moeda escudo

Esta é uma «historinha» das prisões e da Resistência, que não sei se cómica ou se, pura e simplesmente, estúpida. De trágica ou terrível é que não tem nada. É facto que quando aconteceu a achei arrepiante mas, acima de tudo, senti-me desafortunada. 

Após dois inofensivos interrogatórios na sede da PIDE, deixaram-me isolada, a secar, sempre na mesma cela, em Caxias. Durante meses – para eu desmoralizar, claro. Como se eu não existisse. Esperavam que a táctica surtisse efeito. Acordava todas as manhãs a pensar: «É hoje que me vêm buscar para a tortura do sono…» Entretanto aguardava. Vivia como os dependentes anónimos – um dia de cada vez, definindo tarefas para o próprio dia e objectivos para o dia seguinte, e exercitando o auto controlo.
Durante meio ano, nunca fui ao recreio, nunca me foi autorizada a leitura de jornais ou de livros, nunca pude ter comigo papel ou caneta, e proibiram-me a entrada de tudo quanto pedia à família: linhas, pano, tesoura, lã e agulhas para coser ou tricotar. Nem, sequer, me deixaram entrar umas míseras aguarelas para pintar as flores de miolo de pão que fazia aplicadamente, com o intuito de as oferecer aos amigos, um dia quando saísse. Tinha apenas uma visita semanal de 20 minutos com duas pessoas da família próxima, num parlatório onde conversávamos separados por um vidro e na presença de dois agentes da PIDE. O tratamento clássico para quem estava em regime de isolamento.
Perceber-se-á, assim, que – enquanto não me juntaram com uma amiga do mesmo «processo», a Emília, (numa óbvia tentativa de nos apanharem desprevenidas em confidências que nos incriminassem) – o meu quotidiano tenha sido, durante meses, totalmente solitário e preenchido com rotinas domésticas do lava e limpa, mais uma ginasticazita e muitas voltas à cabeça. De manhã à noite filosofava. Um prazer que não controlavam nem podiam tirar-me. Voava até onde a experiência de vida me permitia ir. Tinha perdido o Alfredo havia pouco tempo e fugia, por todos os meios, de dar em doida a olhar para aquela altíssima barreira de terra, nas traseiras do Forte, a um metro de distância das minhas grades. Deliciava-me a espreitar a nesga de céu que, a custo, entrevia. Ficava horas a ver crescer florinhas amarelas na barreira e a seguir de perto as caminhadas atarefadas das formigas na terra, invertendo a marcha, muito lestas, quando recebiam recados segredados de outras (mensageiras?) que se cruzavam com elas.
Contudo, o que mais me entretinha era pôr-me à coca: ouvir e espreitar pelas frestas o que acontecia no exterior da cela. O corredor trazia-me um mundo inesgotável, pronto a ser observado por quem, como eu, não dispunha de nada para fazer, senão o que ia inventando. Encostava o ouvido à porta ou o olho a uma frincha (entre as tábuas de madeira), e ocupava-me a descortinar falas, a interpretar sons, a explicar o movimento de gente que esporadicamente passava – guardas, enfermeiras, gente da cozinha; e, também, a ouvir o bruaá das companheiras que iam e vinham de interrogatórios, que se dirigiam às visitas ou ao invejado recreio. Mas bom, bom, reconfortante, era colar a cabeça aos ferros da grade para ouvir pedacinhos que se desprendiam das conversas nas celas do lado: gargalhadas e frases soltas, despreocupadas, ou que eram propositadamente atiradas alto, para que eu as ouvisse. Solidárias e encorajantes. Às vezes, claro, contactávamos recorrendo às «universais» batidelas dos nós dos dedos na parede, usando o tradicional código. Mas como eu não estava acompanhada, esses diálogos tornavam-se perigosos e eu poupava-os para o muito importante. 
Um dia, apercebi-me de que, junto à porta da cela vazia situada em frente da minha, havia um estranho movimento. Apressei-me a «cuscar» e tive logo a certeza de que assistia à entrada de alguém que eu conhecia muito bem. Nas horas seguintes, repeti a «operação frincha» sempre que a dita porta voltava a abrir-se, e não demorei a confirmá-lo. Era ela, sim. Apesar de muito doente, também tinha sido presa. A Aida Paula. O seu passado dava garantias: àquela não arrancariam palavra – eu não tinha por que recear. 

Vivia sozinha e não lhe conhecia família alguma. Era, pois, urgente dar-lhe algum apoio, comunicar-lhe que no que me dizia respeito as coisas continuavam bem, que podia estar sossegada. Sobretudo queria que soubesse que eu estava em frente e que iria acompanhando o seu estado de saúde e as suas idas a Lisboa para interrogatório. Isso dar-lhe-ia alguma tranquilidade. Sentia que tinha de entrar em contacto com ela, mas como fazê-lo se estava do outro lado? Na minha visita semanal seria complicado enviar um recado.
Só pensava nisso. Ela, ali, a dois metros de distância.
A necessidade aguça o engenho: rapidamente encontrei um meio de lhe enviar meia dúzia de palavrinhas.

O processo afigurava-se-me fácil e com reduzidos riscos. Uma vez por semana, às quartas-feiras, emprestavam-me uma esferográfica para escrever uma carta à família. Calhava ser no dia seguinte. Preparei-me para escrever um curtíssimo texto – não comprometedor, não fosse o diabo tecê-las… – num pedacinho de papel de seda, que iria rasgar de um embrulho com roupa recebida da família. Depois, embrulharia nele uma moeda de 50 centavos que tinha comigo. Estando a porta da Aida exactamente na frente da minha porta, eu atiraria a «encomenda» como um projéctil, fazendo-o partir da minha cela a toda a mecha. Num movimento de deslize rectilíneo, a «mensageira» largaria, rasando a parte inferior da minha porta e entrar-lhe-ia a na sua cela. Fiz um rigoroso estudo e o projecto pareceu-me viável: sob as portas, havia um espaço assaz grande por onde a moeda passava facilmente, e o chão era escorregadio, sem granulados ou qualquer atrito que dificultasse a operação. Que fantástica invenção! – pensei. Nessa tarde, treinei exaustivamente. Ora sentada no chão, ora de joelhos, encostada à porta, lançava a moeda a direito pelo chão, de modo a acertar num alvo junto à minha janela. Consegui a precisão máxima naquela distância – distância praticamente igual à largura do corredor. Na posse da esferográfica, escrevi: «Chamo-me Helena Pato. Estou na tua frente. De boa saúde. Força, amiga!». Ela conhecia-me de tal modo bem que iria perceber.
Teria agora de escolher uma altura do dia em que não houvesse guarda por perto. Difícil: a secretária da guarda prisional situava-se num local do corredor bastante próximo da minha cela. Logo, havia que desencadear a «operação moeda» quando a fulana se ausentasse dali. Devido às minhas observações diárias dos barulhos, eu dominava os movimentos do corredor. Identificava-os, associando-os às diferentes horas do dia, através da tal audição atenta das vozes, do abrir das portas das celas, dos sons das campainhas provenientes das companheiras para a chamada das guardas, e do retinir inquietante do telefone interno da cadeia. Aprendi a reconhecer as guardas pelo som dos saltos dos sapatos e da passada, no andar. Algumas conversas ocasionais no corredor davam-me indicação das tarefas que realizavam, a tal ou tal hora. Descobri muito do que pensavam, à hora a que eram rendidas.
Com esse panorama reunido num quadro mental, identifiquei o momento ideal para o meu objectivo. Tudo a postes para o dia seguinte.

Sistematicamente pelas 11h30m, havia duas empregadas da cozinha que, do lado de fora da ala das mulheres, batiam à porta de ferro (fechada à chave), para que lhes fosse dada entrada. Do lado de dentro, a guarda abria e elas colocavam as panelas da sopa logo ali, junto à porta de ferro, e voltavam a sair para buscarem o resto da refeição. Entretanto, por essa hora, quase sempre tocava o telefone que se encontrava ao fundo do corredor, no extremo oposto. A guarda levantava-se da secretária, (perto da minha cela) e corria para atender, batendo com os saltos no chão. (Fosse qual delas fosse, era assim…). Depois, ouvíamo-la falando muito alto (ou ecoava…), numa conversa breve com o interlocutor da chamada. Despedia-se, regressava, rumando devagar a uma cela (ou a mais), abria a porta e dava um recado: «Hoje tem visita» ou «Arranje-se para ir a Lisboa» ou coisa do género. Seria, pois, durante esses cerca de 15 segundos que a guarda demorava na ida em passo acelerado da secretária até ao telefone, que iria ter lugar a minha operação. Eu tinha como certo que ela não iria aperceber-se de nada, ao afastar-se da minha porta, tanto mais que envolvida pelo ruído próximo dos seus próprios saltos. Quanto à perícia no lançamento, estava assegurada por muitos, muitos ensaios.

Eram umas 11h 45m, as panelas da sopa já tinham vindo e havia minutos que eu estava de cócoras, com o ouvido chegado à porta e com a moeda (embrulhada pelo papel) sob os meus dedos, em posição de partida. Quando, na rotina do fim da manhã, tocou o telefone e a guarda passou a correr, dei o balanço calculado e… ops! – aí vai ela, rumo à cela da frente. Foi imediato: Tiiiiiiiiiim…. Um som metálico. Caramba!
Por estanho que pareça, escangalhei-me a rir. Ria e tremia, ria e tremia. Pus-me rapidamente de pé, a dizer para mim mesma: «Ai, ai, ai…Porquê? Porquê?» Nem pensava nas consequências, apenas queria perceber por que razão tinha falhado, por que raio de razão, nesse dia, tinham posto ali a porcaria das panelas.
Ainda o tilintar soava por todo o corredor e eu tinha já encontrado a explicação. Um imprevisto fora a minha desgraça. Quando, meticulosamente, estudei o «processo» não previ que, nessa fatídica manhã de Agosto, as panelas da sopa viessem a ser colocadas uns bons metros à frente do habitual: rigorosamente, entre a minha porta e a da Aida.
Fui, claro, interrogada e castigada. Nessa semana foi-me «cortada a visita semanal dos 20 minutos».
Erro meu, má fortuna.

 
Adaptação de um texto publicado in Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006

Anúncios