Vem este texto a propósito de uma situação que se arrasta há muitos anos e que tem feito caminho. De facto, tem-se repetido sistematicamente um erro histórico, que os nossos estudantes copiam exaustiva e acriticamente. Não se lhes pode imputar o erro, mas há que corrigi-lo, para que a verdade seja reposta e deixe de servir de (mau) exemplo, sobretudo para as escolas. Acresce que o próprio painel de azulejos do monumento ao Senhor Roubado conta a história do caso de acordo com os interesses do clero, que tomou a iniciativa de erguer o padrão e relatar os acontecimentos com erros históricos e numa versão manipulatória.
A história conta-se em meia-dúzia de palavras. Na manhã do dia 11 de Maio de 1671 o padre da paróquia de Odivelas encontrou a Igreja Matriz virada do avesso: tinha sido assaltada na noite anterior, tendo sido roubadas algumas peças, vestuário de santos e as hóstias. Logo se responsabilizaram os judeus pelo nefando sacrilégio. Fizeram-se preces, procissões, versos antijudaicos, auto-flagelações indescritíveis e a Corte ficou de luto. Um mês depois, em 16 de Junho, foram encontradas algumas das peças roubadas, enterradas justamente no local onde viria a ser edificado em 1744 o padrão ao Senhor Roubado. Em 16 de Outubro do ano do roubo foi preso, junto ao Mosteiro de São Dinis – a dois passos da assaltada Igreja Matriz de Odivelas –, um sujeito que tentava roubar as galinhas do mosteiro. Foi preso e identificado como autor do roubo de 10 de Maio. Como não bastasse a confissão, foi interrogado sob tortura, por dois inquisidores, concluindo-se que se tratava de um pobre diabo, sem o juízo todo, que ficara fascinado com as reluzentes vestes dos santos e, perdido de bêbedo, comera as hóstias. O ladrão chamava-se António Ferreira e foi condenado a que lhe cortassem em mãos em vida e queimadas à sua vista, após o que foi garrotado e queimado numa fogueira ateada no Rossio no dia 23 de Novembro de 1671.
Na minha actividade docente tenho solicitado aos alunos – futuros professores dos 1º e 2º Ciclos – trabalhos sobre o património e a história do concelho de Odivelas, o que tem incluído, naturalmente, o caso do Senhor Roubado. Ora, se formos à página electrónica da Câmara Municipal de Odivelas, podemos ler:
Na verdade, a rainha D. Luísa de Gusmão (1613-1666) havia falecido 5 anos antes do roubo da igreja, pelo que não poderia, obviamente, enviar cartas. Este e outros erros são repetidos à exaustão, pois o recurso à Internet constitui hoje a primeira forma de pesquisa. Rapidamente chegam à página da Câmara Municipal e ressuscitam inimputavelmente a rainha. Este erro foi introduzido no concelho por um pequeno opúsculo publicado originalmente pela Junta de Freguesia de Odivelas e reeditado pela Comissão Instaladora da Câmara Municipal de Odivelas, onde se afirma: «A rainha D. Luísa de Gusmão (viúva do rei D. João IV e mãe do príncipe regente D. Pedro) aconselhou um dos secretários de Estado a enviar missivas para que todo o reino soubesse do sucedido.» (O Senhor Roubado, Município de Odivelas / Divisão de Turismo, Odivelas, s.d. [2001], p. 10). O mínimo que se exige é que os serviços competentes da Câmara corrijam imediatamente este embaraçoso erro de palmatória.
No dia 10 de Junho de 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos pintou, em Lisboa, um mural que viria a desaparecer, num incêndio, em 1981. Entre os pintores, muitas caras conhecidas : Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, etc., etc.
O filme que hoje se divulga é um documento precioso, muito pouco conhecido. É da autoria de Manuel Costa e Silva e foi-me disponibilizado por Fernando Matos Silva.
Reproduzo, de seguida, o meu testemunho, acerca do contexto em que a Nova Esquerda que eu conheci surgiu, e morreu, numa posta que escrevi, em Abril de 2004, sob o título «“Do MES à Nova Esquerda«. A ideia generosa da «Nova Esquerda« fracassou, nos difíceis anos 80 do século passado, como movimento autónomo porque, na verdade, a renovação da esquerda carece de muito mais do que de imaginação, boas ideias e boas vontades. Ontem como hoje.
Nas reuniões e discussões prévias ao I Congresso [do MES] lembro-me de ter, em diversos momentos, divagado a sós, angustiado pela percepção da «quadratura do círculo« que constituía, naquelas circunstâncias, conciliar a democracia representativa com a democracia directa, ou «poder popular».
Uma síntese impossível. Era necessário ganhar tempo, mas a gestão do tempo não era o nosso forte, nem o «espírito da época» favorecia as esperas sábias e pacientes.
As revoluções criam uma especial escala do tempo em que nos sentimos atraídos pela acção e a acção exige mais acção. A única saída possível para tornar o MES um Partido útil, na construção da democracia representativa e participativa, tinha-se esfumado com o desenlace daquele Congresso.
Os que romperam prepararam pacientemente a sua integração no PS. Os que ficaram, por convicção ideológica ou devoção a amizades autênticas, forjadas nas lutas do passado, foram absorvidos pela voragem dos acontecimentos e foram saindo, em levas sucessivas, até à extinção do movimento no célebre jantar do Mercado do Povo.
Após a extinção do MES alguns de nós dinamizaram, no início dos anos 80, a criação da «Nova Esquerda» em cuja declaração de princípios se preconizava o «desenvolvimento de um novo pensamento de esquerda que, assentando fundamentalmente na ideia do socialismo democrático, clarifique as suas fronteiras, encare os valores da liberdade individual, da solidariedade social e da iniciativa modernizadora (tanto ao nível económico como cultural), como elementos constitutivos essenciais».
Defendia-se, num notável documento de Julho de 1984, que mantém plena actualidade, entre outros objectivos, o debate «”aberto e inconformista que envolva todos os sectores interessados na modernização do país», o «reforço da democracia» e a «adesão à CEE».
Esse documento preparado para a criação de uma abortada «Cooperativa Nova Esquerda» foi assumido por Afonso de Barros, Agostinho Roseta, Eduardo Ferro Rodrigues, Eduardo Graça, Eurico de Figueiredo, Jofre Justino, José Leitão, Júlio Dias, Margarida Marques, Sara Amâncio, Tereza de Sousa e Vitor Wengorovius.
Em 21 de Abril de 1986 a Comissão Coordenadora da «Nova Esquerda», constituída por Afonso de Barros, Agostinho Roseta, Eduardo Ferro Rodrigues, Eduardo Graça e Vitor Wengorovius anuncia que, após seis anos, a «atitude de solidariedade crítica externa ao PS se esgotou e deve ser superada por uma intervenção política concreta que, para a maioria dos membros desta comissão, pode e deve ser realizada, desde já, dentro do PS».
Em consequência, no decurso do ano de 1986, todos os membros da Comissão da «Nova Esquerda», com excepção de Vitor Wengorovius, entre outros ex-activistas do MES, aderiram colectivamente ao PS.
No dia 7 de Setembro de 1974, em Lusaca, foi assinado, pelos representantes do governo português e da FRELIMO, o acordo que levaria à independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975.
O «Movimento Activista por um Camões Alternativo» do Liceu Camões, em Lisboa, tem um blogue onde acaba de divulgar como foi vivido o 25 de Abril deste ano naquela escola.
«Na madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974, um grupo de jovens soldados arrisca as suas vidas e as suas liberdades por um bem maior: a Liberdade e a Vida de uma Nação, de um Povo.
No dia 24 de Abril de 2009, um grupo de jovens estudantes arrisca…pouco ou nada, diga-se de passagem, recriando essa madrugada e homenageando os jovens de 74, para se certificar de uma coisa: que 25 de Abril não será esquecido. Pelo menos não pelos habitantes do Lyceu Camões.»
Quando se fala de desinteresse dos jovens por estas realidades do nosso passado recente, importa não esquecer que há muitas e notáveis excepções.
Havia (e haverá, pois julgo que ainda estará vivo,) no Barreiro, uma pessoa chamada Estaline de Jesus (julgo que Estaline por parte do pai e Jesus por parte da mãe) o que era uma prova viva que as religiões sempre se encontram. Nunca o conheci pessoalmente apesar de ele ser, pelo impacto do nome, uma referência da terra, mas será de uma geração mais nova que a minha, o que explica que dele só fale por eco. Não tenho, assim, testemunho a dar sobre este famoso barreirense.
Mas tenho um sucedâneo que, sobre esse, posso prestar testemunho directo e vivo na memória. Continuando no mesmo Barreiro que gerou o Estaline de Jesus, nos anos 50 do século ido, tive um colega de escola e turma, que se chamava, por nome próprio, Lenine (este sem santidade cristã acopolada). E ainda hoje re-oiço os ecos dos gritos das nossas futeboladas de recreio em que nós, os outros putos (reles mencheviques por falta de brasão revolucionário no apelido), desesperados pelo egoísmo de posse de bola do craque que era bolchevique por vontade parental, lhe gritávamos a pulmões cheios: “foda-se, passa a bola, ó Lenine!”, o que, em tresleitura, até parece um slogan de dissidentes. O que é uma falsa aparência pois aquele Lenine era catita, questão de fome de posse de bola à parte, e sobre bolchevismo, a malta, naquela idade, sabia menos que nada. Mas este Lenine, enquanto Lenine no nominativo, não durou muito (o titular do nome, esse, deve ser um reformado sobrevivo e cheio de genica, pelo menos são estes os meus votos). É que, como se compreende para a época, o nome deste meu estimado colega de meninice não era bem visto pelas autoridades, tanto mais que, no Barreiro da época, reinava uma repressão de chumbo, estando sob ocupação militar da GNR que acolitava os olhos e as matracas da PIDE.
Entre os vigilantes mores da situação estabelecida e dos bons costumes, contava-se, como quase sempre esteve no fascismo, a Santa Madre Igreja. E o padreca, nosso professor de Religião e Moral, tirou a peito aliviar o bom do Lenine daquele nome ímpio que lhe constava no Registo. E conseguiu-o, após pressões e chantagens várias, exercidas sobre a família. Não me recordo qual o nome substituto pelo qual, numa qualquer operação manhosa de crisma, o Lenine passou a chamar-se à luz da Igreja e do Registo. Mas o que garanto é que, para nós, os inconscientes mencheviques seus camaradas em escola e recreio, ele continuou a ser “o Lenine“, sobretudo quando das nossas futeboladas acesas. Falando só por mim, mas não duvidando que não terei sido caso único, cresceu, deste modo, uma imensa curiosidade em saber quem era esse tal Lenine, não aquele puto egoísta de posse de bola mas o inspirador baptismal, que tinha um nome proibido de se chamar. Este é um dos paradoxos da minha educação política e ideológica, obtida no santo mistério da contradição, que ainda hoje não renego como dívida eterna à Santa Madre Igreja dirigida por Cerejeira.
Boris Vian morreu com 39 anos, vítima de crise cardíaca, em 23 de Junho de 1959. Escritor, engenheiro mecânico, inventor, poeta, cantor e trompetista, teve uma vida muito acidentada e ficou sobretudo conhecido pelos livros de poemas e alguns dos seus onze romances, como L’écume des jours e L’automne à Pékin.
Célebre ficou também uma canção – Le déserteur – que foi, durante muitos anos, uma espécie de hino para todos os que recusavam a guerra – incluindo muitos portugueses. Lançada durante a guerra da Indochina, foi grande o seu impacto e acabou mesmo por ser proibida por antipatriotismo, na rádio francesa, pouco depois do início da Guerra da Argélia.
Por ocasião do 50º aniversário da morte de Boris Vian, Valère-Marie Marchand acaba de publicar uma biografia – Boris Vian, le sourire créateur – que pode ser lida gratuitamente na internet, ou comprada online sob a forma de PDF.
A autora deu também esta longa entrevista onde fala da vida e da obra de Boris Vian.
A esta distância, pelas minhas contas, creio que corria o ano lectivo de 1957/58. Contas de um longo rosário (ver a nota informativa que junto a este testemunho).
O dia 16 de Janeiro de 58 iria ser um dia especial: aos meus olhos de jovem, acabadinha de sair de um liceu da Capital poucos meses antes, eram milhares os estudantes universitários que se encontravam na Assembleia Nacional, prontos a pressionarem o simulacro de debate que aí teria lugar. Estava em causa um decreto-lei que visava liquidar o movimento associativo estudantil, em crescente expansão nos anos lectivos anteriores. Na verdade, com o Dec-Lei 40900 o Governo propunha-se restringir a autonomia das Associações e Pró-Associações de Estudantes do Ensino Superior, limitando-lhes de tal modo as funções que, na prática, as encerrava através de legislação.
De uma coisa tenho a certeza: alguns estudantes nem conseguiram entrar e a maior parte ficou pelos corredores, enchendo-os, sem sequer aceder às galerias. Não havia lugares para tantos. Mas eu entrei e lembro-me, lembro-me desse dia muito bem – já vão ver porquê.
Em baixo, os deputados, vestidos de negro, pareciam-me semi-adormecidos, recostando-se nas cadeiras como se procurassem uma posição confortável para a sesta. Não seria exactamente assim, mas tantos anos depois ainda retenho a imagem de uma massa negra sonolenta, emitindo um estranho rumor, produto confuso de múltiplas exclamações de «Apoiado!» com algo que então se me afigurou ser o ressonar de uns quantos, já completamente caquécticos. Isto enquanto uma meia dúzia de oradores com maiores convicções, ou mais ambição política, discursaram, a tentar ser escutados por um mumificado presidente da Assembleia.
Duraram pouco esses momentos em que, cheios de bom humor, gracejávamos, observando tudo atentamente, registando inconscientemente para a História a nossa visão da Assembleia Nacional fascista em funções. Era facto que tínhamos ido ali com um objectivo preciso – acompanhar os dirigentes num gesto inequívoco de contestação – e só nos mantivemos em silêncio enquanto aguardámos a entrada do Dec-Lei na ordem do dia. Depois, aconteceu uma espontânea pateada geral, com a consequente expulsão de todos nós das galerias e do edifício. Em boa verdade, a minha história começa aí.
Nas escadarias da Assembleia começou a desenhar-se uma manifestação que, claro, foi prontamente reprimida pelas «forças da ordem». A polícia chegara às centenas antes do início da sessão, já tinha começado a bater nos que não chegaram a entrar no edifício e aguardava sofregamente a nossa saída. Eram dezenas e dezenas, de cassetete em punho, numa corrida louca, carregando forte e feio sobre todos os que conseguiam apanhar. Alguns de nós tentaram escapar-se, subindo as Escadinhas da Travessa da Arrochela, em frente do Palácio de São Bento, e muitos foram brutalmente espancados nesse lugar. Lugar de memória, esse.
Desde a infância até à adolescência, ter-se um ídolo, ou vários, é uma âncora fundamental para a saúde do crescimento. Depois, em idade adulta, o culto dos ídolos já é mais discutível – pode dar para o torto quando deriva de infantilização tardia ou ser uma bengala útil que ora se usa e se vai metendo em repouso. O problema dos ídolos é que eles são fugidios, deixam marcas fortes pelo rasto de mimetização e depois seguem viagem para dar lugar a outros ou devolvendo-nos à orfandade de refúgio para darmos conta de nós. Por instinto, vamos lidando com as projecções nos nossos ídolos, gerindo a sua volatilidade entre presença e ausência e ainda, parte dura, a sua intangibilidade. Pelo meio, é a boa gestão desta relação com os ídolos que nos dá a paz do equilíbrio por não sermos forçados nunca a medirmos, taco a taco, a dimensão da nossa «pequenez» perante tanta «grandeza», a do ídolo, podendo viver, com autoestima, um talento ou fama emprestadas. Mas o problema original da lide com os ídolos surge em conseguir tê-los à mão de semear, mas que pode, por proximidade com o imaginário, matá-los ao abrir da redoma. Se a distância desaparece e eles passam do ideal para a realidade, ou caem com os seus pés de barro e adeus vindima, afinal são humanos como nós, ou então são mesmo grandes e supremos e sentimo-nos mal ao medirmos as alturas relativas. Assim, para poder ser fonte de saúde, o herói deve estar suficientemente longe mas em altar onde façamos as nossas missas.
Arrasto, na minha memória, a sombra dos meus ídolos passados. A mais forte é, como costume, a do primeiro na fila da lembrança. Que, para não fugir à regra dominante dos miúdos varões, foi um jogador de futebol. Era o José Augusto, famoso extremo direito, então ainda a jogar no Barreirense mas já a gozar de fama mais que merecida. Um dia, tinha para aí os meus onze anos, fui cumprir uma das obrigações terríveis que um miúdo tem de suportar devido à ditadura dos adultos, a de cortar o cabelo. Havia uma barbearia bem junto ao campo do Barreirense com quem estava ajustado o contrato de, todos os meses, me cortarem o cabelo. Aquilo era um tormento, o feitio do corte estava pré-escolhido pela autoridade familiar, tinha um remoinho capilar que era indomável, custava-me esperar ouvindo conversas intermináveis sobre assuntos de adultos que nada me diziam e parecia-me infindável aquele tanto tempo de tesouradas e aparadelas com uns toques agressivos na cabeça de cada vez que tendia a virá-la para o lado errado ou deixá-la descair. O barbeiro tinha já iniciado a sua sessão de tortura quando se senta na cadeira ao meu lado, ali mesmo ao pé de mim, o José Augusto, o craque. Ia dando, emocionado e intimidado, as minhas miradas de soslaio para o meu herói, subitamente ali à minha beira, na singela distância entre duas cadeiras numa barbearia. O tempo foi passando e, enquanto eu ia sendo tratado secamente pelo profissional que cuidava da minha rebeldia capilar num crescendo de irritação para com ela, o colega que tratava do José Augusto era só mesuras e deferências para com o cliente famoso, um orgulho da terra e do clube. E a minha tortura arrastou-se, nesse dia, muito mais que o normal pois quem cuidava de mim era todo vagares e paragens na função para poder beber os pormenores que o José Augusto, ali ao lado, confidenciava sobre peripécias de jogos e treinos. Não gostei da experiência daquela proximidade que, antes, daria tudo para a conseguir. Porque em vez de ganhar grandeza com a proximidade do meu herói, senti-me ainda mais desprezível e irrelevante. Em vez de crescer, eu fui ainda mais reduzido à condição de miúdo irrelevante. Nada passaria a ser melhor, para mim e para a minha fama, não aprendi sequer uma finta ou um remate imparável, por ter, naquele dia, cortado o cabelo com o José Augusto ao meu lado. E um craque que viria a espantar todo o mundo com o seu talento de exímio extremo direito, a quem prestara culto embevecido, apeou-se ali em mistura com o meu cabelo aparado por uma tesoura de barbeiro. De vez em quando, cruzo-me com ele quando vou ao Barreiro, ambos envergando os nossos cabelos brancos. Presto-lhe um cumprimento de anónimo com a deferência mínima devida para com um ídolo apeado numa sessão de barbearia.
[Texto revisto de um post publicado no blogue Agua Lisa]
Com as suas características próprias, a seu tempo assinaladas, Abril tem indubitavelmente os seus heróis. Heróis supletivos como Spínola, ou heróis genuínos que, emergindo do grande corpo colectivo do MFA, se impuseram, breve mas intensamente. Desses elejo a dupla Otelo e Vasco Gonçalves. Surpreendentemente, eles funcionam como um par de opostos: como se a força catalisadora de cada um ganhasse com a presença do outro, numa tensão que se alimenta mais do conflito do que do consenso.
Parto de uma fotografia, uma simples fotografia de Vasco e de Otelo, em Tancos, cenário de todos os confrontos, que inspira esta inquietante passagem do filme Gestos e Fragmentos de Alberto Seixas Santos:
«O que foi a Assembleia de Tancos? O começo da luta pelo poder? O fim dela? Estão juntos perante a Assembleia do MFA. Talvez os dois heróis estejam a olhar para o microfone. Ou estará Otelo realmente de olhos baixos? Está inclinado, já quase fora da imagem, puxado por uma força marginal invisível. Parece cair para o nosso lado. O rosto é apanhado em movimento. O corpo está torcido, numa incerteza na intenção, e Vasco segura-lhe a mão, impedindo-o de cair. Os tendões do pulso de Otelo estão retesados. O braço dele é puxado para trás, enquanto o pulso de Vasco é firme e seguro. Vasco dirige-se ao microfone voltado para a frente, para a Assembleia, mas metade do seu corpo parece desaparecer na espessa escuridão. Vão ser separados, sair de cena, mas o microfone permanecerá.»
O estudo comparativo das zonas de afastamento e proximidade entre eles, revelando muito sobre os respectivos traços e projectos pessoais, revela tanto ou mais sobre as imagens que deles construímos. Apesar das notórias diferenças intrínsecas, coexistiram no imaginário político abrilista durante algum tempo, até que a sua traumática e dolorosa separação, tantas vezes anunciada e outras tantas desmentida, foi um outro, porventura decisivo, golpe para os revolucionários e para a revolução. A célebre carta escrita por Otelo a Vasco – «Agora, companheiro, separamo-nos (…) Peço-lhe que descanse, repouse, serene, medite e leia» – abalou e emocionou o país inteiro como se tivéssemos perdido a nossa «fada Morgana»: a unidade dos revolucionários, os quais, cada um por seu lado, ditavam a morte da revolução e com ela também o fim do seu breve período como seus símbolos maiores.
Evoluem em cena, quer antes quer depois do decisivo afastamento, de forma radicalmente oposta. À teatralidade nata (por vezes vedetismo?) de Otelo, opõe-se a simplicidade sem pose (por vezes humildade?) de Vasco Gonçalves. À inconstância (quase leviandade?) de Otelo, opõe-se a firmeza (quase obstinação?) de Vasco Gonçalves. Finalmente, a um estilo lúdico de fazer política por gosto em Otelo, opõe-se a gravidade obsessiva de quem a faz por missão, em Vasco Gonçalves. (mais…)
Nuno Teotónio Pereira foi, recentemente, evocado numa cerimónia comemorativa do 85º aniversário da Associação de Inquilinos Lisbonenses. Um dia, pelos idos de 2004, numa série de postas, fiz-lhe uma breve, e escassa, referência considerando que é uma das personalidades mais marcantes da história do MES (Movimento de Esquerda Socialista). Fiquei com uma dívida por pagar.
O Arquitecto Nuno Teotónio Pereira é uma daquelas personalidades raras na qual se juntam um notável curriculum profissional e uma postura de intervenção cívica, persistente e pertinente, assumida desde os tempos da oposição à ditadura. Ele é, na verdade, um dos arquitectos portugueses contemporâneos que foi capaz, como poucos, de integrar, sem cedências à facilidade, as preocupações sociais e a arte de «arquitectar». Há por esse país muitas obras de sua autoria, ou co-autoria, que testemunham esta simbiose.
Nos tempos de brasa do 25 de Abril foi um dos mais proeminentes dirigentes do MES, posição que saiu reforçada aquando da ruptura do grupo de Jorge Sampaio, ocorrida no 1º Congresso de Dezembro de 1974. O MES, na sua curta existência, só participou, de parte inteira, nas duas primeiras eleições da nossa III República: as eleições para a Assembleia Constituinte, disputadas em 25 de Abril de 1975, e as primeiras eleições para a Assembleia da República disputadas em 25 de Abril de 1976.
As nossas esperanças iniciais eram muitas elevadas. A lista do MES, pelo círculo de Lisboa, às eleições para a Assembleia Constituinte, foi encabeçada pelo Afonso de Barros a que se seguiram o Eduardo Ferro Rodrigues, o Augusto Mateus e o Luís Martins (padre, ainda a exercer…). A lista candidata às primeiras eleições legislativas, realizadas em 25 de Abril de 1976, foi encabeçada pelo Nuno Teotónio Pereira, seguido do subscritor destas linhas.
Poder-se-ia pensar que o MES havia encontrado o seu líder. Puro engano. Ao contrário dos restantes partidos, sem excepção, a personalidade que encabeçava a lista por Lisboa nunca foi, no caso do MES, o líder do partido pela simples razão de que no MES nunca existiu um líder. O que hoje penso é que, por incrível que pareça, sempre assumimos, do princípio ao fim, o que poderia designar-se como uma obsessão pelo colectivo.
Abril de 1961. A guerra em Angola começara há pouco mais de um mês. As vitrinas do Palácio Foz, então sede do Secretariado Nacional de Informação ostentam ainda as terríveis fotografias dos massacres levados a cabo pela UPA (União dos Povos de Angola), no levantamento armado de 15 de Março – que o primeiro presidente do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), Mário Pinto de Andrade, viria a classificar de “jacquerie”. A Censura impedira os portugueses de conhecer outros massacres anteriormente ocorridos: milhares de mortos de população civil angolana, na repressão da revolta dos plantadores de algodão da Baixa do Cassange, centenas de mortos nos ataques aos muceques de Luanda e na repressão em Icolo e Bengo, na sequência do assalto pelos nacionalistas às prisões e quartéis da capital angolana, ocorrido a 4 de Fevereiro.
Os estudantes africanos em Portugal temem que também sobre eles se abata a repressão. Muitos deles – “nacionalistas progressistas” da Casa de Estudantes do Império, na classificação do inspector Sachetti [1], baptistas e metodistas dos lares de Lumiar de Carcavelos – tinham acorrido ao aeroporto de Lisboa em Dezembro de 1960, protestando contra a deportação do médico Agostinho Neto para Cabo Verde, sendo por isso identificados e retidos para interrogatório pela PIDE. Por outro lado, a guerra que alastra em Angola dá-lhes uma oportunidade de se juntarem às forças que combatem o colonialismo português.
Com um número muito reduzido de militantes em Conacry – Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Lúcio Lara, Eduardo dos Santos e Hugo de Meneses – e um pequeno núcleo no então Congo-Brazaville, o MPLA apela aos jovens nacionalistas para que abandonem Portugal e reforcem as estruturas do Movimento no exterior.
O MEA, Movimento de Estudantes Angolanos, constituído sobretudo por frequentadores da Casa de Estudantes do Império, decide então enviar dois representantes a França, onde mais facilmente poderiam tentar contactar a Direcção do MPLA. Edmundo Rocha e Graça Tavares são os escolhidos. A resposta do Movimento, de que não tem possibilidade de os apoiar na saída, leva-os a procurar novos caminhos. Na Bélgica e na Alemanha, vão juntar-se a outros estudantes das colónias portuguesas – José Carlos Horta, de Moçambique, José Fret Lao Shong e Manuel Pinto da Costa, de S. Tomé, Alberto Passos, Arlindo Barbeitos, Carlos Rocha, Desidério Costa, Luís de Almeida, Luísa Gaspar e Ruth Neto, de Angola. E parte de Desidério Costa e Luísa Gaspar a sugestão de um contacto com o bispo metodista de Frankfurt, que talvez os possa ajudar. Este põe os jovens nacionalistas em contacto com outro bispo, Black, da Assembleia Mundial das Igrejas Protestantes, em Genebra. Conhecedor da realidade angolana através de um outro bispo protestante, Ralph Dodge, que vivera muitos anos em Angola, Black apoia as reivindicações dos nacionalistas. (Rocha, 2002:219). Ao responder ao incitamento do MPLA, é das igrejas protestantes, nomeadamente norte-americanas, que os jovens delegados do MEA vão receber auxílio.
Este blogue nasceu em 15 de Junho de 2008. No fim deste primeiro ano, os nossos agradecimentos vão, antes de mais, para todos os leitores que por aqui passaram. Mas não podemos deixar de os alargar, também, ao grande grupo de pessoas que deram vida a estes «Caminhos» – 38, até à data. Continuaremos, claro…
Posted by Joana Lopes under Livros Comentários Desativados em Quando o futuro existia
É este o subtítulo de um livro (*) que resultou de longas conversas à volta da mesa de vários jantares, entre quatro portugueses (três, mais rigorosamente, já que o quarto se naturalizou belga), todos nascidos na década de 40. Todos também emigrantes de longa duração, que começaram por recusar sobretudo a guerra colonial, que foram profissionalmente muito bem sucedidos no exílio e que optaram por continuar a viver até hoje fora do país, embora com ele mantenham ligações mais ou menos frequentes, conforme os casos e as diferentes fases da vida.
Antes de mais, importa realçar, positivamente, esta modalidade de narrativa de memórias em grupo, sob a forma oral, que serve bem os objectivos que os intervenientes se propõem: partilhar e discutir, detalhadamente, experiências e visões diferenciadas do mundo, da Europa e de Portugal, no passado e no tempo presente – longuíssimos diálogos que nos proporcionam uma leitura fácil e agradável, mas que deixam adivinhar que muitas e muitas horas de trabalho se passaram entre o gravador e o papel…
José Morais (neuropsicólogo), Manuel Paiva (físico), Jorge de Oliveira e Sousa (politólogo) e Amadeu Lopes Sabino (advogado) nunca chegam a encontrar-se com «Godinho» , o misterioso personagem que, ironicamente, está na origem do título ao livro. Dos quatro testemunhos, os dois mais interessantes são, no meu entender, o de José Morais que nos dá um fidelíssimo retrato das vicissitudes por que passou como membro do Partido Comunista (até dele sair e depois emigrar) e, principalmente, o de Amadeu Sabino.
Complexo é o percurso deste ex-PC, depois MRPP, UDP de passagem, hoje liberal assumido, europeísta com um entusiasmo que nem parece deixar lugar para quaisquer reservas quanto à actuação da Comissão Europeia (onde, aliás, é alto funcionário). O seu testemunho ilustra bem o que foi a segunda metade da década de 60, e o início da de 70, para uma parte significativa da juventude estudantil portuguesa, no caso concreto para a que foi seduzida pelo «maoísmo europeu» que era «uma utopia, uma ficção, que nada tinha a ver com o maoísmo chinês», mas que «exerceu uma força e um impulso imensos na revolução das mentes dos que o praticaram» (p. 298).
Em Espanha, todos os estrangeiros que combateram nas Brigadas Internacionais durante a Guerra Civil têm direito à nacionalidade espanhola, sem terem agora de renunciar à sua. Chegou a vez de sete sobreviventes receberem os novos passaportes na embaixada de Espanha em Londres.
O último lustro da década de 60 foi uma época de pesadelo. Lutas e mais lutas. Duras lutas. Crises e mais crises. O Maio de 68. A crise de 69, em todas as academias, não esquecendo as «eleições». No meio estudantil vivia-se um ambiente pesado de vigilância e repressão policiais. Os activistas eram especialmente seguidos e provocados.
Quem se expunha na actividade associativa legal, tolerada, era inevitavelmente referenciado pela polícia política do regime. Corriam-se riscos. Temia-se a prisão a qualquer momento. Abundavam os rumores e choviam os avisos. Aqueles que, como eu, acreditavam, e acreditam, no progresso nunca se deixaram intimidar. A cada um de nós coube a sua sorte.
Um dia alguém me convenceu que a minha prisão estava iminente. Pois bem, havia que tomar uma decisão. Manter a actividade? Entrar na clandestinidade? Ficar ou partir? Não pertencia, nem nunca pertenci, ao Partido Comunista que era a única organização verdadeiramente organizada em termos de clandestinidade. Não podia arriscar uma caricatura de vida clandestina sem rede. Optei por «dar o salto». Destino: Paris.
Combinei com uns amigos os detalhes. Fizeram-se os contactos com quem havia de nos «passar». Tomámos as providências necessárias. A despedida de quem mais amava foi discreta mas dramática. Levantar todo o dinheiro do banco. Rapar a barba. Tomar o comboio na direcção do Porto. Ponto de encontro: restaurante «Ché-Lapin», à hora de almoço. Almoçámos e esperámos uma eternidade pelo contacto. Não apareceu ninguém. O contacto falhara. Ainda hoje não sei a razão. Nunca mais falei com o dito.
Regresso a Lisboa. Reencontros inesperados. Ao tomar o meu lugar habitual na «Esplanada do Jardim da Estrela», sem barba, senti a extraordinária sensação de não ser reconhecido por ninguém. Nem sequer pelo empregado que me servia todos os dias. Só a minha voz me atraiçoou. Sempre me reconhecem pela voz.
Nunca cheguei a ser preso. Segui o meu caminho. Por um triz estive para engrossar a fileira dos exilados, no caso, de um falso exilado. Felizmente o destino protegeu-me e nem os meus pais chegaram a saber da aventura.
(Retomo, com pequenos retoques, um conjunto de textos de memórias pessoais publicados, em 2004, no Absorto.)
Sou do tempo em que o pronto-a-vestir ainda não tinha aparecido e estava, portanto, longe de se ter apoderado do mercado das fatiotas. Quando se queria um fato, recorria-se a um dos alfaiates que eram, então, artesãos numerosos e respeitados. E a concorrência permitia uma escolha amadurecida. Quando se encontrava, por mestria ou simpatia, um alfaiate que nos apanhava bem os pormenores das linhas do corpo, então dava-se uma fidelização. Mas o normal é que os serviços de uma alfaiataria fossem prestados a todos os varões da família, dos mais velhos até os mais novos e por escolha do patriarca.
A construção da vestimenta tinha os seus preceitos e vagares. Havia, primeiro, a escolha do tecido, normalmente adquirido numa loja-armazem da baixa lisboeta, após demorada investigação das relações preço-qualidade e só depois, matéria-prima na mão, o artesão entrava em funções numa sucessão de cerimónias com várias fases e suas demoras. A abrir, a sessão de se tirarem as medidas que quase imitava uma investigação anatómica. Depois havia as tormentosas sessões de provas que se iam repetindo para ajeitar mangas, bandas, pregas na cintura, as alturas mais os comprimentos e mais as larguras. O alfaiate de giz branco empunhado, alfineteira no braço, dava-nos voltas e mais voltas, repetindo a verificação do efeito das correcções em novas sessões aprazadas e até que a obra fosse considerada acabada. Uma seca, que no caso dos juniores desafiava a sua atávica impaciência para com tão repetidos e enfadonhos rituais.
Por economia caseira, calhava-me herdar os fatos que o meu Tio Luís ia pondo de parte por terem atingido o prazo do uso. Porque o custo do tecido pesava, e muito, no orçamento. Então, o alfaiate desmanchava os fatos usados e ia dispondo as partes dos tecidos do avesso. Quando tudo estava revirado, eu lá ia às provas tirar medidas e ajustar os pedaços de pano até que, do fato usado do meu tio, virado do avesso e com ajuda do mérito da diligente tesoura, lá saía o meu fato «novo». «Está como novo», era o que me diziam. Mas havia sempre um problema insolúvel. Na altura, usava-se, na banda esquerda do casaco, uma ranhura (cuja designação técnica se me varreu da memória) que era o sítio onde se podiam colocar emblemas, cujo uso era corriqueiro na época. Da volta do tecido das bandas, resultava que a ranhura, que devia estar à esquerda, ia parar ao lado direito. Assim, os meus fatos só eram «como novos» na aparência distraída porque a malvada da ranhura ao lado direito estava lá, bem visível, a assinalar o ferrete de se tratar de um «fato revirado». E parecia-me que toda a gente que passava por mim olhava para a ranhura do meu casaco e me gozava por eu estar a usar os fatos do meu tio. Claro que, assim, só usava fato se a isso fosse obrigado. A certa altura, apareceu a moda de se usar uma ranhura em cada banda do casaco, o que prefigurava uma solução para a minha tormenta. Depois, veio rápido o uso e abuso do pronto-a-vestir. Finalmente, o abandono das ranhuras nas bandas dos casacos. Tudo mudanças demasiado tardias para mim. O «mal» estava feito e sem hipótese de reconciliação. Desde miúdo que só enfio um fato no corpo por estrita obrigação. Que tem de ser muito, mas mesmo muito, solene.
[Texto revisto de um post publicado no blogue Agua Lisa]
Posted by Joana Lopes under História Comentários Desativados em O 10 de Junho
Vem de longe a comemoração do dia em que Camões foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1880. Feriado nacional desde os anos 20 do século passado, a data ganhou um novo significado em 1944, quando Salazar a rebaptizou como «Festa de Camões e da Raça». Fê-lo por ocasião da inauguração do Estádio Nacional, que ocorreu com toda a pompa, em cerimónias a que terão assistido mais de 60.000 pessoas e que foram filmadas por António Lopes Ribeiro (vídeos aqui e aqui). A linguagem é inequívoca – «Às cinco horas, chegou o chefe: Salazar. Salazar, campeão da pátria, era o atleta número um, naquela festa de campeões.» – e ouvem-se comentários como este: «Já não vivemos, graças a Deus, naquela época em que parecia mal às mulheres portuguesas cuidarem da higiene e da saúde do corpo, não se preparando convenientemente para a sua altíssima função.»
Mais graves, e bem mais trágicos, passaram a ser os 10 de Junho a partir de 1963. Transformados em homenagem às Forças Armadas envolvidas na guerra colonial, eram a data escolhida para distribuição de condecorações, muitas vezes na pessoa de familiares de soldados mortos em combate (fotos reais no topo deste post).
Desde 1978 que não é Dia da Raça e, para além de Portugal e de Camões, passou a festejar-se também as Comunidades Portuguesas. Mas continua a haver condecorações – outras, evidentemente, por motivos totalmente diferentes e por razões certamente muito louváveis. Talvez fosse no entanto possível ter escolhido outro dia para as distribuir, já que, no meu entender, é quase inevitável associar qualquer distribuição de medalhas neste dia às trágicas imagens do Terreiro do Paço em tempo de guerra nas colónias.
Posted by Caminhos da Memória under Testemunhos Comentários Desativados em Tarrafal – Discurso de José Maria Neves, Primeiro-Ministro de Cabo Verde
Simpósio Internacional sobe o Campo de Concentração do Tarrafal, 28 de Abril de 2009
Em Agosto de 2006, sob meu impulso, o Conselho de Ministros aprovou a Resolução nº 32/2006, que reconhece o ex-Campo de Concentração do Tarrafal e suas respectivas dependências como Património Nacional da Republica de Cabo Verde. A mesma Resolução consagra o dia 29 de Outubro como o Dia da Resistência Antifascista em Cabo Verde.
Foi, efectivamente, a 29 de Outubro de 1936, que chegaram ao então Campo de Concentração do Tarrafal, criado em Abril do mesmo ano, os primeiros prisioneiros políticos de Portugal: homens temperados na luta antifascista e imbuídos dos ideais mais nobres, quais sejam os da liberdade e da dignidade da pessoa humana.
Naquela altura, também sugeri que se organizasse um simpósio internacional que testemunhasse a dimensão deste Campo de Concentração, a um tempo, cárcere e espaço de luta contra o fascismo e pela independência de povos colonizados de África, «aldeia da morte» e um mundo de determinação e de vontade de vencer e de esperança na liberdade.
Benditos aqueles – Fundação Amílcar Cabral e Ministério da Cultura de Cabo Verde, com os apoios das Fundações Mário Soares, Sagrada Esperança e José Eduardo dos Santos – que, sob o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, organizaram este importante encontro de reflexão sobre o «Longo Caminho para a Liberdade», como escreveu Nelson Mandela, depois de 27 anos de prisão, a lutar contra o apartheid e pela dignidade do povo sul-africano.
Temos de continuar a trabalhar para que este que foi um dos mais sinistros Campos de Concentração do Salazarismo e que, hoje, é património Nacional de Cabo Verde, seja também reconhecido como Património da Humanidade.
É que nestas paredes estão guardadas histórias de pessoas e de povos de Angola, de Cabo Verde, da Guine Bissau, de Portugal, escritas com suor, sangue e lágrimas, que adubaram o chão da luta e fermentaram os ideais da independência nas ex-colónias portuguesas e da resistência antifascista em Portugal. Este Campo é Património de toda uma Humanidade em luta contra o fascismo e todas as formas de totalitarismo.
É um dever de memória recordar e homenagear todos aqueles que foram encarcerados neste campo de morte lenta, aqueles que morreram e rasgaram a estrada de emancipação dos povos e da conquista da liberdade e da democracia.
Posted by Rui Bebiano under História, Livros Comentários Desativados em Entre a crença e a desilusão
Paul Hollander é um sociólogo americano que deixou a Hungria natal após o esmagamento da revolução antiestalinista de 1956, tendo sido responsável, em conjunto com a jornalista Anne Applebaum, pela edição recente de From the Gulag to the Killing Fields, uma perturbante compilação de testemunhos de ex-prisioneiros políticos dos regimes do «socialismo real» que nos dá um retrato vertiginoso dos patamares desse mundo inferior para o qual estes foram empurrados. Neste O Fim do Compromisso o objectivo é outro, apontando para uma revisitação, apoiada no conjunto alargado de testemunhos autobiográficos, do percurso de quadros comunistas de origem intelectual que após servirem durante décadas os regimes em cujos fundamentos de justiça acreditaram, iniciaram um processo de questionamento das suas certezas iniciais. Mas olhando também aqueles que, no Ocidente, se empenharem apaixonadamente na causa comunista e depois com ela romperam.
Estes processos, individuais e quase sempre solitários, foram inevitavelmente demorados e invariavelmente dolorosos. Demorados pois implicaram uma revisão de convicções, mudanças profundas na vida de quem os viveu, e, no caso de a ruptura ocorrer nos países nos quais os comunistas detinham o poder, riscos pessoais muito elevados que requeriam bastante ponderação. Nas entrevistas feitas pelo autor, a esmagadora maioria dos testemunhos falou, por isso, muito mais da resistência ao desencanto, e das hesitações, do que do exacto momento no qual decidiu consumar a ruptura. Insistindo, recorrentemente, no modo como a teoria do «fim último» tantas vezes serviu para escamotear a desilusão e adiar o corte. Mas foram também processos dolorosos porque produziram quase sempre uma mudança muito profunda na vida de quem os viveu, o isolamento radical do seu dissídio, infamantes acusações de traição, a redução forçada ao silêncio, e, por vezes, graves complicações no que respeitava à sobrevivência material ou à segurança pessoal.
O estudo de Hollander segue em regra uma estratégia discursiva que integra informação segura, confirmada, e reflexão ponderada. Perde todavia um pouco de lucidez quando, no capítulo final, o autor baixa a guarda e mostra uma faceta profundamente anticomunista, revelando alguma incapacidade para aceitar as razões de quem, apesar de tudo, não abjurou totalmente e resistiu à completa desilusão. Eric Hobsbawm, Noam Chomsky, Edward Said e Toni Negri, entre outros, são aí invectivados por, cada uma à sua maneira, terem continuado a sugerir, após 1989, que a «convicção comunista» é algo de imperecível, localizado bem para lá das experiências nefastas do socialismo de Estado e da paralisia dos partidos ortodoxos, mantendo uma dimensão positiva e frequentes vezes atraente.
Paul Hollander, O Fim do Compromisso. Intelectuais, revolucionários e moralidade política. Tradução de Virgílio Viseu. Pedra da Lua, 480 págs. [Publicado originalmente na revista LER de Maio]
Aqui Posto de Comando das Forças Armadas! – Era o que o meu coração de 35 anos voltara a ouvir. Como se tivéssemos rebobinado o filme da Revolução, um ano para trás. A festa regressava. Lisboa matava saudades do primeiro de Maio de 74.
As rádios e a televisão engalanavam-se com músicas a condizer e reportagens sobre o acontecimento, melhor dito, sobre os acontecimentos. As pessoas ainda se comoviam quando falavam do 25 de Abril, para as câmaras. E, contudo, nada de palavras alusivas aos partidos, que toda a gente cuidava de respeitar a nova lei eleitoral. Nesse dia, íamos votar. Todos ou quase todos, e muitos pela primeira vez.
Vinte e cinco de Abril de 75: o voto em liberdade!
No teu voto a força do povo – tinhasido um slogan nosso, da oposição, nas eleições fascistas de 1969.
Para muitos, uma vida e, para mim, anos e anos à espera daquele dia. Eu tinha sido nomeada presidente de uma mesa de voto e, por isso, quase não dormira. Com a preocupação de que algo não corresse bem, com um sentido de responsabilidade infantil, à medida da novíssima democracia. (Voltei a lembrar-me dessa sensação quando vi, pela televisão, a transmissão da votação do referendo em Timor, e me comovi com as filas de timorenses, a aguardarem a sua vez, desde a madrugada. Um povo quando acredita na força do seu voto, vai, não desespera, aguenta, festeja).
Antes das 7 horas saí de casa, com o meu fato de eventos – já batido, mas cerimonioso – e com um sorriso para o mundo, pronta para eternizar, na minha memória, as horas que iria viver. Sentia-me como se estivesse apaixonada: tudo me parecia irreal, a cidade branca, a luz rósea-doce, as pessoas encantadoras. Os lisboetas eram novamente a melhor gente do mundo e, a cada virar de esquina, em cada paragem de autocarro, voltavam a oferecer-nos a generosidade e a ternura com que nos tinham surpreendido na primeira semana da Revolução, um ano antes. A magia voltara.
Mal fecho a porta de casa, começo uma caminhada a pé, sempre à procura nos olhos dos vizinhos de encontros com os meus, de uma cúmplice alegria silenciosa. «Que contente que estou! Será que eles, os madrugadores da Penha de França e da Graça que se cruzam comigo, me compreenderiam se, neste momento, lhes garantisse que nunca irei esquecer o dia de hoje? Que, tal como na canção do Sérgio Godinho, este dia me parece ser, outra vez, o primeiro do resto das nossas vidas?» – pensava, contendo-me no impulso de os beijar, em lugar de lhes fazer um aceno cordial.
O Conselho Feminino, um case study da problemática feminista dos anos 60
O essencial das minhas reflexões anteriores, basicamente concordantes com um trabalho mais exaustivo e completo de Miguel Cardina, publicado neste blogue, parece-me amplamente apoiado nos documentos estudantis da época – comunicados, programas eleitorais, textos de reflexão e divulgação, etc. – não esquecendo os testemunhos orais dos protagonistas das crises estudantis, dirigentes conhecidos ou estudantes anónimos.
De todo esse vasto material, escolho um caso paradigmático: O Conselho Feminino da AAC e a forma como foi utilizado (ou não) pelo movimento estudantil em geral, e pelas mulheres em particular, justamente ao longo dos anos 60. Integrado no organograma da AAC, pelo menos desde 1961, entre áreas como Desporto, Actividade Social e Pedagógica, Convívio e Intercâmbio, foi sempre o menos apoiado. Abordado pelos responsáveis associativos com um misto de desconforto e desorientação, absolutamente ignorado – e até ridicularizado – pela grande maioria das suas destinatárias.
É de Eliana Gersão, sua presidente no ano de 1961-62, esta eloquente e saborosa descrição:
«O CF, para o qual eu tinha sido eleita, era então um órgão apagado e irrelevante, que se limitava a organizar algumas actividades consideradas femininas, como cursos de decoração ou puericultura. Tanto assim, que o espaço que lhe estava disponibilizado era a cozinha da AAC. Nós também começámos por organizar essas actividades, embora tentando inovar alguma coisa. Assim, organizámos um curso de decoração, um curso de ginástica feminina, e ainda um curso que teve o estranho nome de Puericultura pré e pós natal. Foi dirigido pelo Dr. Assis Pacheco e pretendia dar às raparigas alguma informação em matéria sexual. Como isso era um tema absolutamente tabu, que nunca poderia ser apresentado como tal, incluí-lo num curso de puericultura foi o subterfúgio que encontrámos…» (1)
E nem a oportunidade de ouro, oferecida de bandeja pela pedrada no charco que foi a Carta a uma jovem portuguesa da autoria de Marinha de Campos, e publicada na Via Latina de 19 de Abril de 1961 – verdadeiro manifesto pela liberdade da mulher, inclusive sexual – foi aproveitada. Antes se veio a revelar motivo acrescido de embaraço e confusão. Na verdade, a carta desafiava a mentalidade dominante, especialmente feminina (a dos Lares de Freiras), e com ela os sectores mais conservadores e obscurantistas dominados pela Igreja, que desencadeou uma verdadeira campanha de desagravo, em que confundia liberdade e emancipação da mulher com libertinagem, imoralidade, indignidade, verdadeiro plano de subversão dos «mais sãos e autênticos valores da sociedade portuguesa».
Os sectores progressistas, numa clara posição defensiva, não entram nessa guerra, que remetem para o foro das opções individuais. A própria Via Latina, em cujas páginas «o escândalo» rebentou, «defendeu-se dizendo que devia ser pluralista, e publicar todos os artigos, independentemente de concordar ou não com eles. E abriu um número especial para publicar as respostas à carta. Foi também por aí – defesa da liberdade de opinião – a reacção da DG. Ficou à margem do debate sobre o conteúdo da carta, não apoiou (não há um único texto da DG de apoio à carta) nem atacou, considerando que não tinha que se manifestar sobre o assunto». (2)
Não partilho das concepções, de natureza a-histórica, que partem dos problemas e das contradições do presente para estabelecerem juízos anacrónicos sobre figuras, episódios ou situações do passado. Não podemos ignorar, ou mandar arrasar, as pirâmides de Gizé ou o zigurate de Ur, apenas porque definiram no tempo da sua construção formas de imposição de um modelo social, de uma crença e de uma ordem posteriormente questionados. Ou porque foram erguidos com recurso a trabalho escravo. Como não faz sentido adoptarmos uma avaliação apenas negativista da colonização europeia dos séculos XV a XIX, que não integre as iniciativas contraditórias envolvendo heroísmo e crime, encontro e exclusão, paixão e cobiça. «Todo o documento de cultura», escreveu uma vez Benjamin, «é também um documento de barbárie». Mas também não podemos aceitar uma história asséptica, utilizada acriticamente como curiosidade, instrumento de negócio ou engodo turístico.
Parece-me pois lamentável que, independentemente do carácter lúdico e popular do concurso As 7 Maravilhas de Origem Portuguesa do Mundo, historiadores profissionais e autoridades académicas aceitem omissões graves, tendentes a embelezar publicamente o passado e a ignorar a sua dimensão contraditória e dramática, falando em abstracto de um «valor histórico e patrimonial.» Concordo por isso com os termos da petição dirigida ao governo que está a circular na Internet, relacionada com a escolha de construções como o Forte de São Jorge da Mina ou da ilha de Moçambique, entre outras. Escolha capaz de elogiar a beleza arquitectónica, o fulgor dos seus muros, o poder que simbolizavam, mas omitindo que serviram, e prolongadamente, de entreposto decisivo para a manutenção do tráfico de escravos. De lugar de desterro, sofrimento e morte. É inadmissível o disfarce da verdade e, em consequência, a redução da dimensão compreensiva, complexa e crítica que toda a História deve ter. Mesmo aquela que legitimamente se destina a alimentar a indústria do turismo ou serve de divertimento.
Por isso me parece criticável o apoio dado à iniciativa pela Presidência da República, pela Universidade de Coimbra, pelo Instituto Camões ou, por paradoxal que possa parecer, pela CPLP. Pode ler e, se concordar, assinar aqui a petição. [Nota posterior: a petição foi entretanto encerrada, pelo que o link deixou de estar disponível.]
Posted by Miguel Cardina under Livros Comentários Desativados em Fantasia Vermelha
Por ocasião da publicação recente em Portugal de Fantasia Vermelha, de Iván de la Nuez, repesca-se aqui uma resenha feita à data da edição espanhola do livro.
A imagem de Cuba como sinónimo de utopia, festa e liberdade deve-se, em grande medida, ao contexto específico dos anos sessenta e aos debates que então atravessam a esquerda. Cuba representava, simultaneamente, uma afronta veemente ao imperialismo americano e a possibilidade de um socialismo alternativo àquele que era proposto por Moscovo. Como em nenhum outro caso, os intelectuais ocidentais desempenharam um papel fundamental na disseminação deste fascínio pela ilha caribenha. O último livro de Iván de la Nuez – Fantasia Roja. Los intelectuales de izquierdas y la Revolución cubana – fala precisamente deste «cubanismo de uma zona da esquerda ocidental» (p.15), que ainda hoje parcialmente se mantém, agora numa mistura de admiração voluntariosa pelo regime de Havana e de recuperação de temas próprios de um tempo pré-revolucionário.
Iván de la Nuez (n. 1964), um escritor cubano radicado em Barcelona, explora neste texto o fascínio dos intelectuais ocidentais comprometidos com Cuba, obsessão essa que «talvez mereça uma explicação mais psicológica do que política, mais erótica do que ideológica, mais pessoal do que social» (p.11). A viagem é feita através das representações construídas por gente tão diversa como Jean-Paul Sartre, Régis Debray, Giangiacomo Feltrinelli, Oliver Stone, Sydney Pollack, Wim Wenders, Graham Greene, Max Aub, Ry Cooder ou David Byrne. Apesar das profundas diferenças assinaladas, todos eles ajudaram a criar uma ilha paralela, que este ensaio revisita de forma crítica.
O autor esclarece, logo a abrir, que o termo «fantasia» não é utilizado em sentido pejorativo, como uma imagem enganosa, mas sim, na linha de Peter Sloterdijk, como uma «ideia que se faz verdadeira a si mesma, como uma ficção operativa» (p.14). Deste modo, a sedução por Cuba – mais próxima da utopia do que do quotidiano –, foi também a responsável pela criação de ideias que ajudam a explicar a Revolução. Ao mesmo tempo, demonstram um punhado de teorias que pertencem, de pleno direito, à história dos discursos neo-coloniais. Apostadas em aprofundar a crítica ao capitalismo, esta vasta trama de vozes empenhadas raramente esteve interessada em conhecer com profundidade as dinâmicas reais do Terceiro Mundo, como o denunciaram, em tempos e termos diferentes, Conrad, Guevara ou Said.
Recebemos de várias fontes a extraordinária reportagem fotográfica que hoje divulgamos. Embora a mesma se encontre já disponível na internet, colaboradores e leitores pediram-nos que a «alojássemos» também neste blogue, o que fazemos com o maior prazer – simbolicamente no dia em que se comemora o 40º aniversário do início da célebre greve aos exames.
Também em versão PDF. (O respectivo carregamento pode levar alguns minutos.)
Posted by Eduardo Graça under História, Testemunhos Comentários Desativados em Anjos e Marvão Libertação – uma homenagem tardia
João Mário Anjos (à esquerda), Eduardo Ferro Rodrigues (ao centro)
e o subscritor (à direita).
Fotografia de uma época próxima dos factos
Um dos acontecimentos mais marcantes a que assisti no período imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974 foi o da recusa dos oficiais milicianos (João) Anjos e (Carlos) Marvão em comandar uma acção destinada a reprimir uma greve dos trabalhadores dos CTT. Na verdade a unidade militar na qual, no dia 17 de Junho de 1974 (?), ocorreu esse acontecimento era aquela onde eu prestava serviço militar: o 2º Grupo de Companhias de Administração Militar (ao Campo Grande).
Alguém dos poderes provisórios, saídos da revolução, não sei quem, decidiu que caberia àquela unidade militar estrear um tipo de intervenção que colocaria as forças armadas, acabadas de sair triunfantes do 25 de Abril, contra uma acção reivindicativa de trabalhadores. Foi uma decisão surpreendente, ainda para mais, quando nos demos conta que o comando da força repressiva seria cometido a oficiais milicianos.
Lembro-me de terem reunido e de um oficial superior encetar a tarefa impossível de ordenar a um oficial miliciano (ou oficiais) que comandasse a força. Começou por uma ponta na qual, por acaso, se haviam posicionado o João Mário Anjos e o Carlos Marvão. Não sei já qual foi o primeiro a recusar a ordem mas indagado o segundo, que também recusou, o oficial resolveu suspender a diligência. Logo a seguir, na terceira posição, se não me falha a memória, estava eu próprio. Nos dias 25 e 26 de Junho foi concretizada a prisão dos oficiais rebeldes que seguiram para a prisão da Trafaria.
A greve dos trabalhadores dos CTT terminou no dia 20 de Junho mas a posterior prisão daqueles oficiais despertou a mais profunda indignação dando origem a diversas manifestações, com significativa participação popular, de que possuo registo de duas: a primeira convocada para 28 de Junho no Campo Grande, junto à Churrasqueira, e a segunda realizada no dia 9 de Julho na Praça Marquês de Pombal proibida, aliás, pelas autoridades. Segundo uma cronologia do Centro de Documentação 25 de Abril Os manifestantes recusam-se a obedecer e desfilam até ao Marquês de Pombal.
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Colóquio Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização 15 e 16 de Abril de 2010
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Organização: * Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa
* Centro em Rede de Investigação em Antropologia
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