Senho Roubado
 

Um texto de Jorge Martins (*)

Vem este texto a propósito de uma situação que se arrasta há muitos anos e que tem feito caminho. De facto, tem-se repetido sistematicamente um erro histórico, que os nossos estudantes copiam exaustiva e acriticamente. Não se lhes pode imputar o erro, mas há que corrigi-lo, para que a verdade seja reposta e deixe de servir de (mau) exemplo, sobretudo para as escolas. Acresce que o próprio painel de azulejos do monumento ao Senhor Roubado conta a história do caso de acordo com os interesses do clero, que tomou a iniciativa de erguer o padrão e relatar os acontecimentos com erros históricos e numa versão manipulatória. 

A história conta-se em meia-dúzia de palavras. Na manhã do dia 11 de Maio de 1671 o padre da paróquia de Odivelas encontrou a Igreja Matriz virada do avesso: tinha sido assaltada na noite anterior, tendo sido roubadas algumas peças, vestuário de santos e as hóstias. Logo se responsabilizaram os judeus pelo nefando sacrilégio. Fizeram-se preces, procissões, versos antijudaicos, auto-flagelações indescritíveis e a Corte ficou de luto. Um mês depois, em 16 de Junho, foram encontradas algumas das peças roubadas, enterradas justamente no local onde viria a ser edificado em 1744 o padrão ao Senhor Roubado. Em 16 de Outubro do ano do roubo foi preso, junto ao Mosteiro de São Dinis – a dois passos da assaltada Igreja Matriz de Odivelas –, um sujeito que tentava roubar as galinhas do mosteiro. Foi preso e identificado como autor do roubo de 10 de Maio. Como não bastasse a confissão, foi interrogado sob tortura, por dois inquisidores, concluindo-se que se tratava de um pobre diabo, sem o juízo todo, que ficara fascinado com as reluzentes vestes dos santos e, perdido de bêbedo, comera as hóstias. O ladrão chamava-se António Ferreira e foi condenado a que lhe cortassem em mãos em vida e queimadas à sua vista, após o que foi garrotado e queimado numa fogueira ateada no Rossio no dia 23 de Novembro de 1671. 

Na minha actividade docente tenho solicitado aos alunos – futuros professores dos 1º e 2º Ciclos – trabalhos sobre o património e a história do concelho de Odivelas, o que tem incluído, naturalmente, o caso do Senhor Roubado. Ora, se formos à página electrónica da Câmara Municipal de Odivelas, podemos ler:

«Numa época de extrema religiosidade, a dimensão deste caso foi tal que, quando chegada a notícia à capital, a rainha D. Luísa de Gusmão (mulher do Rei D. João IV, e nessa data regente do reino) enviou missivas a todo o reino, e foram afixados éditos prometendo recompensa em dinheiro e um emprego na justiça ou na fazenda, a quem denunciasse o autor do crime; a corte pôs luto e foram feitas procissões nas ruas.» (acesso em 27/06/2009 às 17.30h)

Na verdade, a rainha D. Luísa de Gusmão (1613-1666) havia falecido 5 anos antes do roubo da igreja, pelo que não poderia, obviamente, enviar cartas. Este e outros erros são repetidos à exaustão, pois o recurso à Internet constitui hoje a primeira forma de pesquisa. Senhor Roubado - AzulejoRapidamente chegam à página da Câmara Municipal e ressuscitam inimputavelmente a rainha. Este erro foi introduzido no concelho por um pequeno opúsculo publicado originalmente pela Junta de Freguesia de Odivelas e reeditado pela Comissão Instaladora da Câmara Municipal de Odivelas, onde se afirma: «A rainha D. Luísa de Gusmão (viúva do rei D. João IV e mãe do príncipe regente D. Pedro) aconselhou um dos secretários de Estado a enviar missivas para que todo o reino soubesse do sucedido.» (O Senhor Roubado, Município de Odivelas / Divisão de Turismo, Odivelas, s.d. [2001], p. 10). O mínimo que se exige é que os serviços competentes da Câmara corrijam imediatamente este embaraçoso erro de palmatória.

Atentemos agora nos painéis do monumento. São 12 e relatam, em banda desenhada, os acontecimentos ocorridos em 1671. Estes painéis são posteriores a 1745, ou seja, três quartos de século após o roubo da Igreja de Odivelas. Existem algumas diferenças substanciais entre os factos e aquele relato. Não vale a pena determo-nos em questões de pormenor (que também é possível encontrar), mas é importante salientar nas legendas dos quadros aquilo que encerram de inverdade ou mesmo de falsidade premeditada. Se nalguns casos o relato confere com os factos, noutros há inexplicáveis erros grosseiros e omissões significativas. Ora, parece que as fontes de quem legendou os painéis só serviram para o que lhe interessava divulgar. São várias as inexactidões destas legendas, das quais as mais significativas são as seguintes:

1) a alusão à queda de António Ferreira na igreja durante o roubo – «caiu por terra sem sentidos», painel 2 -, que permite manter o carácter milagroso do facto, tal como se pretendeu propagar quando da sua ocorrência, mas que não colhe, por ter sido perfeitamente explicado pelo comprovado estado de embriaguez do réu;
2) a legenda do painel 5 sustenta que António Ferreira terá afirmado, em relação ao roubo, que «quem o tinha feito merecia as mãos cortadas», o que não se pode confirmar pelas inquirições nem pelos acórdãos da sentença, mas que provoca intencionalmente um sentimento de revolta cristã acrescida, visto que tinha sido ele o autor desse roubo;
3) o painel 6 afirma erradamente que António Ferreira «trazia ao peito uma cruz», quando os documentos sustentam que a trazia numa bolsa. A sua ostentação seria considerada uma provocação anticatólica, como convinha à Inquisição;
4) no painel 8 afirma-se que só descobriram o local onde estavam escondidos os objectos roubados depois da confissão de António Ferreira, o que é falso, porque os objectos foram descobertos casualmente no dia 16 de Junho e o réu só foi preso a 16 de Outubro, como as fontes demonstraram;
5) a legenda do painel 10 relata, simplesmente, que António Ferreira foi levado para Lisboa, onde lhe sentenciaram a amputação das mãos, quando, efectivamente, não foi bem assim que as coisas aconteceram, porque o réu foi torturado, cruelmente condenado à amputação das mãos ainda em vida e, só depois, foi garrotado e queimado.

Em suma, inexactidões e omissões, voluntária ou involuntariamente (conceda-se…), contribuem para a intenção inquisitorial de diabolizar o roubo da Igreja de Odivelas em 1671. Estas contradições entre a realidade e a versão contada pelos painéis têm suscitado, em alguns autores, sérias dúvidas quanto aos factos e fortes suspeitas de que António Ferreira terá sido um «bode expiatório» do caso de Odivelas. Na realidade, não há que hesitar em tomar como válidas as descrições coevas em detrimento do relato dos painéis do Monumento ao Senhor Roubado e alimentar justamente a tese da intencionalidade de manipulação da verdade para que tivesse mais efeito sobre a população crente.

Sem dúvida que o facto de, no ano de 2009, haver ainda algumas pessoas que veneram o Senhor Roubado como se de uma intencional e diabólica ofensa se tivesse tratado – quando não passou de um acto praticado por um inimputável jovem rural -, confirma a eficácia da versão oficial do caso de Odivelas, que chegou até aos nossos dias e que tem vindo a ser corroborada pelos arautos da «perfídia judaica» ao longo dos tempos, tal como se pode verificar pela descrição que Vergílio Correia fez, em 1956, de António Ferreira, representado no painel 5: «Fisionomia astuciosa e vil; nos lábios um sorriso de desfaçatez e maldade que um fingido ar de humildade cristã a custo dissimula no rosto sombreado por bigode farisaico, hirsuto e maltratado. Assenta a mão direita no peito num gesto de convicção sincera.» (Vergílio Correia, “O Senhor Roubado”, in Azulejos, Coimbra, 1956).

Como é que, 75 anos depois do caso, se poderia fazer um retrato fiel de António Ferreira num azulejo? Claro que não podia! A intenção é clara: atrair o ódio sobre um pobre diabo, envolvido na questão judaica da época e vítima de do fogo cruzado entre o poder régio e o poder inquisitorial. O braço-de-ferro saldou-se por uma suspensão temporária da Inquisição, imposta pelo papa. Foi uma derrota efémera, que rapidamente fez atiçar o ódio dos inquisidores, que impuseram uma maior brutalidade na actuação do Santo Ofício, em pleno «Século das Luzes», quando os europeus estavam a tentar construir sociedades liberais. Nesta conjuntura, António Ferreira foi mais uma vítima da Inquisição, do que um verdadeiro ladrão.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

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