Manifestação em CuChi, Vietname (1965)
  Manifestação anti-americana em CuCchi, Vietname (1965)

A morte de McNamara (hoje ocorrida) traz-me à memória o primeiro abaixo-assinado que subscrevi.
Tinha 17 anos. Entrara, há pouco ainda, para a Faculdade de Medicna de Lisboa – e, quase de seguida, para a CPA – a Comissão Pró-Associação dos estudantes da mesma.
A minha entrada na vida associativa revelara bem a extensão da minha inexperiência política: tendo ouvido por acaso o que me pareceu ser uma manobra para eleger o “bom” delegado de turma do 1º ano, decidi candidatar-me contra ele, explicando a razão. Penso que só não fui banida para sempre do convívio associativo pela intervenção do Luís Lemos (que, pouco depois, escaparia por pouco às prisões do 21 de Janeiro de 1965) que, quando vários me fuzilavam com o olhar, veio em meu socorro dizendo que era de jovens assim – afoitos defensores dos princípios que consideravam correctos – que a CPA precisava. Tive 2 votos. Um foi, naturalmente, o meu. Tendo o voto sido secreto, ignoro, até hoje, quem, de entre os meus colegas, depôs o voto solidário.
O certo é que, a partir daí, me integrei, melhor ou pior, na vida política estudantil. O que explica como é que alguém – julgo que um então estudante de Direito, famoso tanto pela inteligência como pela perícia nos matraquilhos – me convidou a ler e subscrever, estando de acordo, esse primeiro abaixo-assinado.
É que estava para actuar em Lisboa, salvo erro tocando jazz, uma banda da Marinha norte-americana. E a Marinha dos Estados Unidos era aquela mesma que bombardeava as costas – e o povo – do Vietnam. Poderíamos nós, jovens conscientes, anti-colonialistas e anti-imperialistas, admitir essa afronta? Seria possível para nós ouvir tocar esses homens esquecendo que, nesse mesmo momento, havia gente a morrer pela acção dos seus camaradas de armas?
Não!
Havia que mostrar aos Estados Unidos e à sua esquadra que a música não bastava para nos fazer esquecer os bombardeamentos no Pacífico. Eu gostava (e gosto) de jazz. Mas foi sem grande hesitação que assinei o documento. Até hoje, não me envergonhei de o ter feito.

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