Vasco Carvalho

Por ocasião do centenário do seu nascimento, um texto de José Hipólito dos Santos (*)

Lamento não ter, neste momento, a possibilidade de dizer o muito que me apetecia sobre o meu convívio de 50 anos com Vasco de Carvalho.

Apenas algumas palavras sobre esse Homem íntegro, discreto, estudioso e rigoroso em tudo em que se envolvia, a nível profissional, político e cívico. Isso lhe permitia participar activamente em debates, conhecendo bem os assuntos, mas sempre aberto a novas abordagens de reflexão, a novas formas organizativas, a novas alternativas.

Sempre o conheci radicalmente anticapitalista, sua matriz de fundo, como o conheci sempre comunista, como eu próprio e muitos outros jovens na época.

Mas um comunismo sem partido único, sem polícias políticas, nem a tortura como forma generalizada de interrogatório, sem milhares de Tarrafais para onde as pessoas eram enviadas para morrer, sem Tribunais Plenários, sem condenações aos milhões, incluindo à morte; sem Sindicatos Únicos dirigidos por membros do partido, transmissores das ordens do mesmo, sem o medo generalizado dos trabalhadores, dos estudantes, das pessoas em geral, de se exprimir ou tão só de pensar!

A rejeição do capitalismo e desse comunismo totalitário tornou-se para nós numa referência de reflexão e busca. É quase um legado do Vasco.

O Vasco de Carvalho procurava conhecer as novas alternativas sociais, políticas, cívicas, ecológicas, femininas ou não, que estavam (estão) surgindo por toda a parte – a antiglobalização, os movimentos sociais (os novos e não aqueles que reproduzem os modelos do «antigamente», monolíticos e sectários), novas formas cooperativas e outras experiências sócioeconómicas fundadas sobre a auto-organização, a solidariedade, o anticonsumismo e a rejeição do valor trabalho como valor supremo de referência para toda a reflexão de esquerda.

Face à crise, raio de esperança, é tempo de voltar ao legado intelectual, político e cívico de homens como José de Sousa, Emídio Santana, António Sérgio, Vasco de Carvalho. Há que ter a coragem de pôr em cima da mesa o contributo extraordinário de homens esquecidos, caluniados mas que se mantiveram sempre de cabeça alta, que mantiveram sempre a sua cabeça ao serviço da Humanidade.

 
(*) Biografia de José Hipólito dos Santos

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