Lenine  

Anos oitenta do século passado. Moscovo sob o mando do velho e doente Andropov. A conferência sindical internacional em que participava integrando a delegação da CGTP decorria burocrática e sonolenta na vetusta e simbólica Sala das Colunas. Não era mais que um número para a contabilidade das iniciativas pacifistas contra a “guerra das estrelas” no que tocava aos mísseis americanos na Europa. Discursos a fio a convidar mais ao bocejo que ao interesse. Estavam ali Sindicatos das sete partidas como podiam estar organizações de jogadores de damas ou de matraquilhos.

Tempo frio. Escapadelas não resultavam porque não valiam a pena. Uma vez, um intérprete russo convidou-nos para bebermos uma cerveja lá fora. Vamos a isso. Entrámos numa espécie de tugúrio, metia-se uma moeda numa ranhura e saía uma mijoca para dentro de uma caneca. As canecas, depois de usadas, eram apenas passadas por água antes de servirem para o próximo cliente. Casa cheia com indivíduos em pé, tristes como o tempo, a beberem por beberem, cada vez mais tristes e silenciosos conforme mais bebiam. Imagem de uma sociedade imobilizada sem que, no entanto, alguém se atrevesse então de profetizar a implosão que não tardaria.

Às tantas, a Mesa da Conferência avisa que vai haver um intervalo para uma cerimónia importantíssima. Motivo não explicitado. Ora, o que for se verá. Tudo metido em autocarros. Destino: Mausoléu de Lenine. Enorme fila de visitantes alinhados ao longo da Praça Vermelha. Nós somos VIPs, passamos à frente da fila. Ninguém protesta. Entramos, a segurança manda-me abotoar o kispo e colocar as mãos em pose de solenidade. Passagem rápida frente à múmia. Lá estava ele, Lenine, com cara cor de cera. Saímos. Cerimónia terminada, culto necrófilo prestado, regresso à sala das Colunas para mais discursos e mais sonolência.

Nunca entendi o que fazia ali aquela múmia, excepto que combinava bem com um país povoado por almas em cera, sobretudo quando discursavam. Mesmo assim, tive sorte de só ter visto só uma múmia. Em tempos, ela já tinha tido companhia. Aliás, aquela múmia foi para ali para que a outra, a de Estaline, quando chegasse a sua vez, pudesse ir para o seu lado. Depois, a segunda múmia, já quando não passava de uma múmia, caiu em desgraça e foi deslocalizada para o cemitério do Kremlin, enquanto a primeira múmia ainda lá está. Solitária. Sem consenso sobre o seu destino. Fica, não fica. Vai ficando.

 
[Texto revisto de um post publicado no blogue Agua Lisa]

 
Biografia de João Tunes

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