernas sempre abertas para a pequena comunidade em que todos se conheciam e se cruzavam. Todos o conheciam e chamavam, não pelo nome próprio, mas por uma alcunha cruel.

Viram a senhora professora pular do estrado, direitinha ao menino. Sem tempo sequer para alcançar a régua, a professora disparava chapadas a torto e a direito, o pequeno guinchava, por instantes alheio à comichão dos piolhos: a turma paralisou nesse momento que cresceu para galgar toda a manhã do primeiro dia de escola, ameaçadora.

Só puderam seguir com o olhar o trajecto que a cena tomou, ao desenrolar-se algo que ninguém sequer traçara no campo das hipóteses: o menino fintou aquele polvo de unhas, mãos e braços e saltou pela janela, pousou no chão da rua, os pés calejados, a silhueta em fuga.

Ninguém previu (e muito menos a professora, que se perdia em leituras sobre o amor de mãe naquele primeiro abrir de livro) que o menino voltasse, um pontapé bem ferrado na porta da sala de aula: vinha esgazeado e feroz com uma faca na mão, para a matar. Convicto, matava-a mesmo. Quem não viu mais nada foi a professora, tomada por achaque que a deitou por terra, mas no chão de ladrilhos que a beata limpara escrupulosamente e por ordem do senhor padre. Adivinha-se um fim de manhã de Outubro a fechar esta cena. Sumária e sem hipóteses de sumário.

Nessa tarde os meninos não voltaram à escola e puderam correr, vigiar as armadilhas para os pássaros e mergulhar na ribeira. Nem se lembraram mais do menino da família mais pobre da aldeia.

Este episódio deu-se a quarenta quilómetros de Lisboa, e pode ilustrar uma infância que o país albergou, teimoso em manter e incrementar uma forma de escola e de vida. Salazar espreitava os meninos, por cima do quadro negro. E abandonava-os quando corriam nos campos e faltavam à catequese.

Assim, entre 68 e 74, não havia espaço para uma geração, antes possibilidades de ser criança à medida do meio em que se nascera e por violentos contrastes. Senão vejamos.

III.

A menina que frequentava o Jardim Infantil vinha da avenida de Roma pela mão do pai, que a levava entre beijos de despedida e numa atmosfera de satisfação que parecia franquiar a entrada num casulo: encontravam-se com os outros pais e crianças ao portão. Os pais destas crianças tinham amigos presos e gesticulavam entre discursos curtos e protestos frente à televisão, que transmitia umCrianças anos 60as Conversas em Família. A menina tinha com ela uma outra proposta de família e daí outra escola, diferente e até oposta à escola da aldeia. Na sua escola, pretendia-se uma educação nova.

Daí o casulo: era como se o Jardim Infantil se oferecesse como excepção, intramuros e aparentemente alheio ao que corria lá fora.

Não por acaso (?), dias havia em que o pai da menina dava uma outra volta, a evitar o espaço enorme que fazia da alameda da Cidade Universitária um extenso campo de batalha: os estudantes corriam e davam gritos de luta e de desespero com os cães e a polícia de choque atrás. Isso, a menina não via, percepcionava pelos comentários que depois se faziam entre adultos, em surdina. A atenção dela captava episódios soltos, suficientes para construir um comportamento: foi crescendo, a propósito dessas situações que não via, mas sabia.

Os pais, esses caíam numa contradição benigna, ao educarem-na para ser diferente daquilo que o poder e as escolas oficiais pretendiam: entre outras coisas, no Jardim Infantil os meninos podiam escrever no jornal de parede, tanto críticas como sugestões. Numa ocasião, a menina foi ao gabinete chamar a directora – “criticamos a Lucinda por deixar a escola estragar-se”. E a directora, que era também a dona daquele espaço e daquele projecto, desceu à sala de aula, para responder aos meninos da turma. Disse que se a escola estava estragada, isso também lhes dizia respeito, porque todos colaboravam para isso. Assertiva, demonstrou que passava dificuldades e que todos tinham que ser solidários. Os meninos levaram esta lição para casa e para a vida. Sumariamente. E sem hipóteses de sumário.

Um dia saíram, como tantas vezes faziam. A carrinha levava-os para uma aprendizagem em aberto: puderam visitar a Lisnave, grande demais para o tamanho das crianças, mas lugar de cheiros e ruídos fortes. Mas nada como aquela visita à Marinha Grande: a menina do Jardim Infantil estancou ao reparar no menino que preparava a fornalha, mergulhado num calor que toda a turma jamais suportaria: era um miúdo da idade deles mas nunca soubera acerca de recreios e visitas de estudo – talvez os outros meninos do Jardim Infantil se tenham questionado acerca dos motivos que o prendiam a trabalho tão duro. Estava camuflado com um rosto de cinza e avermelhado pela fornalha que depois proporcionaria lindas peças de vidro: aquelas peças jamais iriam à mesa da família daquele menino, que passava longas jornadas naquele buraco.

Aquela cena pareceu uma recriação do inferno. Os livros que os meninos do Jardim Infantil liam, não falavam de meninos assim, imunes a toques de fantasia e sem finais felizes. E a biblioteca do Jardim Infantil talvez ganhasse foros de paraíso e de refúgio, face àquele mundo quente, pegajoso e insuportável.

Por muito que funcionasse como uma espécie de casulo, na extensão da família que queria os seus meninos e meninas protegidos do mundo cruel que o regime parira, o Jardim Infantil tinha essas coisas, de dar a conhecer o mundo real que aquele dia trouxera, qual revelação: os olhos do menino sobressaíam no buraco, azuis, cravados nos olhos dos meninos do Jardim Infantil. A menina não os conseguiu nunca esquecer.

Mas no espaço da escolinha que não era o da escola do menino pobre da aldeia (se é que o esse menino teve alguma vez uma escola) aconteciam outras coisas, pelo menos inquietantes: havia um professor recém-chegado da prisão mas havia recomendações para não comentar esse facto. Pouco se sabia. A menina e outros dois meninos tiveram um dia uma oportunidade de lhe falar, na pequena sala de estudo: era uma sala muito pequena e com uma única janela, junto ao tecto. Surgiu a conversa e a menina atirou, “Zé Francisco, quanto tempo estiveste preso?” e ele respondeu que cerca de quatro meses; ela exclamou ”Afinal não foi assim tanto tempo!”. E o professor fez cair uma espécie de sombra que lhe crispou o corpo e especialmente o olhar: “Não achas muito tempo? Então imagina-te fechada esses meses todos numa sala como esta, sem ninguém”. Aprendeu-se, sem conceitos, à custa de mais um (grande) episódio.

A menina cresceu a coleccionar histórias variadas e soltas, todas presas por um fio de sobressalto que os tempos estendiam: a páginas tantas soube o que era Caxias e Peniche, nada de praias. Da praia tinha as férias todas e umas férias em que os adultos beberam taças de um bom vinho, e deram vivas à cadeira, como se estivessem estado a saborear em directo a queda naquela varanda do forte do Estoril. A televisão, por contraste, desdobrava-se em locuções para as melhoras do senhor presidente do conselho. Havia lá em casa um disco proibido que lhe chamava o Oliveira-e-Quatro.

Dois anos depois, a menina do Jardim Infantil viu que a mãe saíra à rua com um lenço (com)posto, na aldeia onde a família estava a passar as férias de verão: Salazar falecera no dia 27 de Julho de 1970 e o lenço da mãe era vermelho, num desafio, que o país vestia-se de luto. Perguntaram-lhe porque estava de vermelho nesse dia tão triste e ela respondeu que era por causa do aniversário da filha, que nascera a 26.

A televisão transmitiu o velório de Salazar e o beijo de Dona Maria ao chefe de Estado, agora na condição de cadáver. Seguiu os comentários dos pais, mesmo antes de perceber o significado de “brandos costumes”. Ia para uma das salas da casa para ouvir os discos proibidos, de Zeca Afonso, por (como) exemplo – aprendia, aprendia, no acelerar dos primeiros anos setenta.

A menina saiu do Jardim Infantil, mas levou uma bagagem composta. Entrou no liceu. Foi coleccionando histórias de resistência. O pior era saber-se que os rapazes iriam para a guerra e que ia perder os amigos que conquistara, à custa de convívios possíveis nas férias de Verão. Um deles tornou-se especial: militava no movimento associativo e nas lutas estudantis. Cresceu assim dentro dela a vontade forte de também ser como ele: ofereceu-se para engrossar as fileiras.

Em casa, junto ao apeadeiro, corria recorrentemente para a janela, alerta por causa dos gritos que saíam dum comboio em marcha: eram gritos muito diferentes de todos os que se podiam conhecer ou imaginar, espalhavam-se pela avenida da República e acabavam por convergir para um corpo de soldados que vinha para casa, de sobreviventes da guerra. A memória passa por sons como esse, do grito único dos soldados sobreviventes.

Este episódio de segundos trazia a evidência, a única evidência que podia levar à comunhão de tantos portugueses, dos jovens em particular: geração, afinal, dos anos sessenta e setenta, à mercê da maior ferida. A guerra acabara por juntá-los no mesmo contexto doloroso e inultrapassável. Sem soluções, cada um dos agora adolescentes pedia um lugar na história. A História acabou por ceder uma nova forma de vida aos jovens, o que se viu a partir dos dias de Abril de 74.

Hoje em dia, o Jardim Infantil ainda lá está, de nome Pestalozzi, na antiga rua de Malpique, mas a escola da aldeia mudou completamente, renovada na aldeia que só teve ruas asfaltadas e esgotos e luz eléctrica em todas as casas e meninos que seguiram para a faculdade e associação de moradores e… todas as coisas que não tinha há quarenta anos atrás.

Somos nós, que fomos crianças (depois adolescentes) nos anos sessenta e setenta, quem pode escancarar esta realidade e assim ser fiéis à Memória.

(*) Biografia de Cecília Cunha

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