R. V. Cousin - Paris 

(As Simones ou memória de Mulheres) 

No início da década de 60, a emigração para França do Portugal pobre e rural acontecia já em massa, sendo muitos os milhares de portugueses que se concentravam nos bairros dos arredores de Paris. No entanto, até meados dessa década, era ainda restrito o número de exilados políticos. Por 1963, começou a dar-se a fuga para o estrangeiro de um número significativo de intelectuais e estudantes (homens e mulheres) perseguidos pela PIDE, aos quais, aos poucos, se foram juntando infindáveis levas de jovens que recusavam partir para a guerra colonial. Quase sempre chegavam «a salto». 

Eu fui daqui em 62. Nessa altura, os exilados políticos residentes em Paris ainda mantinham um relacionamento próximo, amigável e muito solidário, mesmo quando tinham opções ideológicas distintas. O primeiro jantar de Ano Novo passámo-lo em casa de uns camaradas franceses amigos da Maria e do Jacques, com a Stella e o Piteira Santos, o António J. Saraiva, a Maria Lamas, o Lopes Cardoso e a Fernanda – todos à volta de um bacalhau cozido, temperado com manteiga porque não havia azeite, todos saudosos, todos amigos e, como diz o slogan, todos diferentes e todos iguais. Só mais tarde, por 1964, se instalou no «grupo do Quartier Latin» um clima de alguma intolerância que, em grande parte, reflectia divergências decorrentes do conflito sino-soviético. A luta contra o fascismo nunca foi unicolor, mas no exílio as diferenças ganhavam outra dimensão, ecoavam de forma especial num espaço vazio de acção política directa. No entanto, guardo, desse tempo, a memória dos laços de fraternidade a sobreporem-se às divisões, quando era humanamente preciso. Conflitos estéreis prontos a darem lugar a gestos solidários. Ficámos amigos. É ver-nos ainda hoje – e, com a idade, cada vez mais… – abraçando companheiros de exílio, adversários de então. Gente que um dia insultávamos ou a quem não falávamos e que, no dia seguinte, íamos visitar ao hospital. Exílio na década de 60 era isto.   

A verdade é que, durante anos, nos reuníamos diariamente nos cafés do centro do Quartier Latin para discutirmos a situação em Portugal, ou numa ânsia de sabermos novidades – umas chegavam-nos por carta, outras eram notícias que nos levavam aqueles que se ia juntando ao grupo dos exilados, ou gente que ia até Paris em turismo e, sobretudo, a família que nos visitava. Vivíamos trocando gestos de cumplicidade e de carinho únicos: uma posta de bacalhau recebida como encomenda, pelo correio, dava um arroz malandro para oito; o maço de Português Suave oferecido por um amigo dividia-se por quem no Café du Luxembourg, no Mahieu, ou no Capoulade, se aproximava saudoso daquela mesa. Na nossa única assoalhada – sala/quarto/cozinha – da Rue Victor Cousin, sentávamo-nos cinco ou seis no chão, sobre a manta azul-cobalto que fazia de carpete, para ouvirmos em silêncio, como um hino, o disco Verdes Anos do Paredes, sem que ninguém se envergonhasse das lágrimas que discretamente se secavam – Exílio na década de 60 era isto. A ida do CITAC (Grupo de Teatro de Coimbra) a Paris, em 1964, não deu apenas cobertura à fuga para o estrangeiro de alguns dos seus elementos: deixou inscrita nos muros dos cais do Sena – tenho a certeza – a voz do Adriano. Num alvorecer frio (creio que de Maio), com a guitarra colada ao peito, ele ergueu a sua portentosa voz por cima de um coro de dezenas de exilados e de actores que cantavam a canção do Zeca: Ergue-te ó sol de verão! / Somos nós os teus cantores / Da matinal canção / ouvem-se já os rumores / ouvem-se já os clamores / ouvem-se já os tambores…etc, etc. E, como se isso não tivesse bastado para nos reacenderem o ânimo e nos deixarem com um peculiar sabor a Pátria, já pela manhã, na Gare d´Orleans-Austerlitz, ainda se trocaram tantos abraços e beijos que, nas janelas do «Sud Express», as mãos de quem partia e de quem ficava não se largavam, e o comboio saiu atrasado – Exílio era isto. Noite memorável: não encontro melhor imagem dos amargos tempos do exílio.   

Com alguma regularidade, reuníamo-nos à noite com o propósito de organizarmos iniciativas de apoio a lutas em curso no interior do país. As petições de personalidades francesas constituíam um dos poucos instrumentos de combate ao nosso alcance. Em França, pouco mais se podia fazer abertamente na acção contra o fascismo de Portugal e Espanha, já que a vigilância da polícia francesa era muito apertada relativamente às nossas movimentações políticas. Assim sendo, mexíamo-nos como podíamos. Conseguir um abaixo-assinado de prestigiadas figuras públicas francesas, dirigido ao Presidente da República Américo Tomás, a Salazar e a outros representantes do regime fascista, reclamando, por exemplo, a libertação de presos políticos, tinha sobretudo um efeito garantido importante: informava os próprios subscritores – e, a posteriori, outros, através dos seus contactos pessoais e profissionais – acerca de situações que quase sempre eles ignoravam. Muitas vezes, o conhecimento que tinham de Portugal era apenas o de ser um país muito pobre, e mesmo isso devia-se ao facto de os nossos emigrantes não pararem de desembarcar em França. Por outro lado, conseguindo-se a divulgação do conteúdo dos tais apelos em alguns meios de comunicação europeus, alertava-se a opinião pública para aspectos hediondos da ditadura, aos quais a intelectualidade estrangeira de todos os quadrantes políticos se mostrava particularmente sensível. Havia, aliás, (mais do que a expectativa) a percepção – e às vezes ecos – de que, no nosso País, alguns governantes e dirigentes ficavam especialmente incomodados com pressões de figuras públicas, provenientes da Europa não comunista. Semelhante expectativa animava-nos para o aproveitamento da liberdade de imprensa em França, em nosso benefício.

Foi neste contexto que, em 1963, decidimos levar a cabo uma campanha pela libertação de presos políticos portugueses que se mantinham, havia muitos anos, nas prisões. Reunimos, redigiu-se o texto do abaixo-assinado, elaborou-se uma lista de figuras públicas e ops! aí vamos nós. (No lançamento do livro a que se faz referência no final deste texto, a Hélia Maia surpreendeu-me com uma cópia impressa deste abaixo-assinado – que lhe veio então parar às mãos, aqui em Portugal – com as dezenas de nomes dos intelectuais franceses que o assinaram).

Confrontados com a necessidade de contactar uma centena de personalidades num curto período de tempo, cabia a cada um dos presentes uma meia dúzia de nomes, mais coisa, menos coisa. A Noémia Simões e eu – jovens a quem não faltava militância, nem audácia – escolhemos e decidimos que partiríamos juntas para o «terreno». Apropriámo-nos precipitadamente daquelas para quem iam as nossas preferências pessoais: três prestigiadas mulheres (intelectuais de projecção mundial) e uns professores (confessadamente desconhecidos, na nossa ignorância, mas seguramente de grande projecção no meio universitário…), que facilmente encontraríamos num intervalo das aulas, ali ao lado, na Sorbonne. Destes senhores, não me recordo – ou, pelo menos, não fazem parte desta história.

Simone de Beauvoir, nessa época, passava pouco tempo em Paris mas acabara de chegar – de Avignon, suponho. Fomos encontrá-la na Rue de Seine, numa (elegante) lojinha de objectos de artesanato e papelaria, onde se sentava frequentemente à conversa com a proprietária de quem era amiga. Tínhamos sabido que não seria difícil encontrá-la ali, por trás do balcão, entre foulards pintados à mão e atraentes jóias com desenhos «nova vaga». Quando, timidamente, lhe dissemos o que pretendíamos, mostrou-se de imediato receptiva, assinou e quis ficar com uma cópia do abaixo-assinado, propondo-nos recolher outras assinaturas e enviá-lo a Sartre que se encontrava fora de Paris. Lembro-me que, durante um bom bocado da manhã, conversou connosco sobre a situação política no regime de Salazar. Mais tarde, voltei àquela boutique para buscar as (apetecidas) assinaturas e uma revista (contendo um recente artigo seu sobre a condição feminina). Tinha efectivamente deixado o que nos havia prometido e, a acompanhar, um cartão de incentivo com um simpático «petit mot» que ficou para a eternidade na cave da casa da Maria Padez, numa mala de porão. Aí deixei enterrados tudo quanto eram livros, discos, roupa e sobras de amor e do exílio, quando tivemos de regressar abruptamente a Portugal. (1)

De Marguerite Duras, nada. Não conseguimos mais do que a promessa, enviada através de um amigo comum, de que uns dias mais tarde nos receberia para se inteirar da situação em Portugal e do que pretendíamos. Que contássemos com ela, assim que terminassem as filmagens que no momento a ocupavam – creio que do filme «Le Bonheur», de Agnès Warda. Todavia, a escritora não regressou a tempo desse abaixo-assinado. Lamentámos e, decepcionadas com o facto, decidimos investir-nos com redobrado empenho em Simone Signoret. «Talvez ela nos traga também a assinatura do Ives Montand!» – pensávamos sem acreditar. Esta actriz, porém, revelava-se-nos, à partida, um enorme quebra-cabeças: era a única pessoa para quem não dispúnhamos de intermediários para o contacto.

Pusemo-nos em campo e não tardámos a descobrir num jornal diário que a nossa celebridade iria, em breve, estar presente numa cerimónia de entrega de prémios (Cinema, seria?) na Île de la Cité, num sábado à noite. À hora prevista para o evento, dirigimo-nos ao local, exuberantemente iluminado – onde os carros paravam para a saída de um sem fim de personalidades – e «furámos» pelo meio de uma multidão de parisienses ansiosos por observar de perto caras e fatos que estavam habituados a ver apenas nos filmes, nos espectáculos e na comunicação social. Já nos tinha sido difícil chegar ao gradeamento, junto do qual se acumulavam fotógrafos e jornalistas, mas agora era praticamente impossível contactar com a actriz – seguranças e polícias impediam qualquer gesto de aproximação. Simone Signoret acabava de sair do automóvel, dirigia-se para a porta de entrada e – suprema inocência… – nós não desistíamos de insistir com os «agentes da autoridade» na importância daquela assinatura. « É para reclamar a libertação de presos políticos em Portugal!» – matraqueávamos sem desfalecimento. Foi num desses instantes que lhe gritámos, a uns cinco metros de distância: «Um abaixo-assinado, Simone Signoret! Em Portugal há presos políticos cuja vida depende também de si! Queremos a sua assinatura!».

Aos 24 anos a vida era cinema. O cenário não podia ser mais belo, nem mais apropriado e nós sentíamo-nos a um passo de entrar num filme em que ela era a protagonista. Naquele dia, em Paris, ao cair da noite, Simone caminhava de vestido comprido sobre uma passadeira encarnada e o nosso olhar estava preso a ela. Foi então que parou, se voltou para trás, como se quisesse agarrar o nosso apelo e, localizando-nos com o olhar, disse na sua voz grave, tão característica: «Six, Place Dauphine, na próxima quinta-feira às 18 horas. Eu estarei à vossa espera!»
Saímos do local, as duas de mão dada, saltando como crianças. Não tínhamos a menor ideia sobre o bairro em que se situava aquele endereço, se seria residência sua ou um estúdio.
Quando no dia marcado, uns minutos antes, chegámos àquela Praça, sentimo-nos num conto de fadas (Até hoje, vejo e revejo a Place Dauphine como um lugar de encantamento). A porta do número 6 não parecia de um apartamento de luxo. Realmente não era. Tocámos e, segundos depois, abriram. Subimos uma escada em caracol «manhosa», sem comentários e demorando pouco na subida: ainda em baixo, reparámos que era ela quem, ao cimo, nos aguardava de braços apoiados na balaustrada. Estendemos-lhe a mão. Vestia uma djelaba até aos pés e não tinha qualquer maquilhagem. Entrámos para um pequeníssimo apartamento, com uma sala minúscula onde mal cabíamos as três. Nós aconchegámo-nos num sofá, ela sentou-se num cadeirão de vime (as coisas que retemos na memória das emoções…!). Eu boquiaberta – «A Simone aqui ao nosso lado, a sua vida parada, e ela a ouvir o que temos para lhe dizer… » – eu trémula, distraída, satisfeita, orgulhosa. Eu iria venerá-la até ao resto da minha vida? Conversámos horas a fio – ou assim me parece hoje – sobre a situação política e as prisões em Portugal, e também acerca da importância de algumas iniciativas que levávamos a cabo no estrangeiro. Pareceu-nos de certo modo informada, mais do que era normal naquela época. Às tantas, levantou-se e, connosco ao lado, fez um chá que tomámos sem interrompermos a conversa. Depois, leu demoradamente o texto do abaixo-assinado, assinou e, quando nos preparávamos para os agradecimentos, interrompeu-nos para sugerir: «O Ives Montand está em Praga e vai ligar-me dentro de poucos minutos. Se quiserem esperar, posso pedir-lhe que também subscreva…» Claro que esperámos. Claro que assinou. Claro que nos pusemos ambas muito atentas ao telefonema, tentando vislumbrar a reacção dele do outro lado, lá longe, na Checoslováquia. Claro que saímos a divagar sobre o que se dizia da separação do casal e das sequelas do caso Marilyn Monroe. Claro que comentámos que seria mentira: «Estavam os dois a falar tão bem!» – riamos, jovens e, momentaneamente, fúteis ou mesmo medíocres. A caminho de casa, quando já tinha terminado a excitação com as assinaturas e acalmado o contentamento pela surpresa daquele telefonema, recordámos a conversa, o interesse de Simone Signoret pela nossa luta e a sua enorme vontade de ajudar, tão claramente expressa na conversa com o companheiro, tida à nossa frente. Só então nos lembrámos de comentar que sim, tínhamos reparado, era verdade…Como engordara e desfeara nos últimos tempos! Afinal, a mulher de quem estivéramos tão próximas não tinha sido a deslumbrante actriz que queríamos conhecer, a «artista de cinema» que nós – admiradoras incondicionais do cinema francês – tanto desejávamos ver de perto, e que havíamos perseguido. Aquela com quem tínhamos passado a tarde, bebido chá e partilhado ideias e emoções era outra. Espantosa actriz, sim, seria. Igual a muitas que conhecíamos. Mas a partir desse dia, para nós, Simone Signoret era uma mulher especialmente solidária com a luta dos povos pela Liberdade. Mulheres do século XX.

(1) Para umas formalidades no Paço do Duque

Adaptação de um texto publicado in Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006

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