Tribunal Boa_Hora

Extractos de um apelo ao povo português, lido aos microfones de «A Voz da Liberdade», em 21/10/70, por Castro Lobo, representante oficial em Argel do MPLA.
 

N.B. – Trata-se do julgamento de Joaquim Pinto de Andrade e mais nove elementos acusados de pertencerem ao MPLA: Álvaro Sequeira Santos (Zefus), António Ferreira Neto, António Garcia Neto, Diana Andringa, Fernando Sabrosa, José Ilídio Cruz, Maria José Pinto Coelho, Raul Jorge Lopes Feio e Rui Filipe Ramos. 
 

Em primeiro lugar, não quero deixar de sublinhar o apreço em que temos as referências feitas pela «Voz da Liberdade» ao julgamento, em Lisboa, de alguns patriotas angolanos que respondem perante os tribunais fascistas portugueses, acusados de filiação e actividades em prol do MPLA.

É-nos grato constatar mais uma vez essa prova de solidariedade dos democratas portugueses, que reforça ainda mais os laços que desde sempre o MPLA manteve com quantos, respeitando a nossa personalidade e objectivos, connosco se irmanam na luta comum contra o fascismo.

Essa colaboração significa ainda que o nosso Movimento é totalmente desprovido do sentido racial que pretendem atribuir-lhe os arautos do terrorismo português. Não somos racistas, como não somos de forma alguma adeptos da violência pela violência, mas sim orientados pela forma de luta política que o próprio inimigo nos impõe: se a violência é um crime quando inútil, criminoso se torna desprezar essa forma de acção quando não existe outra solução.

Que outra via não existe actualmente para que o povo angolano faça respeitar pelo governo português a sua ânsia de paz e de liberdade universalmente reconhecidos a todos os povos, prova – se necessário fosse -, a farsa repugnante que se desenrola actualmente em Lisboa, e em que 10 angolanos são julgados, pela horda do regime capitalista. Sob a acusação de crime de conspiração contra a segurança do estado português, assistimos na realidade ao processo sumário de todo um povo de mais de 5 milhões de homens, nessa hora submetidos a tribunais e leis que nunca reconhecemos como legítimos.

Ao povo português é dada hoje a rara oportunidade de seguir um processo que é prova insofismável  de que a luta que se desenrola há quase dez anos em Angola não é um levantamento de negros contra os brancos: essa é a explicação simplista, pela qual os que beneficiam da exploração e da guerra sem nela verter o seu sangue, pretendem continuar a enviar o povo português para os caminhos da morte e da alienação.

Entre os réus deste processo figuram indistintamente descendentes de portugueses nascidos em Angola, uns brancos e outros mestiços, como negros de várias etnias. Hoje, são todos angolanos dignos desse nome que lutam lado a lado contra as grilhetas da escravidão.

Hoje, o governo de Marcelo Caetano deu-nos a extraordinária oportunidade de poder patentear aos olhos do próprio povo português a amplitude verdadeiramente nacional do MPLA. Ao julgar em Lisboa dez angolanos acusados de filiação ao nosso Movimento, é toda a matiz das camadas sociais angolanas mobilizadas em torno da nossa bandeira que se exibe, é um testemunho de extrema gravidade que indica bem que todas as camadas sociais do nosso povo são objectivamente por uma Angola livre e independente: um sacerdote, médicos e estudantes, trabalhadores brancos, negros e mestiços, comparecem ante os tribunais sob a mesma acusação, a de lutarem pela independência de Angola.

Hoje, é um problema de consciência que pomos a todos quantos nos escutam e, seguindo o processo dos nossos companheiros encarcerados em Lisboa, dele tiram as ilações que tal facto impõe. Que cada um de vós seja igualmente um juiz. Que cada um de vós não se furte às responsabilidades que lhe cabem por cada um dos dez acusados sentados no banco dos réus. Que cada um de vós se sinta responsabilizado pelas centenas de angolanos que definham e morrem cada dia nos campos de concentração, em Cabo Verde ou em Angola. Que cada um de vós se sinta responsabilizado pela sentença condenatória que vai ser lida e que foi decidia em vosso nome.

A FPLN faz seu o apelo do MPLA. Que cada um de vós se sinta responsabilizado! A luta do povo de Angola é a nossa luta! Os combatentes do MPLA são irmãos de armas dos trabalhadores, dos estudantes, dos militantes revolucionários portugueses.

Transformemos o julgamento do padre Pinto de Andrade e seus companheiros no julgamento do colonialismo!

Por todas as formas ao nosso alcance, manifestemos uma solidariedade activa aos patriotas angolanos!

Liberdade para o padre Pinto de Andrade e os seus companheiros!

ABAIXO A GUERRA COLONIAL! ABAIXO O COLONIALISMO! INDEPENDÊNCAI PARA ANGOLA!

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