Alfredo da Silva  

Para se conhecer a tradição da cultura patronal portuguesa será incontornável conhecerem-se os discursos (o público e o escondido) do maior patrão da indústria portuguesa de todos os tempos, Alfredo da Silva, que, através da CUF e à sombra do proteccionismo salazarista, construiu aquele que chegou a ser o maior complexo industrial da península ibérica e um dos maiores na Europa. Que, pelo gigantismo industrial da rede de actividades e empresas que criou e que os Mellos, seus herdeiros, ainda ampliaram mais, criou também a maior concentração operária portuguesa, aglutinando uma enorme migração de camponeses que fugidos das fomes nos campos (das Beiras, do Alentejo e do Algarve) constituíram o típico “proletariado CUF” que ainda hoje marca a paisagem humana e social de Alcântara e, sobretudo, da cidade do Barreiro. 

Com formação académica virada para os negócios, herdeiro de uma média fortuna, tarimbado na actividade bancária e na administração da Carris, Alfredo da Silva era um genuíno e entranhado homem de visão larga para o negócio e a criação empresarial mas senhor de um posicionamento profundamente conservador e reaccionário. Grande patrão, era autoritário de tipo autocrático, violento nos ódios, germanófilo, monárquico, sidonista, antisindical e antidemocrático. E plasmou todas essas características numa adesão indefectível ao salazarismo, sendo um dos esteios das oligarquias em que o regime do “Estado Novo” se sustentou. Na criação inicial do seu império industrial nas duas margens do Tejo mas progressivamente expandido na vasta área industrial barreirense, que coincidiu com o período republicano e com um sindicalismo de forte influência anarquista pela frente, Alfredo da Silva envolveu-se no embate brutal frente às reivindicações operárias (em que as mulheres ocuparam lugar de destaque na luta) que procuravam minorar as terríveis condições de exploração que era arrastada pela gigantesca e impiedosa grande industrialização cufista. Enfrentava contestações e greves com toda a brutalidade, indisposto a cedências, não permitindo que continuassem com emprego os que não se mostrassem dóceis e se destacassem em qualquer acção de classe. Mas, simultaneamente, desenvolveu um estilo patronal de tipo paternalista e assistencialista para com os seus empregados e operários, que gerou e expandiu um mito (que ainda hoje perdura) de “patrão amigo e protector”. Esta dualidade, nem sempre percebida, gerava reacções contraditórias, donde terá sido o patrão mais odiado pelos sindicalistas e o mais amado pelos “operários agradecidos” (os baixos salários e as condições de alta e intensiva exploração do trabalho eram “compensados” por uma rede de assistência médica, habitação social, escolas, previdência, abastecimento de géneros, associativismo desportivo, actividades lúdicas). Assim, a Operárias da CUF em grevehistória da CUF é também a de grandes e duras greves, primeiro no período republicano (1910-1919), depois em pleno salazarismo (com destaque para as de 1943), a que se seguiu um longo período de “acalmia” que o aparelho repressivo se empenhava em vigiar e jugular (a GNR estava implantada com quartel dentro das fábricas, os aparelhos internos da Legião e dos “bufos” da PIDE eram expeditos a denunciar os movimentos reivindicativos logo na fase de germinação, as células comunistas eram alvo de controlo e repressão).     

Como entender então que um grande patrão hiper-autoritário e repressivo, incapaz de suportar um operário de espírito reivindicativo, possuidor de um ódio de classe exacerbado, como era Alfredo da Silva, conseguisse difundir e fazer perdurar (até à actualidade) uma imagem-mito de “patrão amigo e protector”? Em grande parte, o efeito foi conseguido através da duplicidade do seu discurso, como o demonstra Vanessa de Almeida num oportuno livro dedicado às greves na CUF de 1910-1919 (*). Esta historiadora e funcionária autárquica no Barreiro, ao desbravar as actas da administração desse período, revela o que chama de “discurso escondido” de Alfredo da Silva, aquele que produzia “entre os seus pares” e onde expõe as linhas de implacabilidade repressiva, as regras do autoritarismo mais violento, onde o “factor trabalho” é sempre visto como um “custo”. Um discurso que Alfredo da Silva camuflava quando das suas sortidas inesperadas às fábricas, cumprimentando pelo nome e ouvindo queixas, prestando-se a corrigir os pequenos despotismos de chefes e encarregados, tão avaro a aumentar ordenados e melhorar condições de trabalho como pródigo a incrementar a “obra social” que casava os trabalhadores com a CUF, ali trabalhando, ali vivendo, ali abastecendo-se, ali indo ao médico, ali lhes nascendo os filhos que depois ali iriam à escola, ali frequentando o grupo desportivo da empresa, ali desenvolvendo o espírito de casta de pertencerem à “família CUF”, mal pagos e super-explorados mas membros simbólicos de uma “aristocracia operária” em país de ditadura e trabalho incerto e mal pago.

 
(*) – “Um discurso escondido, Alfredo da Silva e as greves na CUF durante a Primeira República – 1910-1919”, Vanessa de Almeida, Editorial Bizâncio.

Imagens – O Grande Patrão e operárias da CUF em greve.

 
[Texto publicado originalmente no blogue Agua Lisa]

 
Biografia de João Tunes

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