
O diário de Anne Frank foi classificado pela UNESCO com «Memória do Mundo». Notícia aqui.
Sexta-feira, 31.Jul.2009
Sexta-feira, 31.Jul.2009
Costa Gomes morreu há oito anos, em 31 de Julho de 2001.
Eis uma das figuras de Abril que nunca classificaria de herói, mas antes de anti-herói, dado o perfil enigmático (quase esfíngico) que tanto inquietou os portugueses no tempo revolucionário, e continua hoje a inquietar estudiosos e investigadores.
A prová-lo os mais variados epítetos (para ficar por aqui….) com que tem sido distinguido e até a imagem dominante que deixou para a galeria de um certo anedotário político nacional. Rolha ou Cortiça foi a sinalização encontrada para a sua proverbial habilidade política, a sua capacidade de flutuar e se manter à tona de todas as tempestades.
Num registo mais erudito, são inúmeros os desabafos de impotência de todos quantos apostaram no esclarecimento da sua real dimensão na cena político-militar nacional, quase sempre de forma ultra-discreta, durante cerca de meio século.
Medeiros Ferreira, por exemplo, considera que «o papel de Costa Gomes é indiscutivelmente um dos maiores mistérios da fase pré-constitucional da Revolução» (1) e Gomes Mota confessa que só se conhecerá verdadeiramente o que ele pensava, através de critérios sobrenaturais. E foi talvez por levar a sério essa sugestão que, a dada altura, Sá Carneiro decidiu ir tão longe quanto possível nessa pista, pedindo uma audiência privada ao amigo e director espiritual do velho marechal, o padre jesuíta Cabral Abranches. Queria saber, de fonte credível, se Costa Gomes era, de facto, católico. Consta que a resposta não foi muito tranquilizadora, uma vez que o jesuíta só garantiu o que a sua própria experiência lhe permitia: que o seu velho amigo cumpria escrupulosamente os mandamentos da Igreja Católica. Se por dever, se de acordo com o dever, para usar a regra de ouro da moralidade kanteana, nem ele, seu confessor, o saberia nunca.
Uma simples consulta ao que se tem escrito sobre aquele que alguém descreveu como demasiado neutro para ser interveniente e demasiado interveniente para ser neutro, permite-nos distinguir claramente dois períodos:
Um primeiro, dominado pela visão exaltante (e exaltada!) das vozes e dos rostos da revolução, que dificilmente enquadrava o «cinzentismo» da figura, a sua visível dificuldade de expressão, a sua consabida tendência para a conciliação, quando não mesmo para a neutralização das tensões em estado de explosão iminente.
Um segundo, em que a reavaliação do papel que Costa Gomes desempenhou durante aqueles meses de brasa, tem vindo a ser proposta pelos mais amplos sectores políticos e ideológicos, valorizando-o como o principal responsável pelo evitar da guerra civil e pela estabilização do regime democrático saído da revolução.
Tudo se fez, críticas ou elogios, um tanto à revelia da figura inspiradora, comummente considerado um homem discreto e apagado, obscuro, quase sombrio, que, como dizia «se viu sem saber ler nem escrever, em Presidente da República», porque «não tinha ambições politicas, não tinha preparação politica, não tinha, sobretudo, uma máquina promocional que lhe vendesse a imagem» (2).
Com um vasto capital de queixa, quer à direita, quer à esquerda – desde traidor aliado a Moscovo, a inimigo mortal de qualquer radicalismo – Costa Gomes não contentou totalmente ninguém, e isso, longe de o magoar, era para ele a prova mais cabal da sua independência e do seu patriotismo. Na verdade, «houve de tudo na nossa revolução: spinolistas, gonçalvistas, otelistas, eanistas, sá-carneiristas, soaristas…mas ninguém ouviu falar de costa-gomistas» (3).
Daí o seu comportamento desconcertante, imprevisível e incómodo, o que faz dele um desalinhado no complexo xadrez político revolucionário. Outros, mais severos, evocarão as suas características de exímio negociador ou até de temível manobrador, treinado por longas sessões de bridge nas salas de oficiais.
Quinta-feira, 30.Jul.2009

Havíamos regressado a casa, finalmente, uns dias antes do 25 de Abril. Tínhamos andado pelo estrangeiro, fugidos, à espera que a situação do Zé se definisse. De tempos a tempos era isto.
Voltámos na convicção de que o perigo de prisão tinha passado. No dia de chegada, antes de nos deitarmos, queimámos tudo quanto era papel que pudesse incriminar-nos. Eram tantos – ou a nossa minúcia tão grande – que a sanita em que decorreu a operação estalou com o calor. (Confesso que, até hoje, continua rachada porque sempre que tenho obras em casa me esqueço de a substituir – e às vezes interrogo-me se no subconsciente a quero assim, testemunho concreto e visível de que o fascismo existiu…). Depois, pela noite fora, fizemos ainda inúmeros lançamentos da varanda do nosso quarto, de rolos de jornais clandestinos atados com um cordel, para os pátios do casario do Bairro das Colónias. Para que alguém os lesse e aproveitasse com aquela operação de limpeza. Materiais clandestinos eram sagrados. Evitávamos desperdiçar todos os que, pelo seu conteúdo e actualidade, constituíam um meio de informação importante acerca do que se estava a passar no País e nas Colónias.
Só então ficámos em paz. Porém, efémera.
Ao alvorecer, tal como era prática deles naquelas circunstâncias, tocaram-nos à porta e, à mesma hora, à porta de mais uma dúzia de antifascistas, em Lisboa. Quase em simultâneo, o nosso telefone começou a soar ininterruptamente: eram jornalistas e familiares de amigos que também tinham sido presos, querendo avisar-nos da vaga de prisões. A informação estava a chegar aos poucos aos jornais. Para nós, era tarde. Entraram-nos pela casa dentro três agentes da PIDE/DGS e um inspector que informou, imediatamente, o Zé de que «estava detido para averiguações» – a fórmula do costume. Mandaram-no arranjar com brevidade e, enquanto um deles se colou à porta entreaberta da casa de banho, os outros dois passaram a casa a pente fino. Procuravam algo que o incriminasse.
Finda a busca esmiuçada, começaram a atirar energicamente para o chão os livros que retiravam das estantes. Ao fim de poucos minutos, tinham umas dezenas de livros seleccionados para apreensão, acumulados em pilhas – na maior parte, com base em critérios evidenciando a sua profunda ignorância – e eram inúmeros os que atapetavam o chão da sala.
Enquanto isto decorria, as crianças dormiam. A nossa filha R., ainda bebé, provavelmente sonhava com ursinhos e gaivotas, mas escondia um manancial de informação capaz de lhes alimentar semanas de interrogatórios. Ao toque da campainha da rua, antes de lhes abrirmos a porta, corremos para o carrinho dela e colocámos a agenda do Zé debaixo do colchão. (Na véspera, tínhamos evitado destruí-la por conter um sem número de anotações importantíssimas, algumas mesmo imprescindíveis). Embora tivesse admitido que aí não iriam, logo que vi oportunidade fui lá buscá-la e passei-a à nossa empregada, que a escondeu prontamente junto ao corpo. Pedi-lhe entre dentes e entre portas que fosse às compras e a deixasse em casa de uma vizinha. Eles obrigaram-na a mostrar a cesta, estipularam-lhe um tempo para a saída, mas deixaram-na partir.
Quarta-feira, 29.Jul.2009

Um texto de Cecília Cunha (*)
I.
Trilham-se os Caminhos da Memória também com histórias de gente anónima, que tem em comum o ter sido vítima de um regime: o fascismo cai sobre as pessoas como uma manta negra que tudo atabafa.
É neste sentido que para aqui trazemos episódios que pertencem ao mundo das crianças que cresceram sem liberdade: auscultamos a forma como sofreram e reagiram, cada uma no seu lugar, como então era possível à custa de separadores sociais e culturais.
Como é que as crianças tomaram consciência do país amordaçado? Mais: que crianças puderam tomar contacto com as formas de repressão e de resistência? E qual o efeito da ditadura sobre as crianças mais pobres?
Responder as estas questões exige que se aceite uma premissa: as crianças não estavam imunes aos efeitos da ditadura, porém tinham a sua própria percepção e vivência. Os episódios que se seguem são configurações que não deixam cair no esquecimento as possibilidades de ser criança entre 68 e 74.
E por se tratar de várias possibilidades, arriscamos dizer que o fascismo trouxe uma outra consequência: a que atesta uma impossibilidade de pertencer a uma geração homogénea. Antes do 25 de Abril as crianças não brincavam umas com as outras: brincavam com aqueles que pertenciam ao seu universo estanque.
Entregue a adultos, a luta e a ditadura recortaram várias formas de se ser criança em Portugal, antes do 25 de Abril: lidemos com episódios que brotam de contrastes. Percebamos então como crescer pôde ter contornos e efeitos tão distintos: são episódios soltos, ao sabor da percepção das crianças, que captam o mundo assim, sem a marca de conceitos. É que só os conceitos dão fio condutor aos factos e sentido maior às histórias. Trabalha para isso a memória que guardamos daquilo que nos marcou quando éramos miúdos, e se ser miúdo raramente é fácil, naquela passagem de década a infância e a adolescência eram como pássaros encarcerados em gaiolas.
Servem as imagens que acompanham este texto para documentar dois registos diferentes de vida, de crianças, hoje cidadãos comuns. Sem que fosse para leituras destas que foram fotografados, estes momentos inscrevem-se em contextos e universos apartados, separados não pelos anos, antes porém pelos conteúdos (ou formas de vida).
(mais…)
Terça-feira, 28.Jul.2009
Com os meus sete anos de idade tive direito às minhas primeiras férias de praia no Algarve. Iria para Sagres a banhos durante dois meses nas férias grandes. Na altura, primeira metade da década de 50, o Algarve não era terra de turismo, exceptuando a Praia da Rocha e pouco mais e mesmo aí com dimensões muito modestas. Os algarvios viviam, a maioria muito mal, da agricultura, da pesca, das conservas e da indústria corticeira concentrada em Silves. Aliás, nos seus modos de viver, a pobreza algarvia era uma continuidade da pobreza alentejana, numa homogeneidade de paisagem humana e social, com a excepção da dimensão das propriedades agrícolas (mais concentrada no Alentejo e mais dispersa no Algarve) e que só as serranias de fronteira davam conta da mudança de província. E se o turismo em todo o Algarve era minúsculo, em Sagres o único forasteiro (turista) a banhos era eu. A razão deste tamanho privilégio devia-se à Dona Francisca, uma algarvia nómada que fazia temporadas de costura como modista em Lisboa, recolhendo-se à sua terra durante o verão em retorno à sua condição de pequena camponesa e cujos magros proventos compunha com os ganhos amealhados a costurar na capital. Como a senhora costurava para a minha Tia Ana, foram ajustadas com ela umas férias algarvias para o sobrinho enfezado e a quem talvez o iodo e umas braçadas ajudassem a encorpar. E foi assim, em suplemento de receita para a Dona Francisca, que ela se dispôs a ser minha hospedeira turística e eu usufrui dessa regalia a poucos acessível de me tornar um dos poucos turistas no Algarve da época.
Mas para veranear em Sagres, havia que lá chegar e usando os vagarosos meios de transporte daquele tempo e em que poucos eram os passageiros com tal destino. Fui metido mais a mala de bagagem na camioneta da carreira da Companhia dos Belos que saía de Cacilhas e ia até Faro. A mala foi guardada no tejadilho da camioneta juntamente com as tralhas dos restantes passageiros. De cada vez que a camioneta parava, o motorista subia ao tejadilho através de uma escada metálica e descarregava as malas e embrulhos dos que se apeavam e iam indicando quais os seus pertences e depois carregava as mercadorias acartadas pelos novos passageiros que se iam juntando à viagem. Eu tinha a recomendação que devia descer em Lagos, onde a Dona Francisca me esperava para me levar, noutra ligação rodoviária, para Sagres. Era a minha primeira viagem entregue a mim próprio. Perguntei como é que eu saberia quando tinha chegado a Lagos. Explicaram-me que Lagos era uma terra grande e a camioneta parava num largo, logo que lá chegasse disso me daria conta. Tentei fixar estes pormenores que eram fundamentais para me orientar. Repeti para comigo diversas vezes: “Lagos é uma terra grande e lá, a camioneta pára num largo”. Feitas as despedidas, a camioneta arrancou. Ao passar por Setúbal, a viagem já me parecia muito comprida. Tanto o tempo demorava a passar e o desfilar da paisagem pela janela me surgia monótona que me convenci que, passado que era essa tal terra grandinha de Setúbal, já não devia faltar muito para o meu destino. O Algarve, Lagos, devia ser um bocado mais à frente mas não muito. A camioneta entra em Alcácer do Sal sem me aperceber do nome da terra em que tinha entrado, vejo compridos casarios e dou com a camioneta a parar num largo. Sobressaltei-me com aquela visão de um largo, lembrando que a camioneta parava em Lagos num largo, apresto-me a sair, suando com o receio de passar Lagos e ir parar a um destino mais longínquo onde nunca mais encontraria a Dona Francisca. Peço ao motorista que tire a minha mala do tejadilho. Indico qual é e num instantinho já a tinha ao pé de mim. Olho em volta e não vejo sinal da Dona Francisca ou de quem, a seu mando, desse sinais de me esperar. Aflijo-me sem capacidade de reacção, a mala ao meu lado em companhia inerte. O motorista prepara-se para retomar a marcha mas um sexto sentido fá-lo reparar no meu ar em bloqueio aflito. Desce da camioneta e pergunta-me se está tudo bem. Eu explico que não vejo quem me vinha buscar a Lagos para me levar para Sagres. “Lagos? Sagres? Estamos em Alcácer”. É a minha vez de não entender o que se passava. “Alcácer? Mas eu quero ir para Lagos”. O motorista volta a carregar a maleta no tejadilho da camioneta, manda-me subir e diz para estar tranquilo que, quando chegasse a Lagos, me avisaria. A viagem pareceu-me interminável. E, para atrapalhar, em quase todas as terras onde a camioneta parava, havia largos. Fixava crispado o motorista pois estava sempre com um tremendo medo de o homem se esquecer de mim e passar à frente de Lagos. A solução era fixar, placa a placa, os nomes de todas as terras. Mas os nomes que ia vendo desfiarem-se perante os meus olhos nada me diziam. Cercal seria antes ou depois de Lagos? E Milfontes? E Aljezur? A concentração e o nervoso eram tantos que não toquei na merenda que me tinha sido preparada para a viagem para os confins do Sul. Não me podia distrair e o nervoso afugentava a fome. Lá cheguei a Lagos, com aviso prévio dado pelo motorista. E passada mais uma viagem adicional, já estava instalado na casa da Dona Francisca para início das minhas primeiras férias algarvias, estreando o turismo de praia em Sagres.
No regresso, tudo foi mais fácil. A camioneta dos Belos parava em Cacilhas e imobilizava-se a olhar para o Tejo, a bisbilhotar os passageiros dos cacilheiros. No meu raciocínio de então, formulei o juízo definitivo de que as camionetas estavam muito mal organizadas. Elas deviam sair de um sítio até outro sem paragens pelo meio que só serviam para baralhar os passageiros. O certo é que daquelas longas férias de praia algarvia só acessível a um forasteiro privilegiado, mais que dos banhos e das brincadeiras, que foram prazenteiras e com muito bom trato da hospedeira, no que a minha memória ficou mais marcada foi a odisseia e sofrimento para chegar a Lagos, uma terra onde a camioneta parava num largo.
[Texto revisto de um post publicado no blogue Agua Lisa]
Biografia de João Tunes
Segunda-feira, 27.Jul.2009

Mario Vargas Llosa encabeça uma comissão encarregada de construir um Museu que recordará a violência terrorista.
Artigo no jornal El País.
Segunda-feira, 27.Jul.2009

Extractos de um apelo ao povo português, lido aos microfones de «A Voz da Liberdade», em 21/10/70, por Castro Lobo, representante oficial em Argel do MPLA.
N.B. – Trata-se do julgamento de Joaquim Pinto de Andrade e mais nove elementos acusados de pertencerem ao MPLA: Álvaro Sequeira Santos (Zefus), António Ferreira Neto, António Garcia Neto, Diana Andringa, Fernando Sabrosa, José Ilídio Cruz, Maria José Pinto Coelho, Raul Jorge Lopes Feio e Rui Filipe Ramos.
Em primeiro lugar, não quero deixar de sublinhar o apreço em que temos as referências feitas pela «Voz da Liberdade» ao julgamento, em Lisboa, de alguns patriotas angolanos que respondem perante os tribunais fascistas portugueses, acusados de filiação e actividades em prol do MPLA.
É-nos grato constatar mais uma vez essa prova de solidariedade dos democratas portugueses, que reforça ainda mais os laços que desde sempre o MPLA manteve com quantos, respeitando a nossa personalidade e objectivos, connosco se irmanam na luta comum contra o fascismo.
Essa colaboração significa ainda que o nosso Movimento é totalmente desprovido do sentido racial que pretendem atribuir-lhe os arautos do terrorismo português. Não somos racistas, como não somos de forma alguma adeptos da violência pela violência, mas sim orientados pela forma de luta política que o próprio inimigo nos impõe: se a violência é um crime quando inútil, criminoso se torna desprezar essa forma de acção quando não existe outra solução.
Que outra via não existe actualmente para que o povo angolano faça respeitar pelo governo português a sua ânsia de paz e de liberdade universalmente reconhecidos a todos os povos, prova – se necessário fosse -, a farsa repugnante que se desenrola actualmente em Lisboa, e em que 10 angolanos são julgados, pela horda do regime capitalista. Sob a acusação de crime de conspiração contra a segurança do estado português, assistimos na realidade ao processo sumário de todo um povo de mais de 5 milhões de homens, nessa hora submetidos a tribunais e leis que nunca reconhecemos como legítimos.
Ao povo português é dada hoje a rara oportunidade de seguir um processo que é prova insofismável de que a luta que se desenrola há quase dez anos em Angola não é um levantamento de negros contra os brancos: essa é a explicação simplista, pela qual os que beneficiam da exploração e da guerra sem nela verter o seu sangue, pretendem continuar a enviar o povo português para os caminhos da morte e da alienação.
Entre os réus deste processo figuram indistintamente descendentes de portugueses nascidos em Angola, uns brancos e outros mestiços, como negros de várias etnias. Hoje, são todos angolanos dignos desse nome que lutam lado a lado contra as grilhetas da escravidão.
Sexta-feira, 24.Jul.2009

Mário Soares, num livro escrito no exílio no início dos anos setenta do século XX, assinalou as tremendas derrotas para a PIDE que constituíram as dificílimas fugas da cadeia de diversos dirigentes do PCP e, em 1969, do «dirigente revolucionário do L.U.A.R., Hermínio da Palma Inácio, que nesse momento era concerteza (sic) o homem mais vigiado e bem guardado do País». Antes dessa fuga, que foi aliás a última de um estabelecimento prisional gerido pela polícia política de Salazar e Caetano, já Hermínio da Palma Inácio tinha conseguido escapar da prisão do Aljube, em 1949, após ter sido detido em 6 de Setembro de 1947, na sequência da sabotagem de avionetas, na tentativa falhada de golpe da «Mealhada» contra o regime ditatorial. No Aljube, frente à Sé de Lisboa, todas as janelas eram então «gradeadas, menos uma, pequenina, numa arrecadação à altura de um 5.º andar, a caminho do gabinete de inspecção médica». Palma Inácio enrolou lençóis nas pernas, debaixo das calças, e meteu-se na fila para aí ser atendido, às 8 horas da manhã. Aproveitando um momento de ausência do guarda, utilizou os panos como corda e escapou-se para o pátio, 15 metros abaixo. Já na rua, um guarda fez frente a Palma Inácio, que o derrubou e desapareceu.
Rigorosamente vinte anos depois dessa fuga, Hermínio da Palma Inácio voltou a escapar, em 8 de Maio de 1969, da prisão da delegação da PIDE do Porto. Tinha sido novamente detido, em 20 de Agosto de 1968, na falhada tentativa de ocupação da Covilhã por brigadas da LUAR, começando por ficar no forte de Caxias, antes da de ser transferido para o Porto, para ser julgado. No princípio de 1969, um inspector superior da DGS dera conhecimento a José Barreto Sacchetti, director dos serviços e Investigação, de uma futura tentativa de introdução, por Helena Palma, irmã de Hermínio da Palma Inácio, na prisão de Caxias, de umas serras, dissimuladas nas capas de uma agenda. No entanto, dias depois da data prevista para a visita de Helena Palma ao irmão, o responsável pelo forte de Caxias, inspector da PIDE Gomes da Silva, assegurou, numa carta à direcção dessa polícia que nada tinha sido entregue àquele recluso. Sacchetti seria porém posteriormente informado por Agostinho Barbieri Cardoso e Álvaro Pereira de Carvalho, respectivamente subdirector e chefe dos serviços de Informação da polícia política, de que a agenda já se encontrava em poder de Palma Inácio.
Veja-se como tudo se passou. Para protegerem um informador da polícia infiltrado na LUAR, Ernesto Castelo Branco («Canário»), a quem a irmã de Palma Inácio tinha dado conta da vontade de fuga deste, Pereira de Carvalho e Barbieri Cardoso entregaram uma serras ao “colaborador” da PIDE. Ernesto Castelo Branco remetera as serras à irmã de Palma Inácio, que, por seu turno as entregara a este, escondidas na capa almofadada de uma agenda. Partindo para Londres, onde residia, a irmã apurara que a encomenda só tinha chegado às mãos de Palma Inácio, quatro semanas depois. Mal sabia a irmã de Palma Inácio que «a sua artimanha era já do conhecimento da PIDE», mas que esta «foi impotente para desfazer o engenho do processo utilizado» (Diário de Lisboa, 3/5/1974), pois nada conseguira encontrar na revista ao embrulho com a agenda. Foi, assim, que a fuga de Palma Inácio contou com a ajuda, embora involuntária da… própria PIDE/DGS, apesar de alguns dos seus elementos o negarem mais tarde.
Quinta-feira, 23.Jul.2009

Esta é uma «historinha» das prisões e da Resistência, que não sei se cómica ou se, pura e simplesmente, estúpida. De trágica ou terrível é que não tem nada. É facto que quando aconteceu a achei arrepiante mas, acima de tudo, senti-me desafortunada.
Após dois inofensivos interrogatórios na sede da PIDE, deixaram-me isolada, a secar, sempre na mesma cela, em Caxias. Durante meses – para eu desmoralizar, claro. Como se eu não existisse. Esperavam que a táctica surtisse efeito. Acordava todas as manhãs a pensar: «É hoje que me vêm buscar para a tortura do sono…» Entretanto aguardava. Vivia como os dependentes anónimos – um dia de cada vez, definindo tarefas para o próprio dia e objectivos para o dia seguinte, e exercitando o auto controlo.
Durante meio ano, nunca fui ao recreio, nunca me foi autorizada a leitura de jornais ou de livros, nunca pude ter comigo papel ou caneta, e proibiram-me a entrada de tudo quanto pedia à família: linhas, pano, tesoura, lã e agulhas para coser ou tricotar. Nem, sequer, me deixaram entrar umas míseras aguarelas para pintar as flores de miolo de pão que fazia aplicadamente, com o intuito de as oferecer aos amigos, um dia quando saísse. Tinha apenas uma visita semanal de 20 minutos com duas pessoas da família próxima, num parlatório onde conversávamos separados por um vidro e na presença de dois agentes da PIDE. O tratamento clássico para quem estava em regime de isolamento.
Perceber-se-á, assim, que – enquanto não me juntaram com uma amiga do mesmo «processo», a Emília, (numa óbvia tentativa de nos apanharem desprevenidas em confidências que nos incriminassem) – o meu quotidiano tenha sido, durante meses, totalmente solitário e preenchido com rotinas domésticas do lava e limpa, mais uma ginasticazita e muitas voltas à cabeça. De manhã à noite filosofava. Um prazer que não controlavam nem podiam tirar-me. Voava até onde a experiência de vida me permitia ir. Tinha perdido o Alfredo havia pouco tempo e fugia, por todos os meios, de dar em doida a olhar para aquela altíssima barreira de terra, nas traseiras do Forte, a um metro de distância das minhas grades. Deliciava-me a espreitar a nesga de céu que, a custo, entrevia. Ficava horas a ver crescer florinhas amarelas na barreira e a seguir de perto as caminhadas atarefadas das formigas na terra, invertendo a marcha, muito lestas, quando recebiam recados segredados de outras (mensageiras?) que se cruzavam com elas.
Contudo, o que mais me entretinha era pôr-me à coca: ouvir e espreitar pelas frestas o que acontecia no exterior da cela. O corredor trazia-me um mundo inesgotável, pronto a ser observado por quem, como eu, não dispunha de nada para fazer, senão o que ia inventando. Encostava o ouvido à porta ou o olho a uma frincha (entre as tábuas de madeira), e ocupava-me a descortinar falas, a interpretar sons, a explicar o movimento de gente que esporadicamente passava – guardas, enfermeiras, gente da cozinha; e, também, a ouvir o bruaá das companheiras que iam e vinham de interrogatórios, que se dirigiam às visitas ou ao invejado recreio. Mas bom, bom, reconfortante, era colar a cabeça aos ferros da grade para ouvir pedacinhos que se desprendiam das conversas nas celas do lado: gargalhadas e frases soltas, despreocupadas, ou que eram propositadamente atiradas alto, para que eu as ouvisse. Solidárias e encorajantes. Às vezes, claro, contactávamos recorrendo às «universais» batidelas dos nós dos dedos na parede, usando o tradicional código. Mas como eu não estava acompanhada, esses diálogos tornavam-se perigosos e eu poupava-os para o muito importante.
Um dia, apercebi-me de que, junto à porta da cela vazia situada em frente da minha, havia um estranho movimento. Apressei-me a «cuscar» e tive logo a certeza de que assistia à entrada de alguém que eu conhecia muito bem. Nas horas seguintes, repeti a «operação frincha» sempre que a dita porta voltava a abrir-se, e não demorei a confirmá-lo. Era ela, sim. Apesar de muito doente, também tinha sido presa. A Aida Paula. O seu passado dava garantias: àquela não arrancariam palavra – eu não tinha por que recear.
Quarta-feira, 22.Jul.2009
Em 22 de Julho de 1969, exactamente há 40 anos, o actual rei Juan Carlos foi designado pelas cortes espanholas como sucessor de Franco, jurando-lhe lealdade e respeito pelas leis vigentes – um passo que, para o bem e o menos bem, iria condicionar o futuro do país, nomeadamente todo o processo de transição para a democracia.
No Público.es de hoje, um conjunto de artigos a propósito da efeméride:
* El dedazo que valió una corona
* El rey juró lealtad a Franco y todas sus leyes
* Todos pendientes de la nueva sucesión
Terça-feira, 21.Jul.2009

Um livro de contos com a Guerra Civil de Espanha em pano de fundo. Quatro histórias paralelas, mas organizadas de uma forma entrelaçada, deixam-nos sobretudo o sentimento e o sentido da derrota – todos os protagonistas são seres vencidos, porque «numa guerra entre irmãos» é inevitável que só existam perdedores.
Dos quatro contos, o segundo – «Segunda derrota: 1940 ou Manuscrito encontrado no esquecimento» – é, a meu ver, o melhor e o mais impressionante: um jovem poeta deixa um caderno onde descreve a fuga pelas montanhas com a mulher grávida, a morte desta depois do parto e os terríveis e vãos esforços para manter a criança viva; a sobrevivência que começa por ser assegurada por duas vacas, depois apenas por uma (já que a primeira morre e acaba por ser devorada pelos lobos), a terrível decisão de matar a segunda.
Trata-se de um livro sobre a memória e o seu papel na superação da tragédia – algo que, segundo se lê na citação de um texto de Carlos Piera, que serve de introdução ao livro, é absolutamente indispensável: «Em Espanha não se cumpriu o luto, que é, entre outras coisas, o reconhecimento público de que algo é trágico e, acima de tudo, que algo é irreparável».
Los girasoles ciegos foi publicado em 2004 e o seu autor, Alberto Méndez, que só escreveu este livro, morreu poucos meses depois sem assistir ao sucesso da obra, que foi grande mas não imediato Chegou este ano a Portugal, numa excelente tradução de Armando Silva Carvalho, em edição da Sextante.
O livro deu origem a um filme cujo trailer é extraído do último conto: «Quarta derrota: 1942 ou Os girassóis cegos»
Segunda-feira, 20.Jul.2009
Anos oitenta do século passado. Moscovo sob o mando do velho e doente Andropov. A conferência sindical internacional em que participava integrando a delegação da CGTP decorria burocrática e sonolenta na vetusta e simbólica Sala das Colunas. Não era mais que um número para a contabilidade das iniciativas pacifistas contra a “guerra das estrelas” no que tocava aos mísseis americanos na Europa. Discursos a fio a convidar mais ao bocejo que ao interesse. Estavam ali Sindicatos das sete partidas como podiam estar organizações de jogadores de damas ou de matraquilhos.
Tempo frio. Escapadelas não resultavam porque não valiam a pena. Uma vez, um intérprete russo convidou-nos para bebermos uma cerveja lá fora. Vamos a isso. Entrámos numa espécie de tugúrio, metia-se uma moeda numa ranhura e saía uma mijoca para dentro de uma caneca. As canecas, depois de usadas, eram apenas passadas por água antes de servirem para o próximo cliente. Casa cheia com indivíduos em pé, tristes como o tempo, a beberem por beberem, cada vez mais tristes e silenciosos conforme mais bebiam. Imagem de uma sociedade imobilizada sem que, no entanto, alguém se atrevesse então de profetizar a implosão que não tardaria.
Às tantas, a Mesa da Conferência avisa que vai haver um intervalo para uma cerimónia importantíssima. Motivo não explicitado. Ora, o que for se verá. Tudo metido em autocarros. Destino: Mausoléu de Lenine. Enorme fila de visitantes alinhados ao longo da Praça Vermelha. Nós somos VIPs, passamos à frente da fila. Ninguém protesta. Entramos, a segurança manda-me abotoar o kispo e colocar as mãos em pose de solenidade. Passagem rápida frente à múmia. Lá estava ele, Lenine, com cara cor de cera. Saímos. Cerimónia terminada, culto necrófilo prestado, regresso à sala das Colunas para mais discursos e mais sonolência.
Nunca entendi o que fazia ali aquela múmia, excepto que combinava bem com um país povoado por almas em cera, sobretudo quando discursavam. Mesmo assim, tive sorte de só ter visto só uma múmia. Em tempos, ela já tinha tido companhia. Aliás, aquela múmia foi para ali para que a outra, a de Estaline, quando chegasse a sua vez, pudesse ir para o seu lado. Depois, a segunda múmia, já quando não passava de uma múmia, caiu em desgraça e foi deslocalizada para o cemitério do Kremlin, enquanto a primeira múmia ainda lá está. Solitária. Sem consenso sobre o seu destino. Fica, não fica. Vai ficando.
[Texto revisto de um post publicado no blogue Agua Lisa]
Biografia de João Tunes
Sábado, 18.Jul.2009
Sexta-feira, 17.Jul.2009
O texto que se segue é a transcrição de uma carta, datada de 1968, que foi lida numa emissão de rádio do MPLA, em Brazaville. Limitámo-nos a corrigir erros ortográficos e a introduzir pontuação, optando por manter, quase sempre, as palavras e as construções sintácticas originais, mesmo quando as mesmas são pouco «ortodoxas» em português.
Soldado português! Aqui onde estou, tenho ouvido com certa regularidade programas da bendita chamada Emissora Oficial de Angola. O pretexto é distrair, mas o fim camuflado é automatizar instintos criminosos, não passa de ser capaz de matar friamente, insensível à crueldade que a tropa a que pertenço comete sobre o meu povo. Conseguiram esse objectivo? Em grande parte, sim. O exército português transformou-se num bando de carrascos que mata, tortura, a extorquir, com crueldade, mulheres, homens e velhos, crianças inofensivas, bombardeia aldeias, destrói as as lavras num puro genocídio, digno dos monstros nazis. Mas tudo se paga
Ao fazer de ti uma máquina de destruição, o teu chefe destruiu em ti próprio tudo quanto possuías de ser humano. É o ensejo de uma máquina de destruição que nem em tempo se fez pensar. A tua desmoralização não se mete a ninguém, nem mesmo os teus próprios chefes, eles sabem, como tu, que estás destinado à morte, para que a tua morte e a dos teus camaradas sirvam para aguentar mais algum tempo. O tempo da alta finança portuguesa, e sobretudo não portuguesa, é realizar mais lucros à custa do suor e da riqueza do nosso povo-Eles preparam agora a sua ofensiva de cacimbo, eles sabem que há mais de uma larga centena de soldados, que vai perder a vida por essa Angola fora nas matas do Maiomo, como nas savanas do Moxico, na Lunda como em Malange, em Luanda e no Quanza Norte, eles sabem que o cerco inevitável se aperta tenazmente e a guerra está perdida. Mas é preciso aguentar, aguentar cegamente contra toda a lógica, vendendo a arma ao diabo se ele corre em seu auxílio. E para isso é preciso que tu morras, que mais centenas de soldados dessem a vida em Angola e outras tantas centenas se vissem estropiados para toda a vida.É para lhes levantar um pouco o seu moral, para olhar em si as engrenagens da máquina que mata e morre sem pensar que começaram as contra-ofensivas do Cacimbo pela preparação psicológica do soldado. A nós, essa campanha psicológica com força dá-nos a medida exacta de desespero dos seus chefes, foi um tiro saído pela culatra, que vai ter tanto efeito como a famosa contra-ofensiva do Cacimbo dos vossos generais de parada. Este ano, como em 1968, não está o de esperança, ele vai ter os mesmos resultados desastrosos dos anos anteriores, por grande escala.
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Quinta-feira, 16.Jul.2009
Para se conhecer a tradição da cultura patronal portuguesa será incontornável conhecerem-se os discursos (o público e o escondido) do maior patrão da indústria portuguesa de todos os tempos, Alfredo da Silva, que, através da CUF e à sombra do proteccionismo salazarista, construiu aquele que chegou a ser o maior complexo industrial da península ibérica e um dos maiores na Europa. Que, pelo gigantismo industrial da rede de actividades e empresas que criou e que os Mellos, seus herdeiros, ainda ampliaram mais, criou também a maior concentração operária portuguesa, aglutinando uma enorme migração de camponeses que fugidos das fomes nos campos (das Beiras, do Alentejo e do Algarve) constituíram o típico “proletariado CUF” que ainda hoje marca a paisagem humana e social de Alcântara e, sobretudo, da cidade do Barreiro.
Com formação académica virada para os negócios, herdeiro de uma média fortuna, tarimbado na actividade bancária e na administração da Carris, Alfredo da Silva era um genuíno e entranhado homem de visão larga para o negócio e a criação empresarial mas senhor de um posicionamento profundamente conservador e reaccionário. Grande patrão, era autoritário de tipo autocrático, violento nos ódios, germanófilo, monárquico, sidonista, antisindical e antidemocrático. E plasmou todas essas características numa adesão indefectível ao salazarismo, sendo um dos esteios das oligarquias em que o regime do “Estado Novo” se sustentou. Na criação inicial do seu império industrial nas duas margens do Tejo mas progressivamente expandido na vasta área industrial barreirense, que coincidiu com o período republicano e com um sindicalismo de forte influência anarquista pela frente, Alfredo da Silva envolveu-se no embate brutal frente às reivindicações operárias (em que as mulheres ocuparam lugar de destaque na luta) que procuravam minorar as terríveis condições de exploração que era arrastada pela gigantesca e impiedosa grande industrialização cufista. Enfrentava contestações e greves com toda a brutalidade, indisposto a cedências, não permitindo que continuassem com emprego os que não se mostrassem dóceis e se destacassem em qualquer acção de classe. Mas, simultaneamente, desenvolveu um estilo patronal de tipo paternalista e assistencialista para com os seus empregados e operários, que gerou e expandiu um mito (que ainda hoje perdura) de “patrão amigo e protector”. Esta dualidade, nem sempre percebida, gerava reacções contraditórias, donde terá sido o patrão mais odiado pelos sindicalistas e o mais amado pelos “operários agradecidos” (os baixos salários e as condições de alta e intensiva exploração do trabalho eram “compensados” por uma rede de assistência médica, habitação social, escolas, previdência, abastecimento de géneros, associativismo desportivo, actividades lúdicas). Assim, a
história da CUF é também a de grandes e duras greves, primeiro no período republicano (1910-1919), depois em pleno salazarismo (com destaque para as de 1943), a que se seguiu um longo período de “acalmia” que o aparelho repressivo se empenhava em vigiar e jugular (a GNR estava implantada com quartel dentro das fábricas, os aparelhos internos da Legião e dos “bufos” da PIDE eram expeditos a denunciar os movimentos reivindicativos logo na fase de germinação, as células comunistas eram alvo de controlo e repressão).
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Quarta-feira, 15.Jul.2009
Cecília Cunha, que a partir de hoje é colaboradora deste blogue, descobriu-o logo nos primeiros dias da sua existência: é dela o mail que aqui se refere. Foi também a professora de 12º ano que organizou a visita a Peniche, que a Sarah P. Saint-Maxent descreveu. Joana Lopes
Um texto de Cecília Cunha (*)
Gostaria de relembrar o liceu Camões (faz este ano cem anos). Vejo-o, primeiro que tudo, como um espaço composto por espaços: o ginásio, as salas, os corredores… Sobressaem no conjunto, no entanto, aqueles dois pátios: esquadrias cuidadosas, gizadas pela mão do arquitecto, feitas para albergar gerações. Nós fomos mais uma.
Chegámos antes de Alberto Ferreira, raparigas alinhadas para sermos um presente dos anos setenta dado à história do liceu: íamos inaugurar a «secção feminina» em sessão solene. O reitor chamou-nos para avisar (o dedo em riste) que estávamos ali por favor, que aquele era um liceu masculino. Nessa altura, nesse mesmo dia, talvez Alberto Ferreira aguardasse melhores dias, ainda com sequelas da sua prisão política ou num qualquer registo de clandestinidade. Entre tantas, uma coisa é certa: ele sabia que já correra em Paris o Maio de 68. Uma ou outra de nós tinha apenas uma vaga ideia disso.
Posso então escolher um pátio, repleto de manchas brancas (as nossas batas), lugar de brincadeiras, mas vigiado. Escolho esse pátio e entrego-o às vontades da vice-reitora, que mandava espiar as meninas. Assim, posso converter o recreio numa prisão, campo em que jogávamos ao «mata», dia após dia, como se nada se passasse em todo o mundo lá fora. Os rapazes pertenciam ao outro pátio e os funcionários policiavam o corredor, a sustentarem a impossibilidades de nos cruzarmos.
À distância de todos estes anos, sabemos hoje que tínhamos como alunos e alunas uma vida muito diferente daquela que marcava Alberto Ferreira, mas todos estávamos sob vigilância e confinados a espaços fechados. Essa pré-existência comum funcionou como uma afinidade, integrou-se na relação que veio a nascer entre alunos(as) e professor.
Aconteceu Abril e Alberto Ferreira chegou, a inaugurar um novo ano lectivo, ainda a recuperar da prisão e da proibição de leccionar, para nos ajudar a rasgar as esquadrias. A sua imagem colou-se a novos tempos e a um novo liceu: identificámo-lo como arauto da liberdade. Nem estranhámos quando se apresentou. Foi como se Alberto Ferreira surgisse na ordem natural que marca as transições e as boas surpresas. Apareceu e foi amor à primeira vista, a primeira aula.
Digamos (à custa da nossa fotografia) que o liceu acordou para uma época de grandes viragens. E ninguém podia melhor captar a alegria e a plenitude desses dias do que o nosso mestre: repare-se que é ele quem domina o centro, vaidoso por nos ter, numa pose que dá coesão ao grupo. O grupo, éramos nós, marcados por todas as suas aulas. Uma a uma. [Clicar na fotografia para a ver com maior dimensão.]
Terça-feira, 14.Jul.2009

Acaba de ser conhecida a notícia da sua morte. Este blogue publicará, em breve, um ou mais textos sobre a sua pessoa e o seu papel na luta contra a ditadura.
Para já, um texto de Maria Dionísio, republicado em 2007 no blogue «Não Apaguem a Memória!» , e um outro de Isabel Oneto, escrito quando Palma Inácio recebeu a Ordem da Liberdade.
Terça-feira, 14.Jul.2009

Organizado pelo Birkbeck Institute for the Humanities, da Universidade de Londres, decorreu em Março passado o colóquio On the idea of Communism. A identidade dos participantes anunciados – Alain Badiou, Slavoj Žižek, Michael Hardt, Toni Negri, Jacques Rancière, Gianno Vattimo, Terry Eagleton, entre outros – apontava para um encontro inédito entre superstars do pensamento contemporâneo interessadas no comunismo não tanto como núcleo programático mas como território da utopia e da experiência da mudança. E fazia também prever debates ardentes. A verdade, porém, é que os ecos foram chegando muito ténues e pouco existe na Internet sobre o acontecimento. Acaba no entanto de sair, no número de Julho-Agosto da revista Philosophie Magazine, uma reportagem crítica do evento, «Communista Social Club», da autoria de Jan Sowa, um jovem intelectual militante da esquerda radical polaca.
Sowa apoia-se particularmente nas intervenções de Badiou, Žižek, Rancière e Negri para afirmar que o conjunto não trouxe nada de novo em relação ao que se sabia já do pensamento de cada um dos autores presentes – o que não seria nada de inesperado, pois as fracturas não se produzem em intervenções de trinta minutos voltadas para um público militante de investigadores e estudantes –, estranhando igualmente o facto delas se apresentarem como monólogos, algo cerradas em raciocínios e apriorismos balizados, dos quais ninguém se parece ter esforçado muito por sair. O essencial da sua crítica centra-se porém em algo de muito concreto. Condicionado pela sua própria experiência de filho do «socialismo real», Sowa anota que «a maior insuficiência deste colóquio foi a ausência de uma análise aprofundada do comunismo enquanto regime que existiu realmente». Como se nada de verdadeiramente importante se tivesse passado, diz, entre a revolução de Outubro de 1917 e o triunfo do capitalismo neoliberal nos anos oitenta. Tem sido este, realmente, um dos limites da intervenção da esquerda anticapitalista não subsidiária do esclerosado modelo leninista-estalinista: um excessivo pragmatismo e uma dificuldade em repensar-se a partir de uma abordagem crítica do seu próprio lastro histórico, projectando novas possibilidades através de um processo psicanalítico de diálogo com as origens, as experiências e principalmente os erros.
Mas isto não significa que o colóquio de Londres se tenha transformado num pântano de vaidades académicas e de vontades dispersas a laborarem, cada uma delas, nas suas utopias pessoais. No final foram avançadas duas conclusões positivas que permaneceram transversais às intervenções de todos os participantes: «primo, o capitalismo não se encontra desprovido de uma alternativa, e secondo, o projecto comunista não é utópico no sentido negativo do termo, isto é, impossível». Porém, e contrariamente à leitura corrente de Marx, a sua afirmação não resulta de uma inevitabilidade histórica, mas sim de uma escolha que as sociedades podem e devem fazer em toda a liberdade. Será este o princípio, fundamental para uma conciliação da vida democrática com a afirmação cíclica de políticas de ruptura, sobre o qual a esquerda deverá continuar o seu trabalho. Combinando uma arqueologia descomplexada com a intervenção diária no processo de edificação de um mundo possivelmente melhor e mais solidário.
Segunda-feira, 13.Jul.2009
No jornal Público de ontem, 12/7/2009, três textos de São José Almeida, que podem ser lidos aqui.
«O Estado Novo dizia que não havia homossexuais, mas perseguia-os», «Amor numa cadeia da PIDE» e «Guerra Colonial – Sim, havia maior liberdade sexual, mas um oficial matou-se na parada»
Segunda-feira, 13.Jul.2009

No passado dia 10 de Junho parti para a República Checa, de que só conhecia Praga, para uma mais vasta visita, em particular para poder conhecer o campo de concentração de Terezin e o memorial da aldeia mártir de Lidice. A data não foi escolhida por acaso, já que o massacre de Lidice se iniciou no dia 10 de Junho de 1942, pouco depois da meia-noite.
Lidice é um daqueles casos em que o regime Nazi demonstrou da maneira mais cínica e brutal toda a sua bestialidade. Apesar de que o que se passou em Lidice em nada ficar a dever aos horrores dos campos de extermínio – em certo aspecto até terá sido mais requintado, cruel e vingativo – o certo é que os factos são pouco conhecidos, porque pouco divulgados. Pretendo aqui dar uma modestíssima contribuição.
É sabido que o que motivou o massacre de Lidice foi o atentado efectuado a 27 de Maio por paraquedistas checos, vindos de Inglaterra, e que vitimou o Reich Protector Heydrich, um dos delfins de Hitler e um dos ideólogos da Solução Final. Enfurecido pela morte de um de seus mais leais seguidores, Hitler ordenou ao seu substituto que não poupasse vidas para achar os responsáveis pela morte do oficial nazi e vingar-se dos checos. Seguiu-se uma retaliação sangrenta e generalizada das tropas nazis contra a população civil checa.
Em 10 de junho, aconteceria aquela que se tornaria na mais tristemente famosa pela sua crueldade. A Gestapo suspeitou que haveria ligação entre a família Horák, na pequena vila de Lidice, perto da capital, e um dos membros do comando paraquedista. Perante esta suspeita, nunca confirmada, foi tomada a decisão de vingar Heydrich em Lidice. Mas não foi uma simples vingança, não se «limitaram» a chegar, matar os seus habitantes, lançar fogo à aldeia e depois seguir, como fizeram por toda a Ucrânia e Rússia. (Sobre estes factos veja-se o filme «Vem e Vê»)
As tropas alemãs chegaram à aldeia pouco depois da meia-noite e cercaram-na. Todos os homens com mais de quinze anos – eram 173 – foram separados das mulheres e das crianças, colocados num celeiro na quinta dos Horák e fuzilados em pequenos grupos nesse mesmo dia. Quando já havia uma pilha de mortos os que se seguiam eram obrigados a subir para cima da pilha para serem fuzilados. Para que não restasse algum sobrevivente, foram aos hospitais à procura de habitantes internados e mataram-nos. E até foram ao requinte de i
r à pocura de um homem que, tendo mudado de turno na fábrica, não estava na aldeia. Fuzilaram-no. Não satisfeitos com esta matança, exumaram os cadáveres do cemitério. Lidice não só não poderia ter sobreviventes, como das famílias não poderia haver memória.
Três dia depois as mulheres foram separadas dos seus filhos. Destes, a larga maioria foi assassinada por asfixia no campo polaco de Chelmno, com gas carbónico que emanava de camionetas adaptadas, a primeira forma de extermínio. As mulheres foram enviadas para o campo de Rawensbruck onde a grande maioria viria a morrer de tifo e exaustão.
Sábado, 11.Jul.2009

Foi apresentada ontem, em Lisboa, esta História do Teatro Universitário em Portugal (1938-1974), da autoria de José Oliveira Barata, numa excelente edição da Fundação Gulbenkian.
Durante a sessão, o autor leu o belíssimo texto que a seguir se transcreve e que me enviou a meu pedido.
Todos os presentes lembrarão os versos de uma canção escrita e interpretada por um poeta francês, anarquista, admirador de Baudelaire, celebrante terno e laico da liturgia da solidão. Cantava ele e cantámos nós com ele tantas vezes:
Avec le temps…
Avec le temps, va, tout s’en va
On oublie le visage et l’on oublie la voix…
Somos sensíveis às palavras do poeta; com elas nos identificamos porque expressam o indizível; justifica-nos e apazigua-nos para além do prosaico: «o tempo tudo leva», «o tempo tudo cura», etc.
Paradoxalmente, porém, a tranquilidade que a poesia transmite desde sempre no consagrado topos do tempus fugit encontra na narratividade histórica um outro complemento para compreender o tempo enquanto cenário múltiplo onde se inscreve a apresentação, a representação, o jogo enquanto símbolo do mundo em que vivemos.
O leitor encontrará neste livro uma parte das muitas memórias pessoais e colectivas não apresentadas como um tempo que fugiu por entre as malhas do inexorável tempo cronológico, antes como temps vécue, condividido e partilhado e agora oferecido como tempo pensado, no que teve de compromisso cívico, de angustiados sobressaltos intelectuais e de generosa dádiva. Resgatar esses tempos, rememorar é um dever de memória, uma ética da recordação e também de dívida, na busca da justa memória – como assinala Paul Ricoeur – que o historiador tem que ter, quer no confronto com o passado, quer na narrativa que apresenta aos seus contemporâneos.
Tendo como bússola essa justa memória, percorreremos trilhos paralelos na busca de outras realidades ainda não desveladas e, porém, sempre com a consciência exacta de que o saber é finito, causador de angústia, no exacto sentido de que reflectir sobre os factos implica o rigor de não ser «bugiardo sul pretérito» como escreveu Leonardo da Vinci discorrendo sobre as relações entre pintura e literatura.
Inventariar as perplexidades e problemas que se perfilam a quem aceita percorrer os caminhos do Teatro Universitário — sobretudo em tempos de eufórico e fácil deslumbramento perante o diletantismo cultural — pode parecer inútil perda de tempo ou compungida reflexão, que, dificilmente cabe no quadro consumista que se vive, neste tempo neo-barroco onde mais que ser conta o parecer; e mais do que tudo aparecer. Porém, independentemente do que possa parecer a quem ler, ficará o testemunho não original, mas muito sentido, da urgente necessidade de se pensar na importância do estudo da nossa cultura, nomeadamente a que mais directamente se relaciona com a investigação presente. Ninguém ignora que perante a linguagem fria dos números e de siglas que cada um vai absorvendo num vazio investimento per capita a investigação e estudo sobre largas zonas da nossa história cultural carecem de apoios sólidos. Mas sabemos que assim não acontece. O estudo das humanidades, os trabalhos sobre os nossos fundos bibliográficos, não compensam. Surpreende mesmo que se assista a um quase obsessivo interesse pela discussão da nossa identidade nacional — tema cuja oportunidade não se discute —, apesar de ignorarmos muitas das fontes que, por certo, fornecem dados novos para uma análise histórica fundamentada sobre os itinerários que a nossa cultura tem percorrido; das suas zonas de penumbra até aos períodos mais luminosos.
Por isso o livro que agora se publica terá que ser visto como uma primeira tentativa para, de forma segura, se poder penetrar num mundo quase inexplorado entre nós.
Mais uma vez nos confrontamos com o penoso trabalho que, não despertando as fáceis notas dos opinion makers institucionalizados, estamos certos será gratamente recebido pelos que sabem que os trabalhos de investigação exigem sempre um trabalho preliminar de recensio sem o qual é impossível progredir.
O presente trabalho deu-nos o especial agrado de recuperar antigos afectos que as palavras sempre guardam, mesmo quando e onde por imperativo de informar recorremos à aparente frieza de seco repertório; queríamos igualmente que tivesse o papel de guia, cicerone, contacto primeiro que outros continuarão. Sempre, com a segurança tranquilizadora e bem hegeliana de quem sabe que a Idéia não tem pressa…
A documentação reunida não foi tida como monumento intocável e fixado de agora em diante como o repositório de toda a verdade. Ela constitui essencialmente a necessária autorização para rever uma realidade que decisivamente interferiu na paisagem cultural de um país onde a lucidez se confrontava com a bipolaridade oscilante entre o riso do sarcasmo e a depressão feita de queixas de almas jovens censuradas, recuperando as palavras de Natália Correia musicadas por José Mário Branco.
Os protagonistas directos desta narrativa viveram esse presente como horizonte de todos os possíveis, servido igualmente por todas as armas possíveis. O teatro foi uma delas e, como comprova a longa lista de intervenientes no vasto movimento do teatro universitário, a urgência de intervir não hierarquizava espaços nem níveis de intervenção.
O conjunto muito variado e desigual das experiências que o Teatro Universitário foi ensaiando ao sabor de uma irregular actividade aconselhou-nos ao longo do nosso trabalho, a recusa de qualquer redutora catalogação dos factos, pretendendo antes penetrar na conflitualidade, nas contradições programáticas, verificar como se viveram, aproveitaram e superaram êxitos e inêxitos, constatar a precariedade das estruturas e malgré tout o anónimo heroísmo da generosidade militante.
Neste jogo especular que a pesquisa científica dramatiza, procurámos as múltiplas máscaras que o teatro universitário foi representando para se representar a si próprio, expressando o pulsar de muitas gerações que, à sua maneira, viviam a realidade académica como um tempo intervalar «pensando», «sonhando» alternativas a construir. Outros cenários, onde se deambulava não com a máscara do embuste mas antes convictamente movidos pela procura da alteridade em que a máscara surgia como passaporte para percorrer um tempo e um espaço futuros; ou seja os da utopia.
A compreensão desse itinerário complexo e percorrido ao sabor do imediato, sem plano calculado, pode resumir-se à resposta de Camus quando o interrogaram porque fazia teatro universitário: «tout simplement parce que le Théâtre est un des liex du monde où je suis heureux».
José Oliveira Barata
José Oliveira Barata, Máscaras da Utopia. História do Teatro Universitário em Portugal. 1938-1974, Fundação Calouste Gulbenkian (396 p.)
Sexta-feira, 10.Jul.2009
(As Simones ou memória de Mulheres)
No início da década de 60, a emigração para França do Portugal pobre e rural acontecia já em massa, sendo muitos os milhares de portugueses que se concentravam nos bairros dos arredores de Paris. No entanto, até meados dessa década, era ainda restrito o número de exilados políticos. Por 1963, começou a dar-se a fuga para o estrangeiro de um número significativo de intelectuais e estudantes (homens e mulheres) perseguidos pela PIDE, aos quais, aos poucos, se foram juntando infindáveis levas de jovens que recusavam partir para a guerra colonial. Quase sempre chegavam «a salto».
Eu fui daqui em 62. Nessa altura, os exilados políticos residentes em Paris ainda mantinham um relacionamento próximo, amigável e muito solidário, mesmo quando tinham opções ideológicas distintas. O primeiro jantar de Ano Novo passámo-lo em casa de uns camaradas franceses amigos da Maria e do Jacques, com a Stella e o Piteira Santos, o António J. Saraiva, a Maria Lamas, o Lopes Cardoso e a Fernanda – todos à volta de um bacalhau cozido, temperado com manteiga porque não havia azeite, todos saudosos, todos amigos e, como diz o slogan, todos diferentes e todos iguais. Só mais tarde, por 1964, se instalou no «grupo do Quartier Latin» um clima de alguma intolerância que, em grande parte, reflectia divergências decorrentes do conflito sino-soviético. A luta contra o fascismo nunca foi unicolor, mas no exílio as diferenças ganhavam outra dimensão, ecoavam de forma especial num espaço vazio de acção política directa. No entanto, guardo, desse tempo, a memória dos laços de fraternidade a sobreporem-se às divisões, quando era humanamente preciso. Conflitos estéreis prontos a darem lugar a gestos solidários. Ficámos amigos. É ver-nos ainda hoje – e, com a idade, cada vez mais… – abraçando companheiros de exílio, adversários de então. Gente que um dia insultávamos ou a quem não falávamos e que, no dia seguinte, íamos visitar ao hospital. Exílio na década de 60 era isto.
A verdade é que, durante anos, nos reuníamos diariamente nos cafés do centro do Quartier Latin para discutirmos a situação em Portugal, ou numa ânsia de sabermos novidades – umas chegavam-nos por carta, outras eram notícias que nos levavam aqueles que se ia juntando ao grupo dos exilados, ou gente que ia até Paris em turismo e, sobretudo, a família que nos visitava. Vivíamos trocando gestos de cumplicidade e de carinho únicos: uma posta de bacalhau recebida como encomenda, pelo correio, dava um arroz malandro para oito; o maço de Português Suave oferecido por um amigo dividia-se por quem no Café du Luxembourg, no Mahieu, ou no Capoulade, se aproximava saudoso daquela mesa. Na nossa única assoalhada – sala/quarto/cozinha – da Rue Victor Cousin, sentávamo-nos cinco ou seis no chão, sobre a manta azul-cobalto que fazia de carpete, para ouvirmos em silêncio, como um hino, o disco Verdes Anos do Paredes, sem que ninguém se envergonhasse das lágrimas que discretamente se secavam – Exílio na década de 60 era isto. A ida do CITAC (Grupo de Teatro de Coimbra) a Paris, em 1964, não deu apenas cobertura à fuga para o estrangeiro de alguns dos seus elementos: deixou inscrita nos muros dos cais do Sena – tenho a certeza – a voz do Adriano. Num alvorecer frio (creio que de Maio), com a guitarra colada ao peito, ele ergueu a sua portentosa voz por cima de um coro de dezenas de exilados e de actores que cantavam a canção do Zeca: Ergue-te ó sol de verão! / Somos nós os teus cantores / Da matinal canção / ouvem-se já os rumores / ouvem-se já os clamores / ouvem-se já os tambores…etc, etc. E, como se isso não tivesse bastado para nos reacenderem o ânimo e nos deixarem com um peculiar sabor a Pátria, já pela manhã, na Gare d´Orleans-Austerlitz, ainda se trocaram tantos abraços e beijos que, nas janelas do «Sud Express», as mãos de quem partia e de quem ficava não se largavam, e o comboio saiu atrasado – Exílio era isto. Noite memorável: não encontro melhor imagem dos amargos tempos do exílio.
Quinta-feira, 09.Jul.2009
No dia 20 de Setembro de 1960, a Assembleia Geral das Nações Unidas admitiu, como membros, mais de uma dezena de países africanos: República dos Camarões, República Togolesa, República Malgache, República da Somália, República do Congo (Leopoldville), República do Daomé, República do Niger, República do Alto Volta, República da Costa do Marfim, República do Chade, República do Congo (Brazzaville), República do Gabão, República Centro-Africana. A estes novos membros juntaram-se, 8 dias depois, a República do Senegal e a República do Mali. A 7 de Outubro, era a vez da Federação da Nigéria. Estavam criadas as condições para que, a 14 de Dezembro desse ano, a mesma Assembleia Geral aprovasse a Resolução 1514 (XV), Declaração sobre a concessão da independência aos países e povos coloniais.
“Reconhecendo o apaixonado desejo de liberdade de todos os povos dependentes e o papel decsivo desses povos na conquista da sua independência”, “consciente dos crescente conflitos originados pela negação ou impedimento dessa liberdade, que constituem grave ameaça para a paz mundial”, “reconhecndo que os povos do mundo desejam ardentemente o fim do colonialismo em todas as suas manifestações”, a Asssembleia Geral das Nações Unidas declarava que “todos os povos têm direito à auto-determinação”, “a falta de preparação de ordem política, económica, social ou educativo não deve servir de pretexto para adiar a independência”, “nos territórios que não conseguiram ainda a sua independência devem ser tomadas medidas imediatas para entregar todos os poderes aos povos desses territórios, sem condições nem reservas, em conformidade com a sua vontade e desejo livremente expressos, sem distinção de raça, credo ou cor, a fim de lhes permitir gozar uma liberdade e uma independência absolutas.” A Assembleia expressa ainda o seu desejo de cooperação de todos os Estados membros nesses objectivos.
Algo que Portugal não se mostra com vontade de fazer. Argumentando que os seus territórios são, não colónias, mas províncias ultramarinas, recusa prestar a informação sobre as condições nesses territórios, exigida ao abrigo das disposições do Capítulo XI da Carta das Nações Unidas.
Salazar terá sido avisado que o equilíbrio internacioal era agora favorável ao eclodir da luta de libertação nas colónias. O que não o demove, nem mesmo quando alguns movimentos de libertação lhe endereçam memorandos nos termos das resoluções da ONU. Estamos em Dezembro de 1960. A luta armada de libertação inicia-se no ano seguinte.
Quando muitos culpam de todos os males acontecidos nas antigas colónias aquilo a que chamam, com desprezo, a “descolonização exemplar”, vale a pena reler o Memorandum então enviado ao Governo Português pelo Partido Africano da Independência (Guiné e Cabo Verde), que aqui se reproduz (*):
(*) Documento do Arquivo Amílcar Cabral/ Fundação Mário Soares.
N.B. – O documento encontra-se também online em formato PDF.
MEMORANDUM ENVIADO AO GOVÊRNO PORTUGUÊS pelo PARTIDO AFRICANO DA INDEPENDÊNCIA (Guiné e Cabo Verde)
O PARTIDO AFRICANO DA INDEPENDÊNCIA (P.A.I.G.C.), que luta pela independência total e imediata dos povos guineense e caboverdiano no quadro da unidade africana, tem seguido com atenção todas as medidas tomadas pelo Govêrno português para tentar manter o seu dominio colonial sobre os povos da Guiné e Cabo Verde. Forçado pela opressão colonial e pela repressão policial, a agir na clandestinidade, o nosso Partido tem mobilizado e organizado as massas populares para a luta de liquidação urgente da dominação colonial portuguesa na Guiné e em Cabo Verde.
Embora conhecendo de sobejo a posição até agora adoptada pelo Governo português em relação à descolonização, os povos da Guiné e Cabo Verde e o nosso Partido têm estado a “esperar o melhor sem deixar de se preparar para o pior”. Temos esperado, com paciência que os actuais dirigentes de Portugal se resolvam a analisar concretamente a situação dos nossos paises e dos próprios interesses portugueses – e se decidam a reconhecer aos nossos povos o direito à autodeterminação, consagrado pela Carta das Nações Unidas e respeitado pela esmagadora maioria das potências coloniais.
Quarta-feira, 08.Jul.2009

Em Julho de 1972, quando Américo Tomás foi reeleito Presidente da República, as Brigadas Revolucionárias lançaram dois porcos nas ruas de Lisboa, conforme descrito no comunicado que então foi distribuído e que abaixo se transcreve. Os ditos porcos estavam untados, pelo que a polícia não conseguiu agarrá-los e teve de os matar à metralhadora.
Fonte: Fundação Memoriando
Terça-feira, 07.Jul.2009

Numa vila de forte concentração fabril assente em três pólos (CUF, oficinas ferroviárias, corticeiros) onde as colectividades proliferavam como cogumelos, agregando afinidades e gerando rivalidades, era nesses locais que se concentrava o grosso do convívio e a partilha das paixões menores, onde a distensão pós-laboral encontrava o seu espaço de catarse. O primeiro passo para a inserção era escolher e escolher pressupunha optar entre grandes ou médios amores e pequenos ódios, depois havia que fazer o itinerário da iniciação, a que se sucedia a fusão cultural com os rituais e os símbolos até se atingir o estágio identitário. O operariado dominante, em termos demográficos e sinaléticos sócio-políticos, transpunha para a colmeia associativa do Barreiro reproduções possíveis, aquelas que eram passíveis de romperem a malha da vigilância repressiva, das suas organizações produtivas, incluindo as respectivas hierarquias (os empregados e a aristocracia operária dominavam os órgãos dirigentes), formas culturais próprias, os seus mitos e as aproximações às camadas urbanas estabelecidas fora dos muros das fábricas. Nesta rede social de convívios compensadores de realidades laborais, com códigos sucedâneos vincados, as maiores dificuldades de escolha e inserção estavam, naturalmente, reservadas aos jovens, particularmente aos que estudavam e que tinham adquirido afinidades que extravasavam a fixação paranóica na urbe onde as fábricas eram pólos de dominação e opressão, em que uma «cultura fabril» prolongava a sua centralidade económica. De tal forma o conseguia, misturando tradição, reconhecimento, consciência e insubmissão, traços muito próprios e genuínos nos barreirenses, que os grandes mitos humanos circulantes, enquanto referências exaltadas, caminhando a par e em espantosa conciliação, eram Cunhal (o herói-mártir da resistência) e Alfredo da Silva (o super-patrão da CUF e adepto da gestão paternalista-assistencialista). O que representava um milagre cultural e político pela completa ausência de antinomia com que a maioria dos barreirenses fazia a gestão harmoniosa destes dois símbolos afectivos, tão opostos na luta de classes, mas tão próximos no afecto da admiração dos gratos.
No início da década de sessenta, o Café Tico-Tico, colocado bem no centro do Barreiro, na avenida mais nobre, junto ao mercado e ao jardim do núcleo urbano (o Parque), assume uma dimensão convivial excêntrica relativamente às colectividades, operando uma espécie de importação dos espaços gregários e lúdicos homólogos que vincavam Lisboa, ali tão perto e tão longe. Rapidamente, o Café Tico-Tico transformou-se no pólo de encontro da pequena e média intelectualidade do Barreiro. Com um piso térreo onde abancavam os clientes mais maduros e onde pontificava o Mestre Cabanas, um idoso combatente antifascista, artista autodidacta em gravura sobre madeira, e que ali montara a sua banca de realização estética. O piso mais alto, em forma de varandim, com vista para o movimento em baixo, era o poiso preferido de estudantes que liam ou descansavam os livros e cadernos de estudo, galhofavam e ensaiavam namoros, enquanto os mais dados às aventuras intelectuais, cruzavam apreciações definitivas sobre os últimos livros publicados ou jogavam xadrez.
Segunda-feira, 06.Jul.2009

Manifestação anti-americana em CuCchi, Vietname (1965)
A morte de McNamara (hoje ocorrida) traz-me à memória o primeiro abaixo-assinado que subscrevi.
Tinha 17 anos. Entrara, há pouco ainda, para a Faculdade de Medicna de Lisboa – e, quase de seguida, para a CPA – a Comissão Pró-Associação dos estudantes da mesma.
A minha entrada na vida associativa revelara bem a extensão da minha inexperiência política: tendo ouvido por acaso o que me pareceu ser uma manobra para eleger o “bom” delegado de turma do 1º ano, decidi candidatar-me contra ele, explicando a razão. Penso que só não fui banida para sempre do convívio associativo pela intervenção do Luís Lemos (que, pouco depois, escaparia por pouco às prisões do 21 de Janeiro de 1965) que, quando vários me fuzilavam com o olhar, veio em meu socorro dizendo que era de jovens assim – afoitos defensores dos princípios que consideravam correctos – que a CPA precisava. Tive 2 votos. Um foi, naturalmente, o meu. Tendo o voto sido secreto, ignoro, até hoje, quem, de entre os meus colegas, depôs o voto solidário.
O certo é que, a partir daí, me integrei, melhor ou pior, na vida política estudantil. O que explica como é que alguém – julgo que um então estudante de Direito, famoso tanto pela inteligência como pela perícia nos matraquilhos – me convidou a ler e subscrever, estando de acordo, esse primeiro abaixo-assinado.
É que estava para actuar em Lisboa, salvo erro tocando jazz, uma banda da Marinha norte-americana. E a Marinha dos Estados Unidos era aquela mesma que bombardeava as costas – e o povo – do Vietnam. Poderíamos nós, jovens conscientes, anti-colonialistas e anti-imperialistas, admitir essa afronta? Seria possível para nós ouvir tocar esses homens esquecendo que, nesse mesmo momento, havia gente a morrer pela acção dos seus camaradas de armas?
Não!
Havia que mostrar aos Estados Unidos e à sua esquadra que a música não bastava para nos fazer esquecer os bombardeamentos no Pacífico. Eu gostava (e gosto) de jazz. Mas foi sem grande hesitação que assinei o documento. Até hoje, não me envergonhei de o ter feito.
Segunda-feira, 06.Jul.2009

Depois de em 2005 ter publicado Pós-Guerra, Tony Judt passou a ser um dos historiadores do mundo contemporâneo mais conhecidos fora dos circuitos universitários. Mas O Século XX Esquecido, editado posteriormente, aproxima-se mais de The Burden of Responsability, lançado em 1998, um livro sobre a tradição intelectual francesa do período inaugurado com a vitória dos aliados que se inscreve num dos interesses estáveis de investigação de Judt. A edição portuguesa omite a palavra que se destaca no título original – Reappraisals, reavaliações – e é pena que o tenha feito, pois o volume, agrupando 23 ensaios escritos entre 1994 e 2006, propõe justamente uma série de olhares bastante originais, apoiados por uma excelente capacidade de argumentação e apresentados sob a forma de regressos, de releituras, a realidades relativamente recentes que a vertigem da «era do esquecimento» se tem encarregado de suprimir.
Do conjunto emergem duas preocupações maiores de Judt. A primeira enfrenta o «desaparecimento do intelectual» como instrumento de uma consciência crítica do seu tempo, cuja herança não está garantido que sobreviva às mudanças actualmente em curso. A outra diz respeito à aceleração dos processos de esquecimento do passado e de instrumentalização da memória. Ambas atravessam as quatro partes nas quais os ensaios escolhidos foram arrumados. A inaugural apresenta um conjunto de viagens ao «coração das trevas», olhando de perto a trajectória de intelectuais que de diferentes maneiras se confrontaram com a experiência totalitária: Arthur Koestler, Primo Levi, Hannah Arendt e o agora quase esquecido Manès Sperber, inequivocamente observados com um respeito enorme pela dificuldade extrema das suas escolhas e do seu trabalho solitário. Já a segunda parte, ocupando-se do «compromisso intelectual», regressa de uma forma crítica e bastante original à obra de Albert Camus, Leszek Kolakowski, Edward Said, Eric Hobsbawm, Louis Althusser e Karol Wojtyla, os dois últimos glosados de um modo particularmente cáustico.
Nas terceira e quarta partes intervêm outros interesses de Judt, que vão da história política e cultural da Europa a partir do pós-Segunda Grande Guerra, narrada ponderando a relação das diferentes experiências nacionais com os seus diversos «lugares da memória» – apropriando-se aqui do conhecido conceito lançado por Pierre Nora – à evolução da sociedade americana desde os tempos duros da Guerra Fria aos anos de George W. Bush e da vertigem neocon. Pelo meio dois importantes artigos relativos à história de Israel – onde Judt, de ascendência judaica, viveu parte de uma juventude militante e idealista envolvida na experiência inicial dos kibutzim – , contendo a crítica de uma arrogância belicista que não parou de crescer a partir da Guerra dos Seis Dias (1967), bem como a defesa de um «Estado binacional». Posições que lhe valeram o ódio e actos de vindicta por parte de organizações judaicas, em particular algumas das sediadas nos Estados Unidos. Quase sem momentos fracos, O Século XX Esquecido é um livro soberbo, cuja leitura nos pode ajudar bastante a decifrar o presente que nos cabe viver.
Tony Judt, O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias. Tradução de Marcelo Felix. Edições 70, 464 págs. [Publicado originalmente na revista LER de Junho]
Sexta-feira, 03.Jul.2009
Sexta-feira, 03.Jul.2009

Fotografia de Hélder Gonçalves
O exercício de caminhar através das memórias mais distantes, e profundas, é um acto de libertação. Partilhá-las com a comunidade que se dispõe a acolhê-las para nelas se rever, ou não, é um acto de comunhão. São razões que bastam para retomar alguns escritos antigos do tempo em que o Absorto era um mero espelho das palavras que nele desenhava.
Não queria ir. Não me sentia bem na minha pele. Mas estava tudo preparado. A teoria e o ritual. Sabia de cor as orações e o resto. Mas não queria ir. No dia dos actos solenes sempre me sinto com vontade de fugir. Não gosto de actos solenes. Depende das circunstâncias sofrer mais ou menos. Com os anos aprendi a defender-me e sofro menos. Porque não podemos fugir a todos os actos solenes.
Mas naquele dia fugi mesmo. A minha mãe correu atrás de mim. Fui à força a caminho da Sé. Cumpri, como sempre, com a minha obrigação. Percorri todos os caminhos de uma autêntica formação católica. Ficaram-me marcados na memória os personagens, os rostos e os cheiros. Alguns admiráveis e repousantes como os padres Patrício e Henrique. Outros execráveis e repugnantes. Aprendi a olhar para dentro e a falar comigo próprio.
Gosto de ler a poesia de Adélia Prado. E de ouvir o silêncio solene do interior de um templo vazio. De olhar as capelas e os altares. De admirar as obras de arte que os habitam. E de observar a crença dos que os frequentam. No fim da vida o meu pai, que eu julgava agnóstico, rezava. Mas não gosto de participar em rituais. Não gosto de seitas. Nem de associações secretas. Sejam religiosas, políticas ou outras. As suas obediências e silêncios não se conjugam com o meu conceito de liberdade. Isso explica muita coisa.
Fiz a comunhão solene. Tenho até uma fotografia, muito impressiva, acompanhado pelos meus pais e padrinhos (ou será do crisma?). Não me lembro, ao certo, como regressei da Sé. Mas lembro-me de nunca ter acreditado na confissão. Nunca ninguém, de verdade, se confessa. O que retenho, com nitidez, foram a vista e o cheiro das laranjeiras do largo da Sé de Faro. E um sorvete que comi, na Brasileira, às escondidas. Em pecado. Capital.
Biografia de Eduardo Graça
Quinta-feira, 02.Jul.2009

Por ocasião do centenário do seu nascimento, um texto de José Hipólito dos Santos (*)
Lamento não ter, neste momento, a possibilidade de dizer o muito que me apetecia sobre o meu convívio de 50 anos com Vasco de Carvalho.
Apenas algumas palavras sobre esse Homem íntegro, discreto, estudioso e rigoroso em tudo em que se envolvia, a nível profissional, político e cívico. Isso lhe permitia participar activamente em debates, conhecendo bem os assuntos, mas sempre aberto a novas abordagens de reflexão, a novas formas organizativas, a novas alternativas.
Sempre o conheci radicalmente anticapitalista, sua matriz de fundo, como o conheci sempre comunista, como eu próprio e muitos outros jovens na época.
Mas um comunismo sem partido único, sem polícias políticas, nem a tortura como forma generalizada de interrogatório, sem milhares de Tarrafais para onde as pessoas eram enviadas para morrer, sem Tribunais Plenários, sem condenações aos milhões, incluindo à morte; sem Sindicatos Únicos dirigidos por membros do partido, transmissores das ordens do mesmo, sem o medo generalizado dos trabalhadores, dos estudantes, das pessoas em geral, de se exprimir ou tão só de pensar!
A rejeição do capitalismo e desse comunismo totalitário tornou-se para nós numa referência de reflexão e busca. É quase um legado do Vasco.
O Vasco de Carvalho procurava conhecer as novas alternativas sociais, políticas, cívicas, ecológicas, femininas ou não, que estavam (estão) surgindo por toda a parte – a antiglobalização, os movimentos sociais (os novos e não aqueles que reproduzem os modelos do «antigamente», monolíticos e sectários), novas formas cooperativas e outras experiências sócioeconómicas fundadas sobre a auto-organização, a solidariedade, o anticonsumismo e a rejeição do valor trabalho como valor supremo de referência para toda a reflexão de esquerda.
Face à crise, raio de esperança, é tempo de voltar ao legado intelectual, político e cívico de homens como José de Sousa, Emídio Santana, António Sérgio, Vasco de Carvalho. Há que ter a coragem de pôr em cima da mesa o contributo extraordinário de homens esquecidos, caluniados mas que se mantiveram sempre de cabeça alta, que mantiveram sempre a sua cabeça ao serviço da Humanidade.
(*) Biografia de José Hipólito dos Santos
Quarta-feira, 01.Jul.2009
«La coalición de la canciller alemana, Angela Merkel, planea aprobar una ley para rehabilitar a todas las personas catalogadas como traidores por los nazis durante la Segunda Guerra Mundial, dijo el martes un líder conservador.(…)
Los tribunales militares nazis condenaron a cerca de 30.000 personas a muerte por deserción y traición durante la guerra y cerca de dos tercios de ellos fueron ejecutados, según medios alemanes. Según historiadores, los nazis utilizaron el cargo de traición para condenar a soldados y civiles a muerte por resistencia política y por ayudar a judíos.»
(Público.es)
Quarta-feira, 01.Jul.2009
Analisámos até aqui apenas figuras militares, que foram com toda a justiça estrelas de primeira grandeza no universo revolucionário. Contudo, o seu protagonismo não é exclusivo e outros haverá, também da parte civil, que se destacam. E, entre estes, tal como acontece com Vasco e Otelo, há uma dupla na qual, por breve tempo, o imaginário da revolução se projectou, e cuja separação tornou o sonho inalcançável.
1. É o caso dos dois maiores líderes da oposição, ambos perseguidos e condenados ao exílio, que regressam triunfalmente ao país, para assumir as mais altas responsabilidades, logo após a vitória militar: Álvaro Cunhal e Mário Soares. Basta recordar o entusiasmo com que foram acolhidos, os paralelismos históricos, as metáforas e ressonâncias míticas que o seu regresso desencadeou no imaginário colectivo. A chegada de Mário Soares de comboio a Sta Apolónia (num claro paralelismo com os dirigentes da 1ª República, ou com Humberto Delgado) chegou mesmo a ser comparada com o regresso de Lenine do exílio em 1917. O comentário de Mário Soares a propósito – «Lenine era um grande homem, eu sou apenas um militante…» – não deixa de contrastar com o papel central que lhe estava destinado desde o primeiro dia.Álvaro Cunhal, não menos simbolicamente, realiza o seu primeiro comício no aeroporto, de cima de um carro blindado repleto de cravos, para o qual foi literalmente lançado mal saiu do avião, numa nítida antecipação do que viria a ser o alfa e o ómega da linha política do partido que chefiava: «Aliança Povo/MFA». E quando lhe perguntaram o que sentia, respondeu simplesmente: «Confiança, confiança no Povo Português!»Também o abraço do seu reencontro, presenciado com indescritível emoção pela impressionante massa humana naquele memorável 1º de Maio de 1974, ficou registado como um brevíssimo momento de unidade entre os dois «inimigos íntimos» (expressão de Mário Soares) que tudo parecia juntar, mas cujas vidas extraordinárias se limitaram a passar breves e cautelosas tangentes.
2. Ambos filhos de oposicionistas ilustres receberam no berço a mesma formação. O pai de Cunhal foi, em 1923, Governador Civil da Guarda, cargo que fora ocupado por João Soares, pai de Mário Soares. Conheceram-se em Lisboa, no Colégio Moderno, onde Cunha
l foi regente de estudos de Soares que, por influência dele, aderiu ao PCP. Mas os seus encontros, na condição de exilados e opositores à ditadura, foram marcados por crescentes dissidências políticas e, para além disso, por personalidades inconciliáveis.Juntou-os o «milagre» do 25 de Abril, mas essa comunhão duraria pouco, menos ainda do que a dos heróis militares Vasco e Otelo. Porém, ao contrário do que aconteceu com estes, a separação, apesar de fatal à revolução, não os enfraqueceu nem condenou ao esquecimento. Muito pelo contrário: cada um a seu modo, vão ser referências nucleares do processo de normalização pós-revolucionária.