Anos inquietos 

O Conselho Feminino, um case study da problemática feminista dos anos 60

O essencial das minhas reflexões anteriores, basicamente concordantes com um trabalho mais exaustivo e completo de Miguel Cardina, publicado neste blogue, parece-me amplamente apoiado nos documentos estudantis da época – comunicados, programas eleitorais, textos de reflexão e divulgação, etc. – não esquecendo os testemunhos orais dos protagonistas das crises estudantis, dirigentes conhecidos ou estudantes anónimos.

De todo esse vasto material, escolho um caso paradigmático: O Conselho Feminino da AAC e a forma como foi utilizado (ou não) pelo movimento estudantil em geral, e pelas mulheres em particular, justamente ao longo dos anos 60. Integrado no organograma da AAC, pelo menos desde 1961, entre áreas como Desporto, Actividade Social e Pedagógica, Convívio e Intercâmbio, foi sempre o menos apoiado. Abordado pelos responsáveis associativos com um misto de desconforto e desorientação, absolutamente ignorado – e até ridicularizado – pela grande maioria das suas destinatárias.

É de Eliana Gersão, sua presidente no ano de 1961-62, esta eloquente e saborosa descrição:

«O CF, para o qual eu tinha sido eleita, era então um órgão apagado e irrelevante, que se limitava a organizar algumas actividades consideradas femininas, como cursos de decoração ou puericultura. Tanto assim, que o espaço que lhe estava disponibilizado era a cozinha da AAC. Nós também começámos por organizar essas actividades, embora tentando inovar alguma coisa. Assim, organizámos um curso de decoração, um curso de ginástica feminina, e ainda um curso que teve o estranho nome de Puericultura pré e pós natal. Foi dirigido pelo Dr. Assis Pacheco e pretendia dar às raparigas alguma informação em matéria sexual. Como isso era um tema absolutamente tabu, que nunca poderia ser apresentado como tal, incluí-lo num curso de puericultura foi o subterfúgio que encontrámos…» (1)

E nem a oportunidade de ouro, oferecida de bandeja pela pedrada no charco que foi a Carta a uma jovem portuguesa da autoria de Marinha de Campos, e publicada na Via Latina de 19 de Abril de 1961 – verdadeiro manifesto pela liberdade da mulher, inclusive sexual – foi aproveitada. Antes se veio a revelar motivo acrescido de embaraço e confusão. Na verdade, a carta desafiava a mentalidade dominante, especialmente feminina (a dos Lares de Freiras), e com ela os sectores mais conservadores e obscurantistas dominados pela Igreja, que desencadeou uma verdadeira campanha de desagravo, em que confundia liberdade e emancipação da mulher com libertinagem, imoralidade, indignidade, verdadeiro plano de subversão dos «mais sãos e autênticos valores da sociedade portuguesa».

Os sectores progressistas, numa clara posição defensiva, não entram nessa guerra, que remetem para o foro das opções individuais. A própria Via Latina, em cujas páginas «o escândalo» rebentou, «defendeu-se dizendo que devia ser pluralista, e publicar todos os artigos, independentemente de concordar ou não com eles. E abriu um número especial para publicar as respostas à carta. Foi também por aí – defesa da liberdade de opinião – a reacção da DG. Ficou à margem do debate sobre o conteúdo da carta, não apoiou (não há um único texto da DG de apoio à carta) nem atacou, considerando que não tinha que se manifestar sobre o assunto». (2)
 

2. Mas não se ficaram por aqui as ondas de choque. Também o CF não podia ficar alheio a uma polémica, onde entrou a contra-gosto e tentando minorar os danos. Elaborou um comunicado publicado também na Via Latina de 8 de Maio de 1961, em que, certamente para não ser anatemizado pelos sectores femininos de direita, invoca repetidamente chavões como «axiologia», «dignidade da mulher», «necessidade de desenvolvimento harmónico da pessoa humana», e alude até ao «papel específico da mulher na sociedade», para concluir, piscando o olho aos sectores de esquerda, pela «necessidade de respeito por qualquer posição conscientemente assumida e honestamente defendida».

Ou seja: tudo e nada. Os ventos de mudança no que respeita à condição feminina tocaram certamente muitos estudantes que, concordando embora com Marinha de Campos, não deixaram de assinalar o excessivo voluntarismo e falta de oportunidade política do seu acto.

Tanto assim que, no Programa da Lista de Esquerda concorrente às eleições de 1964, o texto dedicado ao CF, depois de repudiar a ideia de o fazer funcionar como «uma secção de culinária», perde-se em considerações de ordem jurídica, que não escondem o verdadeiro dilema:

«Parece-nos que um tal organismo só poderá encontrar justificação ou na existência de certos interesses específicos de um e outro sexo, que, como tal, exigem organismos próprios, ao lado de outros de composição mista; ou na necessidade prática de adaptar à vida associativa um sector que dela está tradicionalmente afastado, e que urge integrar aceleradamente». (3)

É óbvio que era esta a opção que interessava: a completa integração da universitária na vida associativa. Uma segunda solução prática que evitava as questões fracturantes da primeira.

Finalmente, consultando o programa da mesma lista do Conselho de Repúblicas às eleições de 1968, concluímos por uma ainda maior desvalorização de um CF que só se mantém como um pró-forma, já que está previsto nos Estatutos. E fica-se por esta generalidade:
«Assim, sem prejuízo para a programação que em última análise competirá às colegas que forem eleitas, deverá o CF perspectivar o problema da mulher num sentido que negue todo e qualquer tipo de discriminação, tendente a dar à mulher um papel subalterno face ao homem». (4)

Ou seja: a Carta ficou tacticamente para trás, já que estava estrategicamente muito à frente.

Em conclusão: as relações entre um organismo académico como o CF e o acto de suprema liberdade do autor da Carta, são por assim dizer os dois extremos da tensão criadora entre colectivo e individual, que sempre balizam as grandes transformações. A força normalizadora do colectivo face à força subversiva do individual.

Sei pouco sobre Marinha de Campos que, segundo uma sua contemporânea, não era bem um estudante comum, «não era muito conhecido na vida associativa, nem participava habitualmente nas actividades da AAC», antes «pertencia a um sector intelectual mais informado, com acesso a leituras diferentes, que viajava ou tinha acesso a outras realidades». (5)

Um desalinhado? Um pioneiro? Um idealista? Um feminista avant-la-lettre? A sua biografia já pouco interessa, ultrapassada que foi por um texto que, na sua ardente sinceridade, tocou a inteligência e o coração de gerações, muito para além de qualquer programa político. Apesar disso, ou justamente por isso, Artur Marinha de Campos, onde quer que esteja, aqui lhe deixo uma calorosa saudação, em nome das jovens portuguesas de então e, porventura, das jovens portuguesas de hoje e de amanhã, porque a sua/nossa carta, mais do que um documento histórico, é uma arma carregada de futuro.

Notas

1 Entrevista a Eliana Gersão in Cruzeiro, M. Manuela e Bebiano, Rui, Anos Inquietos – Vozes do Movimento Estudantil em Coimbra (1961-1974). Porto, Afrontamento. p.38.
2 Idem, ibidem p.40
3 Programa de Candidatura da Lista de Colaboradores e Conselho de Repúblicas (LCCR) s/d.
4 Caderno nº10 do Conselho de Repúblicas (1968).
5 Entrevista a Eliana Gersão in Cruzeiro, M. Manuela e Bebiano, Rui, Anos Inquietos – Vozes do Movimento Estudantil em Coimbra (1961-1974). Porto, Afrontamento. p.39

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