os girassóis cegos

Um livro de contos com a Guerra Civil de Espanha em pano de fundo. Quatro histórias paralelas, mas organizadas de uma forma entrelaçada, deixam-nos sobretudo o sentimento e o sentido da derrota – todos os protagonistas são seres vencidos, porque «numa guerra entre irmãos» é inevitável que só existam perdedores.

Dos quatro contos, o segundo – «Segunda derrota: 1940 ou Manuscrito encontrado no esquecimento» – é, a meu ver, o melhor e o mais impressionante: um jovem poeta deixa um caderno onde descreve a fuga pelas montanhas com a mulher grávida, a morte desta depois do parto e os terríveis e vãos esforços para manter a criança viva; a sobrevivência que começa por ser assegurada por duas vacas, depois apenas por uma (já que a primeira morre e acaba por ser devorada pelos lobos), a terrível decisão de matar a segunda.

Trata-se de um livro sobre a memória e o seu papel na superação da tragédia – algo que, segundo se lê na citação de um texto de Carlos Piera, que serve de introdução ao livro, é absolutamente indispensável: «Em Espanha não se cumpriu o luto, que é, entre outras coisas, o reconhecimento público de que algo é trágico e, acima de tudo, que algo é irreparável».

Los girasoles ciegos foi publicado em 2004 e o seu autor, Alberto Méndez, que só escreveu este livro, morreu poucos meses depois sem assistir ao sucesso da obra, que foi grande mas não imediato Chegou este ano a Portugal, numa excelente tradução de Armando Silva Carvalho, em edição da Sextante.

O livro deu origem a um filme cujo trailer é extraído do último conto: «Quarta derrota: 1942 ou Os girassóis cegos»

 

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