Cunhal e Soares 1974

Analisámos até aqui apenas figuras militares, que foram com toda a justiça estrelas de primeira grandeza no universo revolucionário. Contudo, o seu protagonismo não é exclusivo e outros haverá, também da parte civil, que se destacam. E, entre estes, tal como acontece com Vasco e Otelo, há uma dupla na qual, por breve tempo, o imaginário da revolução se projectou, e cuja separação tornou o sonho inalcançável. 

1. É o caso dos dois maiores líderes da oposição, ambos perseguidos e condenados ao exílio, que regressam triunfalmente ao país, para assumir as mais altas responsabilidades, logo após a vitória militar: Álvaro Cunhal e Mário Soares. Basta recordar o entusiasmo com que foram acolhidos, os paralelismos históricos, as metáforas e ressonâncias míticas que o seu regresso desencadeou no imaginário colectivo. A chegada de Mário Soares de comboio a Sta Apolónia (num claro paralelismo com os dirigentes da 1ª República, ou com Humberto Delgado) chegou mesmo a ser comparada com o regresso de Lenine do exílio em 1917. O comentário de Mário Soares a propósito – «Lenine era um grande homem, eu sou apenas um militante…» – não deixa de contrastar com o papel central que lhe estava destinado desde o primeiro dia.Álvaro Cunhal, não menos simbolicamente, realiza o seu primeiro comício no aeroporto, de cima de um carro blindado repleto de cravos, para o qual foi literalmente lançado mal saiu do avião, numa nítida antecipação do que viria a ser o alfa e o ómega da linha política do partido que chefiava: «Aliança Povo/MFA». E quando lhe perguntaram o que sentia, respondeu simplesmente: «Confiança, confiança no Povo Português!»Também o abraço do seu reencontro, presenciado com indescritível emoção pela impressionante massa humana naquele memorável 1º de Maio de 1974, ficou registado como um brevíssimo momento de unidade entre os dois «inimigos íntimos» (expressão de Mário Soares) que tudo parecia juntar, mas cujas vidas extraordinárias se limitaram a passar breves e cautelosas tangentes. 

2. Ambos filhos de oposicionistas ilustres receberam no berço a mesma formação. O pai de Cunhal foi, em 1923, Governador Civil da Guarda, cargo que fora ocupado por João Soares, pai de Mário Soares. Conheceram-se em Lisboa, no Colégio Moderno, onde CunhaDebate Soares-Cunhal 1975l foi regente de estudos de Soares que, por influência dele, aderiu ao PCP. Mas os seus encontros, na condição de exilados e opositores à ditadura, foram marcados por crescentes dissidências políticas e, para além disso, por personalidades inconciliáveis.Juntou-os o «milagre» do 25 de Abril, mas essa comunhão duraria pouco, menos ainda do que a dos heróis militares Vasco e Otelo. Porém, ao contrário do que aconteceu com estes, a separação, apesar de fatal à revolução, não os enfraqueceu nem condenou ao esquecimento. Muito pelo contrário: cada um a seu modo, vão ser referências nucleares do processo de normalização pós-revolucionária. 

3. A construção das respectivas imagens, cuja força catalisadora transborda dos dois partidos de que eram líderes incontestáveis para as grandes massas populares, processa-se de forma diametralmente oposta: Cunhal revela um extraordinário instinto dos mecanismos que regem o processo de mitização. A aura de mistério que cultiva com invejável mestria nasce justamente da consciência do risco de erosão e de desgaste que a exposição pessoal sempre provoca. Por outro lado, alimenta as mais variadas e até opostas versões nunca comprovadas, sobre hábitos privados, amizades, aventuras amorosas, gostos pessoais.Emergiu da sombra e apareceu aos olhos do povo português com um rasto mítico feito de coragem, espírito de sacrifício e convicção com que defendeu os seus ideais de sempre, em situações limite como a clandestinidade ou a prisão. E a lenda era apoiada (e até potenciada) por uma figura fascinante, a que nem os adversários eram indiferentes: porte aristocrático, rosto anguloso, farta cabeleira branca, espessas sobrancelhas negras, olhar quase fulminante, dicção estranhamente sincopada, com ríspido sotaque soviético. Tudo contribuiu para que a sua imagem ultrapassasse os limites do Partido Comunista, para se identificar com o próprio comunismo como utopia.

Ao contrário, Mário Soares surpreende pelo excessivo desprendimento em relação a regras básicas da construção mitológica. Com uma auto-confiança e optimismo a toda a prova, representa-se antes de mais a si mesmo, através da presença exuberante, dos gestos largos, mas sobretudo de uma síntese incomum de características opostas: simpático e arrogante, determinado e flexível, emotivo e racional, irritável e paciente, formal e descontraído, espontâneo e calculista. O seu instinto político apuradíssimo sempre lhe permitiu usar cada uma dessas armas de acordo com o momento, sem nunca perder de vista o objectivo, prosaicamente definido: «levar a água ao seu moinho!»

Construiu assim uma espécie de anti-mito, não pela gestão do que se esconde, mas pela ilusão de que tudo se mostra. Ou melhor ainda: que nada há a esconder. Estabeleceu com as multidões um vínculo feito de descontracção e senso comum, que as fez ver nele não a lenda que foi Cunhal, mas o amigo. O slogan Soares é Fixe!, traduz exactamente essa relação de cumplicidade com o homem comum, que nele projecta as próprias qualidades e defeitos. Cunhal, ao contrário, não é adjectivável. É simplesmente (?!) Álvaro para os admiradores e Camarada Álvaro para os militantes do colectivo partidário, onde obsessivamente se integra, a ponto de jamais falar em nome pessoal, mas sempre no «nosso partido» e de nunca permitir colocar a sua imagem em cartazes eleitorais. Condenando o culto, só o reforçava.

4. Entre o histórico encontro do 1º Maio de 1974 e o não menos histórico desencontro de 7 Novembro de 1975, data do último grande debate dos dois gigantes da cena política portuguesa (cuja dimensão mais acentua a enorme distância a que ficam os seus continuadores…), viveu-se em clima de verdadeiro psicodrama o fim do desafio português (versão nacional do euro-socialismo ou do euro-comunismo), dado o complexo de Marx que no dizer de Eduardo Lourenço une e separa, como estranha fascinação, os dois grandes partidos, PS e PCP, à semelhança do que acontece com os seus líderes carismáticos. Complexo de Marx que, se afecta o primeiro de «uma estrutural fraqueza ideológica», instala o segundo num «desdém sereno que o isola e estigmatiza, ao mesmo tempo que o mitifica em excesso». «Odeiam-se como verdadeiros irmãos!» poderia ser o título para uma história (trágica) do socialismo português.

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