Tarrafal

 
 Simpósio Internacional sobe o Campo de Concentração do Tarrafal, 28 de Abril de 2009 

Em Agosto de 2006, sob meu impulso, o Conselho de Ministros aprovou a Resolução nº 32/2006, que reconhece o ex-Campo de Concentração do Tarrafal e suas respectivas dependências como Património Nacional da Republica de Cabo Verde. A mesma Resolução consagra o dia 29 de Outubro como o Dia da Resistência Antifascista em Cabo Verde. 

Foi, efectivamente, a 29 de Outubro de 1936, que chegaram ao então Campo de Concentração do Tarrafal, criado em Abril do mesmo ano, os primeiros prisioneiros políticos de Portugal: homens temperados na luta antifascista e imbuídos dos ideais mais nobres, quais sejam os da liberdade e da dignidade da pessoa humana.

Naquela altura, também sugeri que se organizasse um simpósio internacional que testemunhasse a dimensão deste Campo de Concentração, a um tempo, cárcere e espaço de luta contra o fascismo e pela independência de povos colonizados de África, «aldeia da morte» e um mundo de determinação e de vontade de vencer e de esperança na liberdade. 

Benditos aqueles – Fundação Amílcar Cabral e Ministério da Cultura de Cabo Verde, com os apoios das Fundações Mário Soares, Sagrada Esperança e José Eduardo dos Santos – que, sob o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, organizaram este importante encontro de reflexão sobre o «Longo Caminho para a Liberdade», como escreveu Nelson Mandela, depois de 27 anos de prisão, a lutar contra o apartheid e pela dignidade do povo sul-africano. 

Temos de continuar a trabalhar para que este que foi um dos mais sinistros Campos de Concentração do Salazarismo e que, hoje, é património Nacional de Cabo Verde, seja também reconhecido como Património da Humanidade. 

É que nestas paredes estão guardadas histórias de pessoas e de povos de Angola, de Cabo Verde, da Guine Bissau, de Portugal, escritas com suor, sangue e lágrimas, que adubaram o chão da luta e fermentaram os ideais da independência nas ex-colónias portuguesas e da resistência antifascista em Portugal. Este Campo é Património de toda uma Humanidade em luta contra o fascismo e todas as formas de totalitarismo. 

É um dever de memória recordar e homenagear todos aqueles que foram encarcerados neste campo de morte lenta, aqueles que morreram e rasgaram a estrada de emancipação dos povos e da conquista da liberdade e da democracia. 

Recordar para lembrar a todos que houve momentos tenebrosos da história da humanidade, em que alguns tiranos despojaram milhões de pessoas da liberdade de viver, de amar e de construir.

Recordar que houve homens tão infelizes que, com crueldade, mataram e destruíram a esperança de outros homens.

Recordar para que nunca mais seja consentida tamanha barbárie.

Este encontro é, pois, uma homenagem ao futuro. Um futuro que queremos que seja de liberdade e de felicidade para todos, onde os Campos de Concentração serão apenas museus para lembrar um passado longínquo, que não se repetirá jamais.

Quero, também, lembrar aqui as pessoas que acabo de homenagear pelos relevantes serviços prestados à causa da liberdade. Estas mulheres e estes homens que, com profundo sentido de solidariedade, apoiaram os ex-presos do Campo de Concentração do Tarrafal, trazendo-lhes, muitas vezes, o carinho e a amizade tão importantes em momentos de angústia e de desespero.

Quero aproveitar esta oportunidade para apelar a todos os Governos dos países da CPLP para transformarmos este ex-Campo de Concentração do Tarrafal num Museu de Resistência Antifascista e de luta Anti-colonial para, como já disse, lembrarmos a história de um passado que, de um lado, nos envergonha e não queremos que se repita jamais, mas, de outro, nos engrandece, porque houve homens e mulheres que não se calaram perante as injustiças e as arbitrariedades e legaram-nos a coragem de continuar a lutar e a vontade de vencer, sempre.

É que uma visita a este Campo permite-nos, no silêncio das nossas reflexões, avaliar a crueldade do fascismo e do colonialismo português e os sacrifícios consentidos por homens e mulheres, compatriotas nossos, pela causa da liberdade e da independência.

Precisamente 38 anos após a criação do Campo de Concentração do Tarrafal, a 25 de Abril de 1974, acontece a Revolução dos Cravos, em Portugal, que pôs fim ao regime colonial fascista e abriu caminho à independência das ex-colonias portuguesas e à instauração da democracia em Portugal.

Tudo resultado das lutas clandestinas e armadas de libertação nacional em Angola, Cabo Vede, Guine Bissau, Moçambique e São Tome e Príncipe e a resistência anti-fascista em Portugal.

Hoje, 35 anos depois do 25 de Abril e 34 anos após às independências, estamos aqui para fazer o balanço.

Afinal, caros camaradas e amigos, valeu a pena.

Edmundo Pedro, diga a todos os teus companheiros de combate e de cárcere, que valeu a pena!

Luandino Vieira, escreva em todos os livros do mundo para que o mundo inteiro saiba que valeu a pena.

Luís Fonseca, fale aos diplomatas, aqueles que decidem nos fora internacionais, que estamos aqui, firmes, para continuar a caminhada, para construirmos um futuro de paz, tolerância, liberdade, democracia e dignidade para todos.

Quero que os nossos irmãos da Guiné-bissau anunciem em todas as tabancas, em todas as ilhas, para que todos oiçam que Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane e tantos outros que são nossos heróis, não morreram em vão.

Estamos aqui, nós os herdeiros desta luta heróica, para continuá-la, hoje, num novo contexto, sempre pela dignidade dos nossos povos, pelo desenvolvimento dos nossos países, para manter inapagável o facho da liberdade que ajudaram a acender.

Em África, cinco pátrias: Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tome e Príncipe são filhos desta luta.

Temos ainda um longo caminho para cumprir o Testamento dos Combatentes da Liberdade.

Temos de continuar a trabalhar para consolidar o Estado de Direito Democrático nos nossos países, para definir uma agenda de desenvolvimento que nos permite continuar a investir na educação, na saúde, na segurança social, no combate à pobreza, às desigualdades sociais e a todas as formas de descriminação e de exclusão social.

A Guiné Bissau precisa, hoje, mais do que nunca, do nosso apoio e da nossa solidariedade. A paz, a estabilidade e a segurança são condições necessárias para a refundação do Estado e a reconstrução nacional.

A definição das estratégias para a gestão desse processo caberá às lideranças guineenses. Mas nós podemos ser os credores da Guiné Bissau nesta que é uma nova fase de luta pela liberdade e dignidade na Pátria de Amílcar Cabral

Se, ontem, em contextos muito mais difíceis, enfrentámos as balas e as prisões e as arbitrariedades dos inimigos da liberdade, hoje, libertos das amarras da ditadura, podemos ir mais longe e andar mais depressa.

As fragilidades no processo de construção de estados fortes e capazes, os conflitos intestinos, as debilidades das políticas públicas, particularmente na área social, os problemas socio-económicos que ainda enfrentamos, são naturais em estados recém libertos de um longo período colonial que desestruturou o tecido económico e social e perturbou o normal desenvolvimento institucional nos nossos países.

Assumindo plenamente as nossas responsabilidades políticas em tudo o que terá acontecido após a independência, teremos de continuar a luta para que os ideais mais nobres e o Testamento dos Combatentes da Liberdade sejam plenamente cumpridos.

Vivemos momentos dolorosos de crise. Crise de valores, crise de paradigmas, crise económica e social. Novos valores, novos paradigmas estão em gestação. Mas os ideais por que lutaram os nossos camaradas que viveram os anos dolorosos de cárcere, esses continuam perenes: a liberdade, a democracia e a dignidade da pessoa humana estarão sempre no âmago de todas as nossas batalhas.

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