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Cecília Cunha, que a partir de hoje é colaboradora deste blogue, descobriu-o logo nos primeiros dias da sua existência: é dela o mail que aqui se refere. Foi também a professora de 12º ano que organizou a visita a Peniche, que a Sarah P. Saint-Maxent descreveu. Joana Lopes

 
Um texto de Cecília Cunha (*)

Gostaria de relembrar o liceu Camões (faz este ano cem anos). Vejo-o, primeiro que tudo, como um espaço composto por espaços: o ginásio, as salas, os corredores… Sobressaem no conjunto, no entanto, aqueles dois pátios: esquadrias cuidadosas, gizadas pela mão do arquitecto, feitas para albergar gerações. Nós fomos mais uma.

Chegámos antes de Alberto Ferreira, raparigas alinhadas para sermos um presente dos anos setenta dado à história do liceu: íamos inaugurar a «secção feminina» em sessão solene. O reitor chamou-nos para avisar (o dedo em riste) que estávamos ali por favor, que aquele era um liceu masculino. Nessa altura, nesse mesmo dia, talvez Alberto Ferreira aguardasse melhores dias, ainda com sequelas da sua prisão política ou num qualquer registo de clandestinidade. Entre tantas, uma coisa é certa: ele sabia que já correra em Paris o Maio de 68. Uma ou outra de nós tinha apenas uma vaga ideia disso.

Posso então escolher um pátio, repleto de manchas brancas (as nossas batas), lugar de brincadeiras, mas vigiado. Escolho esse pátio e entrego-o às vontades da vice-reitora, que mandava espiar as meninas. Assim, posso converter o recreio numa prisão, campo em que jogávamos ao «mata», dia após dia, como se nada se passasse em todo o mundo lá fora. Os rapazes pertenciam ao outro pátio e os funcionários policiavam o corredor, a sustentarem a impossibilidades de nos cruzarmos.

À distância de todos estes anos, sabemos hoje que tínhamos como alunos e alunas uma vida muito diferente daquela que marcava Alberto Ferreira, mas todos estávamos sob vigilância e confinados a espaços fechados. Essa pré-existência comum funcionou como uma afinidade, integrou-se na relação que veio a nascer entre alunos(as) e professor.

Aconteceu Abril e Alberto Ferreira chegou, a inaugurar um novo ano lectivo, ainda a recuperar da prisão e da proibição de leccionar, para nos ajudar a rasgar as esquadrias. A sua imagem colou-se a novos tempos e a um novo liceu: identificámo-lo como arauto da liberdade. Nem estranhámos quando se apresentou. Foi como se Alberto Ferreira surgisse na ordem natural que marca as transições e as boas surpresas. Apareceu e foi amor à primeira vista, a primeira aula.

Digamos (à custa da nossa fotografia) que o liceu acordou para uma época de grandes viragens. E ninguém podia melhor captar a alegria e a plenitude desses dias do que o nosso mestre: repare-se que é ele quem domina o centro, vaidoso por nos ter, numa pose que dá coesão ao grupo. O grupo, éramos nós, marcados por todas as suas aulas. Uma a uma. [Clicar na fotografia para a ver com maior dimensão.]

E que aulas? Muito provavelmente falámos de Sócrates, de Newton e de Locke. De certeza que abordámos o idealismo e o distinguimos do materialismo. Porém, era a facilidade com que debatíamos tudo que nos tornou tão felizes e vivos. A própria fotografia acusa um estado de graça. No pátio, estamos felizes como uma juventude inteira, com uma mais-valia que muitos não desfrutaram: a presença (a simples presença) daquele mestre.

Havia nele uma série de características físicas, únicas, e uma beleza distante, própria de um estado adulto e vivido. Mas Alberto Ferreira impunha-se pelo conjunto que fazia dele uma figura. Mais: uma referência para nós. Era uma revelação e personificava um universo de atitudes e de princípios sólidos (muito diferentes dos da vice-reitora).

Alberto Ferreira não precisava de contar os pormenores da sua luta, mas transmitiu-nos o que passara nas mãos da pide, uma única vez, com um discurso sucinto e resguardado. A agitação em que caiu e o que não sei descrever, disse tudo. A maioria do ano, o mestre não falava dele. Essencialmente falava-nos do que pensavam os homens da Cidade. E sabia ouvir-nos.

Por tudo o que atrás fica dito, é fácil perceber porque se tornou mestre: no nosso lugar de eleição, a sala de aula, celebrámos uma relação completa e de respeito mútuo. Crescemos como grupo turma. Evoluímos dos jogos no pátio para uma forma de adolescência capaz de exercer a crítica, a leitura, a polémica e o respeito no correr dos diálogos. E elegemos Alberto Ferreira como uma espécie de chefe nos tempos de paixão que todos vivíamos. A fotografia indicia essa espécie de harmonia, esse património.

Hoje, é surpreendentemente fácil concluir que foi importante que Alberto Ferreira cunhasse os nossos percursos e descobertas, como que pré-destinado a dar sentido à vida nova a que o liceu Camões também acedera. Sem o mestre, tudo teria corrido de forma diferente. Sem ele, teríamos sido mais pobres.

Este ano, em que o liceu Camões completa cem anos, cumpre inscrever esta fotografia na história de uma escola: o mestre Alberto Ferreira foi parte integrante dessa história – a nossa.

 
Biografia de Cecília Cunha

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