Lidice

No passado dia 10 de Junho parti para a República Checa, de que só conhecia Praga, para uma mais vasta visita, em particular para poder conhecer o campo de concentração de Terezin e o memorial da aldeia mártir de Lidice. A data não foi escolhida por acaso, já que o massacre de Lidice se iniciou no dia 10 de Junho de 1942, pouco depois da meia-noite.
Lidice é um daqueles casos em que o regime Nazi demonstrou da maneira mais cínica e brutal toda a sua bestialidade. Apesar de que o que se passou em Lidice em nada ficar a dever aos horrores dos campos de extermínio – em certo aspecto até terá sido mais requintado, cruel e vingativo – o certo é que os factos são pouco conhecidos, porque pouco divulgados. Pretendo aqui dar uma modestíssima contribuição. 

É sabido que o que motivou o massacre de Lidice foi o atentado efectuado a 27 de Maio por paraquedistas checos, vindos de Inglaterra, e que vitimou o Reich Protector Heydrich, um dos delfins de Hitler e um dos ideólogos da Solução Final. Enfurecido pela morte de um de seus mais leais seguidores, Hitler ordenou ao seu substituto que não poupasse vidas para achar os responsáveis pela morte do oficial nazi e vingar-se dos checos. Seguiu-se uma retaliação sangrenta e generalizada das tropas nazis contra a população civil checa.
Em 10 de junho, aconteceria aquela que se tornaria na mais tristemente famosa pela sua crueldade. A Gestapo suspeitou que haveria ligação entre a família Horák, na pequena vila de Lidice, perto da capital, e um dos membros do comando paraquedista. Perante esta suspeita, nunca confirmada, foi tomada a decisão de vingar Heydrich em Lidice. Mas não foi uma simples vingança, não se «limitaram» a chegar, matar os seus habitantes, lançar fogo à aldeia e depois seguir, como fizeram por toda a Ucrânia e Rússia. (Sobre estes factos veja-se o filme «Vem e Vê»)
As tropas alemãs chegaram à aldeia pouco depois da meia-noite e cercaram-na. Todos os homens com mais de quinze anos – eram 173 – foram separados das mulheres e das crianças, colocados num celeiro na quinta dos Horák e fuzilados em pequenos grupos nesse mesmo dia. Quando já havia uma pilha de mortos os que se seguiam eram obrigados a subir para cima da pilha para serem fuzilados. Para que não restasse algum sobrevivente, foram aos hospitais à procura de habitantes internados e mataram-nos. E até foram ao requinte de iLidice r à pocura de um homem que, tendo mudado de turno na fábrica, não estava na aldeia. Fuzilaram-no. Não satisfeitos com esta matança, exumaram os cadáveres do cemitério. Lidice não só não poderia ter sobreviventes, como das famílias não poderia haver memória.
Três dia depois as mulheres foram separadas dos seus filhos. Destes, a larga maioria foi assassinada por asfixia no campo polaco de Chelmno, com gas carbónico que emanava de camionetas adaptadas, a primeira forma de extermínio. As mulheres foram enviadas para o campo de Rawensbruck onde a grande maioria viria a morrer de tifo e exaustão.

Mas a vingança perversa, cruel e odiosa não estava consumada. Os nazis tinham decidido riscar Lidice do mapa, no sentido literal e não figurado. Lançaram fogo à aldeia, depois dinamitaram as casas e arrasaram tudo com tractores. Até as árvores, mesmo as queimadas, foram arrancadas pela raíz. Por fim, espalharam grãos pelo chão de toda a área para transformá-lo em pasto. Da aldeia nada ficou e até o seu nome foi riscado dos mapas da Europa. Até ao final da guerra esteve vedado o acesso a toda a área. A pequena aldeia de Lezaky, vizinha de Lidice, também foi destruída e os seus habitantes executados.
A vingança alemã causou perto de 1500 mortes em toda a Checoslováquia.
A maior parte dos acontecimentos de Lidice foram filmados pela tropas nazis, porque, contrariamente ao que sucedeu com outros crimes de guerra que cometeram e que mantiveram em segredo, a propaganda nazi fez questão de propagandear os acontecimentos de Lidice, como uma ameaça e um aviso à população da Europa ocupada. A notícia causou uma onda de terror e indignação mundial e a propaganda britânica aproveitou o facto para difundir os crimes do III Reich.
Lidice tornou-se um símbolo da crueldade nazi e um pouco por todo o mundo cidades e vilas receberam o seu nome, para que jamais fosse esquecida, como era a intenção de Adolf Hitler. Muitas mulheres nascidas no pós-guerra também receberam o nome de Lidice.

Ergue-se hoje no local da primitiva aldeia um imenso Memorial, constituído por um parque verde, um monumento às crianças assassinadas e um Museu onde sobressai um mural com os nomes de todos os habitantes, outro com as fotografias dos homens e, ainda, a porta da igreja, única testemunha deste massacre sem par. A simplicidade do museu e o seu despojamento quase total, a lembrar o vazio de Lidice, esmaga-nos.

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