mpla2 

O texto que se segue é a transcrição de uma carta, datada de 1968, que foi lida numa emissão de rádio do MPLA, em Brazaville. Limitámo-nos a corrigir erros ortográficos e a introduzir pontuação, optando por manter, quase sempre, as palavras e as construções sintácticas originais, mesmo quando as mesmas são pouco «ortodoxas» em português.  

 
Soldado português! Aqui onde estou, tenho ouvido com certa regularidade programas da bendita chamada Emissora Oficial de Angola. O pretexto é distrair, mas o fim camuflado é automatizar instintos criminosos, não passa de ser capaz de matar friamente, insensível à crueldade que a tropa a que pertenço comete sobre o meu povo. Conseguiram esse objectivo? Em grande parte, sim. O exército português transformou-se num bando de carrascos que mata, tortura, a extorquir, com crueldade, mulheres, homens e velhos, crianças inofensivas, bombardeia aldeias, destrói as as lavras num puro genocídio, digno dos monstros nazis. Mas tudo se paga

 Ao fazer de ti uma máquina de destruição, o teu chefe destruiu em ti próprio tudo quanto possuías de ser humano. É o ensejo de uma máquina de destruição que nem em tempo se fez pensar. A tua desmoralização não se mete a ninguém, nem mesmo os teus próprios chefes, eles sabem, como tu, que estás destinado à morte, para que a tua morte e a dos teus camaradas sirvam para aguentar mais algum tempo. O tempo da alta finança portuguesa, e sobretudo não portuguesa, é realizar mais lucros à custa do suor e da riqueza do nosso povo-Eles preparam agora a sua ofensiva de cacimbo, eles sabem que há mais de uma larga centena de soldados, que vai perder a vida por essa Angola fora nas matas do Maiomo, como nas savanas do Moxico, na Lunda como em Malange, em Luanda e no Quanza Norte, eles sabem que o cerco inevitável se aperta tenazmente e a guerra está  perdida. Mas é preciso aguentar, aguentar cegamente contra toda a lógica, vendendo a arma ao diabo se ele corre em seu auxílio. E para isso é preciso que tu morras, que mais centenas de soldados dessem a vida em Angola e outras tantas centenas se vissem estropiados para toda a vida.É para lhes levantar um pouco o seu moral, para olhar em si as engrenagens da máquina que mata e morre sem pensar que começaram as contra-ofensivas do Cacimbo pela preparação psicológica do soldado. A nós, essa campanha psicológica com força dá-nos a medida exacta de desespero dos seus chefes, foi um tiro saído pela culatra, que vai ter tanto efeito como a famosa contra-ofensiva do Cacimbo dos vossos generais de parada. Este ano, como em 1968, não está o de esperança, ele vai ter os mesmos resultados desastrosos dos anos anteriores, por grande escala.
 
A primeira é que a iniciativa continua sendo nossa de Cabinda ao Cuando Cybango, a segunda é que os nosso sectores com tenacidade alargaram a sua actividade, consolidaram a sua organização e puderam vir mesmo aos nossos microfones dar conta de alguns dos seus últimos sucessos, como a captura do avião Dacota D-3, denunciar a falsidade da propaganda fascista, as torturas e coacções a que são submetidos os prisioneiros políticos para gravarem num magnetofone declarações inexpressivas contra nós. Para o fracasso dessa ofensiva psicológica contribuiu também de forma não menos importante a vossa propaganda contraditória e estúpida que não convence nenhum angolano e cremos mesmo nenhum de vós. Ao compreenderem assim como este povo não engoda aldrabices que nos apresentam para combater a acção do comunismo russo e chinês, para como base de salteadores que comprassem a matar, papagaios do Estado Maior obrigados a cuidar do elevado moral do seio da própria tropa. As discursatas já dadas em que Deus e a Diamanda parecem de mãos dadas com a defesa da Pátria, essa diama radiofónica …. a rádio-patriótica-hirejicas (?) de indiscutível mau gosto. Apesar dessa propaganda, não consegue libertar-se porém de um pesado complexo de culpa. Mas o seu fracasso tem em vista fazer-se perdoar os crimes praticados contra o meu povo. O dispositivo de propaganda leva para o ar baboseiras dignas dos parodiantes de Lisboa.O meio dele inspirado na frase de Mao-Tse-Tung , vivendo populações como peixe na água para nos aconselhar a tratar da impopulação, não nos dá o espírito humanitário, mas porque é necessário cativá-las para impedir que se apoie nos guerrilheiros. Igualmente da mesma dialéctica de gorila, os vossos propagandistas procuram desesperadamente despir a pele de colonialistas tentando estabelecer uma diferença entre colonialismo e despopulização. Tereis agora o que não é negado: que o colonialismo é um crime e que todos lhe chamam doença que tem por objectivo explorar os comunitários. Atiram-se frases balofas que cessam com o complexo de culpa, como o colonialismo é um fenómeno inevitável de que os países da Europa sofreram, mantendo uma pertença integração que pretendem impor da mesma forma que nos impuseram a ocupação que tanto sangue e tantos maus tratos causara ao povo.

Nós somos omissivos, utilizamos termos simples, para sermos compreendidos por outros, do povo como nós. A nossa luta tem como objectivo poder ser compreendido por qualquer camponês da baixa de Cassangue ou de Trás-os-Montes. O povo de Angola entendeu que é chegado o momento de arrancar a sua independência e fá-lo-á a qualquer preço, seja o que for necessário sacrificar e perder as vidas que forem necessárias à causa. Por mais que queiram convencer-se do contrário, a violar, a matar e a morrer, embora sejamos obrigados a matar, a ti que nos ouves, atingindo o nosso fim não és o nosso inimigo. Mataremos sem hesitar qualquer soldado português, porque tu és um obstáculo a nós do colonialismo português. Pode ser que, com a tua morte, grande parte de milhares de soldados que já morreram em Angola, na Guiné e em Moçambique sejam também um golpe de morte para o fascismo prejudicativo. Devem convencer-se que o valor de um soldado se mede pela vontade de combater e é por isso que quase todos os dias se enchem os ouvidos com fantasiosas expressões guerreiras a quem os generais de parada enfeitam com decorações, que nem eles próprios sabem porque procedem. Tu sabes melhor que ninguém que, nesta guerra em que se afundam , não há herói onde não há oficial. Tu sabes que tudo o que queres e teus camaradas desejam é ver-se livres da opressão e da guerra em que perdes a mocidade e a honra, tu sabes que é injusta esta guerra e é por isso que o teu valor de soldado se mede pela vontade de combater. O que pretendem, afinal, é despertar em ti o orgulho de mostrar-te capaz de sacrificar a tua vida para mostrares ser um soldado e um homem. Valerá a pena aceitar o desafio? Pergunta-te alguém que não hesitaria neste momento em dar a sua vida que sem o fazer para mostrar que afinal é um homem, mas fazemos em cada dia com simplicidade e votos fatídicos […..]

Tornados combatentes pela necessidade, sem esperar condecorações nem fanfarras, a diferença que há entre nós é que eu e os outros como eu fazemo-lo para defender a família, a Pátria e dignidade dos seres humanos. E tu? Não sentirás que o sacrifício vale a pena de dar a tua vida também pela tua família, pela tua pátria, pela tua dignidade de homem enleado a Portugal? Para defender a terra dos teus avós da invasão do estrangeiro, para impedir que o exército de alemães e americanos se instalem em Portugal, sem um tiro daí constitua uma ameaça permanente ao povo português? Aí sim! O teu valor de soldado pode medir-se pela tua vontade de combater e acredita-me: nessa altura vale a pena arriscar a vida, matar ou morrer.

Em Angola, tu não tens força porque não tens razão, a nossa vitória é certa e a nossa causa é justa, pensa bem! Pensa muito bem, Soldado português, e não tenhas medo.

Anúncios