
Não partilho das concepções, de natureza a-histórica, que partem dos problemas e das contradições do presente para estabelecerem juízos anacrónicos sobre figuras, episódios ou situações do passado. Não podemos ignorar, ou mandar arrasar, as pirâmides de Gizé ou o zigurate de Ur, apenas porque definiram no tempo da sua construção formas de imposição de um modelo social, de uma crença e de uma ordem posteriormente questionados. Ou porque foram erguidos com recurso a trabalho escravo. Como não faz sentido adoptarmos uma avaliação apenas negativista da colonização europeia dos séculos XV a XIX, que não integre as iniciativas contraditórias envolvendo heroísmo e crime, encontro e exclusão, paixão e cobiça. «Todo o documento de cultura», escreveu uma vez Benjamin, «é também um documento de barbárie». Mas também não podemos aceitar uma história asséptica, utilizada acriticamente como curiosidade, instrumento de negócio ou engodo turístico.
Parece-me pois lamentável que, independentemente do carácter lúdico e popular do concurso As 7 Maravilhas de Origem Portuguesa do Mundo, historiadores profissionais e autoridades académicas aceitem omissões graves, tendentes a embelezar publicamente o passado e a ignorar a sua dimensão contraditória e dramática, falando em abstracto de um «valor histórico e patrimonial.» Concordo por isso com os termos da petição dirigida ao governo que está a circular na Internet, relacionada com a escolha de construções como o Forte de São Jorge da Mina ou da ilha de Moçambique, entre outras. Escolha capaz de elogiar a beleza arquitectónica, o fulgor dos seus muros, o poder que simbolizavam, mas omitindo que serviram, e prolongadamente, de entreposto decisivo para a manutenção do tráfico de escravos. De lugar de desterro, sofrimento e morte. É inadmissível o disfarce da verdade e, em consequência, a redução da dimensão compreensiva, complexa e crítica que toda a História deve ter. Mesmo aquela que legitimamente se destina a alimentar a indústria do turismo ou serve de divertimento.
Por isso me parece criticável o apoio dado à iniciativa pela Presidência da República, pela Universidade de Coimbra, pelo Instituto Camões ou, por paradoxal que possa parecer, pela CPLP. Pode ler e, se concordar, assinar aqui a petição. [Nota posterior: a petição foi entretanto encerrada, pelo que o link deixou de estar disponível.]
Quinta-feira, 04.Jun.2009 at 12:06:47
Concordo e reforço:
De todos os monumentos levados “a concurso”, apenas conheço a fortaleza da Cidade Velha da Ilha de Santiago (Cabo Verde) que, curiosamente, é muito mais espanhola-filipina que portuguesa (o que torna duvidosa a sua integração no lote das “maravilhas de origem portuguesa”). Trata-se de facto de uma enorme e bela fortaleza, bem localizada (com uma vista magnífica) e relativamente bem conservada. Mas a sua construção e localização teve um fito principal e outro derivado: apoiar um entreposto esclavagista (na rota dos escravos capturados e comprados em África e que funcionava de filtro de selecção e comércio dos escravos enviados para a América) e defender a preciosa mercadoria esclavagista dos assaltos dos piratas. E foram as debilidades defensivas da Cidade Velha perante os assédios dos piratas em busca do roubo de escravos que levou a que a capital de Cabo Verde se deslocasse depois mais para norte, para a Cidade da Praia. O povoamento de Cabo Verde deu-se com o (e pelo) comércio de escravos e o seu núcleo inicial estruturado foi a Cidade Velha. E, ainda hoje, uma parte importante da população caboverdiana ou é descendente de escravos, ou de esclavagistas, ou da mistura sexual de ambos. Desassociar a Cidade Velha do esclavagismo, como estupidamente faz este “concurso”, é negar a própria Cidade Velha e “apagar” a maioria da sua população, projectando Cabo Verde para um conjunto de ilhas desabitadas em pleno Atlântico. Porque sem esclavagismo, não só a Cidade Velha não teria existido como possivelmente as ilhas de Cabo Verde nunca viriam a ser povoadas (mesmo a economia pós-esclavagismo assentou num aproveitamento de espaços inóspitos só rentabilizáveis pela disponibilidade de abundante e esfomeada de mão-de-obra constituída por antigos escravos, uns fugidos, outros libertos).
(http://agualisa6.blogs.sapo.pt/1478651.html)
Quinta-feira, 04.Jun.2009 at 01:06:52
Obrigado pelo contributo substantivo. Que apenas confirma a superficialidade da informação encontrada na página da iniciativa.
Um abraço. RB
Quarta-feira, 10.Jun.2009 at 08:06:02
Quanta ignorância e tiques auto destrutivos revelam as palavras anteriores. Possuem aquilo que de pior o ser humano tem. Inveja, mesquinhez, falta de sentido histórico e total incompetência para a compreensão do sentido da evolução histórica. São estes os mesmos que não falaram sobre o coliseu de Roma, as pirâmides do Egipto etc.etc.etc. A história foi o que foi, é o que é, só temos de a assumir. Ninguém pretende negar ou esconder nada. Esses tiques neo-marxistas dos anos 60 ainda reinam, infelizmente, mas foram eles que realmente despedaçaram a sociedade em todos os continentes. A escravatura sempre existiu, infelizmente, ainda hoje existe, e no caso dos africanos, eles passam em África aquilo que seria impensável na Europa. Sobre s.jorge da Mina é necessário dizer que foi construído como entreposto comercial. Já no final do domínio Português séc XVII(domínio filipino), havia tráfico negreiro. Mas foram os Ingleses quem posteriormente, o desenvolveu, com destino à América. Portanto, sejamos francos. Nada melhor que promover o turismo. O encontro de povos mostra como somos pequenos, residuais e efémeros. Todos os que se sentem mal com o passado…tomem um prozac e deixem os de hoje ser felizes. (sem necessidade de revisionismo histórico). CM